15/10/08 “NUNCA VI UMA CLASSE TÃO CHORONA”
Iatã Cannabrava dispara frase em que convoca fotógrafos a abrirem os olhos para as oportunidades
Esse é Iatã Cannabrava. Fotógrafo e curador que há pouco mais de um mês foi eleito pela comunidade fotográfica como o Melhor Agitador Cultural do Brasil, e que sem muitas restrições, costuma falar simplesmente o que pensa. Assim nasceu o título dessa matéria, enquanto traçava rabiscos numa folha em branco. Embora consciente de sua qualidade na oratória, - a mesma que lhe traz sucesso nos negócios e esperteza para esquivar-se de alguns assuntos polêmicos - Cannabrava confessa que gostaria de ser mais educado o que lhe pouparia algumas dores de cabeça. Desenvolvedor de projetos e iniciativas dentro da área fotográfica, neste bate-papo o fotógrafo comenta a saída repentina do festival Paraty em Foto, fala da importância do presidente Lula e deixa recado aos fotógrafos: “A gente vem de uma escola que não sabe ouvir crítica. Se o cara não gostou do seu trabalho o papo não termina. Nós temos que crescer”.
Thomaz Gomes – O trabalho de agitador e curador têm um forte aspecto político. Você já pensou em ser político?
Eu venho de uma família com fortes ligações políticas. Mas o fazer político é algo muito bonito, que está relacionado a história da minha família. Com seis anos de idade saí do Brasil, acompanhando o exílio dos meus pais. Voltei só quando tinha 18. Minha formação se deu nesse ambiente do exílio, de uma América Latina em ebulição, de guerrilhas e revoluções. A militância sempre fez parte da minha vida. Quando voltei ao Brasil comecei a atuar como militante do PDT, na juventude brizolista. Foi uma experiência que, sem dúvidas, contaminou todo o meu trabalho como fotógrafo, como produtor e como agitador cultural. É uma influência que vem no sentido da forma de trabalhar. A formação como militante proporciona uma linha de trabalho muito específica. Mas o mais importante é buscar uma reflexão mais profunda, um fundo ideológico no que se faz. Falta para a sociedade acordar. É preciso ter uma ideologia para viver, citando Cazuza. E a ação dos políticos atuais fazem com que a gente queira fugir dessa discussão ideológica. A política tradicional brasileira foi perdendo sentido. O que não quer dizer que ser político, fazer política, tenha perdido importância. Cada vez mais pessoas buscam uma compreensão ideológica em suas atividades.
Thomaz – Mas você não seguiu o caminho da militância, da política tradicional. Escolheu um outro meio como agente de transformação, no caso, a fotografia. Você acha que ainda existe espaço para um modelo idealista ou as ferramentas de mudança são outras atualmente?
Em um certo momento da minha vida, eu me deparei com uma grande dúvida. Era militante e fui para a extinta União Soviética, no Festival Internacional dos Estudantes, como representante da Juventude Socialista do PDT, junto com outros colegas. Levei meu equipamento fotográfico. Sofria para decidir se ia para as reuniões, debates e articulações, ou se saía para fotografar Moscou, que era uma cidade que me fascinava muito. Pela primeira vez me vi na dúvida entre o fazer político e o fazer fotógrafo. O que acho que aconteceu é que, durante os anos, meio inconscientemente, terminei construindo um caminho misturando as duas coisas. Hoje em dia sou militante e fotógrafo. Utilizo a fotografia como meio de transformação social. Acho que é o grande diferencial da minha proposta de trabalho.
Thomaz – Desse modo, como você consegue enxergar a fotografia como um instrumento político de mudança, na prática, além do caráter denunciador.
Vamos dar um corte na palavra política e falar de sociedade, da cidadania como um conceito. A grande discussão, o grande drama do mundo atual é as mega-cidades. As periferias de São Paulo, as favelas do Rio, as baixadas de Belém. Esses são os grandes problemas a serem equacionados. A solução da questão do planeta não vem mais do centro do pensamento. Vem das margens, no sentido global da palavra, do que está marginalizado. Nesse sentido, a fotografia também não é a linguagem principal. É a linguagem à margem. E é nessa força que vão surgir novas alternativas ao sistema vigente. O caminho para a fotografia não é a denúncia. O projeto de Olho nos Mananciais, que fizemos com o ISA, tem como proposta conscientizar a população de São Paulo em torno do problema da água. Utilizamos a fotografia, em um conceito onde qualquer um com uma câmera poderia participar. Isso criou uma campanha que deixou de ser hermética, que saiu do âmbito científico da poluição e se tornou palpável para o público, através da fotografia e do ato de participar. Tanto a pessoa que mora na beira da represa ou a que apenas abre a torneira, longe dali, passaram a se preocupar, a participar dessa questão, pelo ato de fotografar. Esse é um exemplo claro da fotografia como um instrumento de conscientização nas questões sociais.
Flávia Lelis – Mas a população local foi envolvida ou o projeto serviu apenas como meio de conscientização para um grupo de fotógrafos?
Essa é uma questão muito interessante. Que grupo de fotógrafos foi esse? Qualquer um com uma câmera na mão podia participar. O Brasil tem milhões de aparelhos celulares. Destes, pelo menos 10% possuem uma câmera fotográfica. E não estão nas mãos das elites simplesmente. Houve uma grande democratização no ato de produzir imagens. Tivemos duas frentes de ação no projeto. Por um lado, queríamos levar a classe média, que não vive o problema da periferia, para a volta da represa, gerando uma consciência desse drama do qual todos nós fazemos parte. O outro lado do projeto era envolver os moradores da região. Tivemos participantes dessas duas realidades, com integrantes das comunidades locais recebendo a classe média, que conheceu onde essas pessoas moram, esse outro Brasil.
Thomaz – Olhando o seu histórico, de família de exilados, de militância política, não é difícil observar como o cenário político mudou? O conceito do que era conhecido como a esquerda não é mais o mesmo. O PT, por exemplo, após chegar ao poder executivo, passou a realizar alianças políticas questionáveis. Você ainda consegue manter uma ideologia partidária?
Vou falar um pouco do Lula. Acho que ele é um dos mais importantes presidentes que o Brasil já teve. No momento em que ele fala de futebol, ou que manda o Hugo Chávez se acalmar, o Brasil ganha elegância. Nosso presidente metalúrgico, que não tem universidade, que não é um acadêmico, tem sido muito elegante no desenvolvimento do poder. Existem os problemas de corrupção, mas a figura dele me interessa muito. O Lula é um grande negociador do Brasil e marcou uma mudança de figura na linguagem política. Não consigo mais falar do PT, do partido, por exemplo. Consigo pensar em uma figura. E isso não é coronelismo, nem caudilhismo. Se o Lula sair do governo não acontecerá uma grande crise. O Brasil começou a ter uma estrutura institucionalizada. Acredito que ocorreu uma modernização positiva dos mecanismos brasileiros. Temos muitas ONGs e institutos, que desenvolvem um papel fundamental nessa estrutura. Muitas grandes empresas se tornaram corporações sérias, profissionais, que organizaram suas operações, ao invés de corromper fiscais. Ou seja, há um Brasil que se moderniza, que cresce com inteligência. A nossa fotografia também participou desse desenvolvimento. O patrocinador da fotografia brasileira, em certa época, poderia ter sido os lenços Kleenex. Eu nunca vi uma classe tão chorona, reclamando que não tem dinheiro, que não tem espaço… Mas as férias são em Miami, Paris, Roma… Não tem mais sentido ficar mais chorando. A fotografia nunca teve tanto espaço, nos campos artísticos e comerciais. Nunca se vendeu tanta fotografia no mercado de arte. Vejo grandes jovens fotojornalistas trabalhando. Nossa fotografia publicitária continua sendo premiada e celebrada no mundo. Continuamos tendo grandes fotodocumentaristas. Temos pelo menos 12 festivais de fotografia em diversos estados do país. Como é possível que a gente não enxergue esse excelente desenvolvimento que a fotografia vem atingindo? Eu sou um otimista. Vejo um espaço crescente para a fotografia brasileira. Mas temos vários prêmios e bolsas de fotografia, nos quais, muitas vezes, não existe ninguém, ou quase ninguém inscrito. Estamos tão acostumados com o discurso Kleenex que não vemos esse boom. Isso é mundial. Aliás, o termo Kleenex nem é meu. Imagina você chegar diante de um patrocinador, chorando as pitangas e afirmar que sem o dinheiro dele você não consegue trabalhar. Sua vida, seu projeto, tem que fazer sentido independente desse patrocínio. Existe uma inversão de valores. O fazer cultural tem que vir na frente do fazer comercial. Nada contra o fazer comercial, mas a base deve sempre ser acreditar no que se faz, com a narrativa cultural puxando o aspecto econômico. Não o contrário.
Thomaz -Você costuma reclamar muito das coisas que vê? O que você faz para mudá-las?
Eu sou mais um integrante da classe média que tem carro, e eu sempre andei de metrô, mas decidi que eu deveria voltar a andar de ônibus por uma questão primordial: é no ônibus que estão as pessoas. Até demais para o meu gosto, mas é lá que elas estão. Eu deixo de andar de carro para andar de ônibus e descobrir as deficiências desse sistema. O dia em que a classe média viu que a escola pública não funcionava tirou os filhos de lá e colocou na escola particular. A mesma coisa quando viram que os hospitais públicos não funcionavam: passaram a pagar planos particulares. Abandonaram a luta pelo ensino e saúde pública decente. Eu ando de ônibus, freqüentei a escola pública e bebo água de filtro, não de garrafinha, eu faço a minha parte, eu vivo em consonância com a realidade desse país. A mesma coisa com a fotografia: há que se participar do mundo real para poder ter propostas reais, senão vamos viver numa eterna esquizofrenia.
Flávia - Você é conhecido no universo da fotografia como agitador. Você não pára, se envolve em várias coisas: eventos, cursos, palestras, etc. Você participa de todas as etapas deste processo? É fácil fazer as coisas acontecerem dentro deste processo?
A primeira coisa que se faz é desenhar a idéia do projeto. Ver como bate a sua idéia no mercado, na sociedade. Esse é o primeiro processo: curar a idéia. Essa etapa se torna divertida quando se aprende que não é possível realizar todos os seus projetos. Eu devo ter redigido nos últimos 10 anos uns 100 projetos. A segunda etapa é que a gente enfrenta o problema da sistemática da produção cultural. Na fotografia somos muito novos nessa área de projetos, mas estamos melhorando. Minha empresa, por exemplo, já melhorou bastante, tivemos resultados frutíferos. Nos falta muito esta sistemática, é uma crise muito brasileira.
Flávia - Você disse que fez vários projetos esse ano. Você aprendeu por conta própria ou foi atrás para aprender a fazer?
Não, sou um autodidata, mas não quer dizer que não estudei, não li. Tem que profissionalizar o projeto. Artista não pode viver aquela pecha e fama de que é tudo porra-loca, mas não pode perder a essência, mesmo que ela seja meio caótica.
Flávia - Eu vou ler o trecho de uma crítica e fazer dela parte da minha pergunta. É parte de um post que peguei do blog da Simonetta Persicheti, o Trama Fotográfica: “O evento amadureceu e cada vez mais se firma como festival. Parabéns ao Luiz Marinho, Marcelo Greco, Giancarlo Mecarelli e Iatã Cannabrava.” Essa crítica faz parte do Paraty em Foco, do qual você fez parte em 2006 e 2007, no qual você fez parte da curadoria. Em 2008 você não participou. O que aconteceu?
Galileu disse que o mundo era redondo, o mundo gira, as coisas estão em constante mutação. Fazer o Paraty em Foco foi uma grande felicidade pra mim, ajudar a levantar esse festival. Participei do 1o ano, no 2o foi um evento pequenininho, mas com uma idéia muito boa. No 2o eu fui convidado para fazer a coordenação da programação. O que importa é que festivais como esse ganhem cada vez mais força, então problemas gerenciais de bastidores fazem parte da dinâmica cultural. Esse ano o festival voltou a ter sucesso, o que prova que a idéia é boa e que há campo na fotografia pra esse tipo de projeto e mais do que isso: ninguém é indispensável. Seria muito ruim se eu me colocasse na posição de ser indispensável. A fotografia tem tido muita dificuldade em ter discursos uníssonos na hora de se comportar como uma corporação. A fotografia está precisando de mais verbas, de mais espaços...
Flávia – Sobre o “Paraty em Foco” você disse que é preciso mudar, que é preciso ter gente nova cuidando dos eventos. Mas não acha que assim vai perdendo a linearidade?
Bom, vamos tentar responder da melhor maneira possível. Nem sempre é viável a manutenção das coisas como a gente quer e deseja. Eu não acho que tenha sido nenhuma grande tragédia. O Festival aconteceu, mas sem dúvida nenhuma poderia ter sido melhor se eu tivesse continuado por mais um tempo até consolidar, pelo menos, essa linha. O que não quer dizer que eu não possa voltar, não é?! Essas coisas se rearranjam. Eu acho que é um Festival novo que está nascendo. É um pouco de política cultural contemporânea, a mudança de curadores de festivais e tal. Quem sabe para o Paraty tenha sido um pouco cedo para isso? Quem sabe o ideal teria sido que a linha que eu estava consolidando tivesse sido mantida, mas também não acho que seja grave. A própria Semana Fotosite teve nos últimos dois anos, dois curadores. O Eder Chiodetto pôs uma cara dele ali, depois a Cia de Foto. O PhotoEspaña em Madrid, a cada três anos muda o curador. De qualquer maneira, eu acho que ficou plantada lá uma matriz e essa matriz que passa um pouco pela energia do italiano, a força dele lá em Parati e a idéia original dele de fundar o evento. E, também, dessa forma que eu montei o projeto, que é uma forma no fundo que se utiliza muito da inspiração da forma da Semana Fotosite, por exemplo.Eu vou além, eu acho que a gente está sendo muito injusto com uma coisa. Em 1978, a Estefânia Abril fez Semana de Fotografia de Campos do Jordão. Em 1979-1980 começam a surgir as semanas nacionais de fotografia, organizadas pela Funarte que percorrem o país, em uma idéia de descentralização e que deixam marcas que não desaparecem até hoje. Ninguém inventou. A gente simplesmente retrabalhou aquilo que a sociedade vem desenvolvendo como matriz, que é o real interesse por ter festivais de fotografia neste país. Não estamos copiando ninguém. Não tem ninguém montando fórmula nova. Estamos trabalhando e readequando a cada circunstância, um modelo que a própria sociedade pede que exista.
Flávia – Por conta do Fórum, do Paraty e todos os outros eventos que você participou, você acaba tendo que realizar muitos contatos com outros fotógrafos para que eles participem, para que eles contribuam. Como é a sua relação com os fotógrafos, já que alguns praticamente blindam o acesso a eles?
Em primeiro lugar, eu devo lembrar a mim mesmo que eu sou fotógrafo, não é?! [risos]. Dessa mistura de militante político com fotógrafo que surgiu o agitador cultural. Não abandonei minha fotografia. Estou, inclusive, tentando lançar no próximo ano o meu livro, sobre o meu trabalho que chama “Uma outra cidade”, que há oito anos eu venho fotografando a periferia das grandes cidades, a periferia das grandes metrópoles latino-americanas. Trabalho até 14 horas por dia e dedico boa parte dessas horas a editar meu material. E é nesse momento que você lida com uma coisa muito complexa: você é um criador, então você está falando muito na primeira pessoa. Eu não faço um evento sem consultar muita gente. É quase um longa-metragem um evento. É sempre um bater-bola ali muito grande. Agora, no ato de fotografar, você não faz reunião antes do clique. Não tem “meeting point”. Não tem acordo trabalhista. Então esse “eu” está tão presente no trabalho de um fotógrafo que complica mesmo, não é?! Aí vêm as confusões de ego. Às vezes, a gente se sente atingido. Então eu acho que tem que tratar com carinho mesmo. Como eu estou nos dois lados da história, eu tenho aprendido muito. O suficiente para não causar problemas. Além de ser fotógrafo e ter esses problemas de ego, eu sou leonino. Então, o meu ego já me atrapalhou muito e ainda me atrapalha bastante. Eu acho que eu confundo, às vezes, o eu com o nós. O importante é ter uma honestidade com essa confusão. Ser o mais honesto possível com você mesmo e com o mundo. Eu acho que é diferente ser fotógrafo, leonino, egocêntrico aos 26, 36 e 46 anos... A humildade e honestidade vêm um pouco com a idade. Você começa a prestar mais atenção no outro.
Flávia – Não deixando o “ego” de lado, hoje, aos 46 anos, como é o acesso ao Iatã Cannabrava? Você é do tipo de fotógrafo que aconselha, que recebe na tua casa e diz “vamos editar esse material”?
Eu aprendi a dar aula com o Cláudio Feijó, na Imagem e Ação. Foi um dos momentos mais bacanas da minha vida. Aprendi com ele, que considero um mestre, que dar aula é criar relação. Eu adoro dar aula e adoro trabalhar com gente jovem. Adoro participar de leitura de portfólio. Uma coisa que eu diria a todos esses jovens fotógrafos que procuram os professores, as pessoas mais experientes, os organizadores de evento, é que tem que saber procurar, porque, às vezes, você recebe 10, 20, 40 e-mails consistentes em um dia mais um 80 spams e você não dá conta. Então, às vezes, você pode ter uma postura que parece que você não está muito interessado, que não quer dar atenção, mas é porque na maioria das vezes você realmente não dá conta. O dia tem só 24 horas. Então eu acho que tem que saber procurar, saber insistir, não é?! Eu vejo muita impaciência de quem está começando. São longos anos. É uma trajetória. E até mesmo não teria graça se fosse imediato. Para você se formar como artista, para se formar como alguém que usa a arte como objeto de trabalho, é processo.
Flávia – Vemos na área do cinema, uma constante publicação de críticas sobre as produções, tanto aqui quanto no mundo. Porque internamente, dentro da área de fotografia isso quase não existe? E quando se pensa em crítica, pensa-se em falar bem?
A gente vem de uma escola que não sabe ouvir crítica. Se o cara não gostou do seu trabalho o papo não termina. Nós temos que crescer. Primeiro passo para haver uma crítica séria neste país é que seja aceita a presença de uma crítica séria, senão os críticos vão ser assassinados na rua, atropelados. Ou seja, a crítica a seu trabalho não pode significar um ato de inimizade, de raiva, de briga pessoal. Isso é um lado da moeda. Nós temos que apostar no desenvolvimento de uma crítica e aceitá-la. O artista tem que aceitar que o trabalho pode não ter convencido todo mundo. Como também fica o papel do crítico que pode, com a crítica dele, destruir a vida comercial de um fotógrafo. Estamos falando que há uma fragilidade terceira que não é do crítico e nem o do artista recebendo a crítica. Nós temos uma fragilidade maior que é: o Brasil não constituiu uma platéia. Como é que nós podemos falar o tempo todo de mercado, crítica, espaços para a fotografia se o público para a fotografia é pequeno. Educar desde pequeno para ver fotografia. Porque quando você tiver uma grande platéia protegendo o artista, o papel do crítico não será tão voraz. E o crítico vai ter uma liberdade maior para poder falar bem ou mal, porque ele não será o agente de levantar ou destruir a carreira do cara. É nesse conjunto de uma sociedade preparada para vivenciar a troca que arte propicia que se dá o papel de existência de uma crítica melhor. Não culparia nem os críticos nem os artistas, culparia esse trinômio: pouca platéia, artista pouco acostumado à crítica e crítico num papel difícil, diante dessas circunstâncias. Quem diria que eu iria salvar os críticos [risos]
Isabelle Mani – Vou partir para os assuntos mais pessoais. Pensando nas pessoas que estão ao redor, como elas te definiram? Quem é você?
Boa pergunta, vamos chamar mais gente [risos] Eu me defino como um moleque apesar dos 46 anos e de defender a maturidade, eu me defino como um moleque. Eu moro na Vila Madalena, um bairro boêmio, adoro a noite – não é bebida e drogas em si -, mas adoro o dia também, acabo dormindo pouco. Adoro São Paulo, tenho uma paixão por essa cidade, que não é uma cidade de amor a primeira vista, aqui não é o Rio de Janeiro com aquela coisa deslumbrante, belíssima. São Paulo é uma cidade difícil você só pode amá-la, se amar de verdade, tem que estar mergulhado nela. Eu adoro periferia, centro da cidade, andar de ônibus, subir no metrô, andar a pé – cada vez mais faço menos isso [risos], boa parte do que estou falando é mentira [risos] – mas adoro essas coisas. Não sou um cara de meditação, do campo, sou um cara de escrever duas coisas ao mesmo tempo, ler dois livros ao mesmo tempo, sou um hipercinético, ansioso com uma antena ligada em tudo, que acabo tirando proveito disso tudo para constituir meu trabalho, e um pouco de quem eu sou.
Isabelle – E na sua visão qual seriam seus maiores defeitos e qualidades?
Pergunta para os outros [risos]. Acho que minha maior qualidade é a generosidade e o meu maior defeito é o egoísmo. Eu vivo numa gangorra. Eu tenho um ciclo em que muitas vezes a preocupação com os meus problemas me faz não ver o outro. Quando estou mais depressivo, mais triste eu fico muito cego ao outro. Mas quando estou bem, adoro me entregar, ser generoso, abrir espaço. Eu diria que de certa maneira, a minha outra qualidade é o humor.
Isabelle – E tem alguma qualidade em alguém que você inveja?
Gostaria de ser mais educado [risos]
Isabelle – E você acha que faz diferença ser Iatã Cannabrava? Isso abre portas?
Sim, abre portas, algumas não muito fáceis [risos] Não é fácil ser uma pessoa muito exposta. Minha exposição começou na infância com um nome muito diferente, eu morei em outros países e Iatã era impronunciável. E Cannabrava era no mínimo engraçado. Ser Iatã já me deu muito trabalho. Hoje, se constitui um logonome, uma logomarca, as pessoas depois que te conhecem, dificilmente esquecem o seu nome. Mas eu sou uma pessoa muito exposta, falo o que penso, não escondo nada de ninguém, falo com quem está ao meu lado na mesa do boteco. Nós ainda temos resquícios de uma educação européia, onde rir alto é um pecado. Falar demais é pecado. O Brasil vive um mix de Paris e Bahia [risos]. A gente tem que aprender a se conter, a falar menos, eu não aprendi isso a tempo.
Flávia - E por conta disso você ganhou muitos inimigos?
Não sei, nunca contei. Já trouxe muito trabalho, muita dor de cabeça. Inimigo a gente não conta. Eu costumo usar aquela expressão brasileira, de que a gente perde um amigo, mas não perde a piada, porque isso é inimaginável em um japonês, num russo, os britânicos têm um pouco disso. Piada é fundamental, e eu não abro mão de ter esse perfil, que eu considero ser muito brasileiro, latino. Estou muito nessa idéia de que estamos nos identificando com nossa “latino-americanidade”. Esse jeito latino-americano de ser inclui um humor que eu acho válido, uma forma bastante válida do fazer, do ser. Acho que tem que ser elegante, inteligente e honesto.
Isabelle – O que te faz sofrer?
A minha inconformidade com as injustiças sociais é uma delas. Cada vez que eu vou para as periferias para trabalhar e me deparo com novos modelos, fico muito feliz de vê-los. Não trato aquilo como palco de miséria, meu trabalho não é sobre a tradicional denúncia de pobreza e miséria. Mas ao mesmo tempo vejo a dureza que algumas pessoas passam para viver, e me traz sempre uma tristeza. Ver criança em dificuldade é uma coisa que me deprime profundamente. Não consigo ter medo de adolescente ou criança no trânsito, eu ando de vidros abertos, eu me nego – já fui assaltado – a aceitar o território da violência como uma realidade instituída. Não que não exista, mas me nego a aceitar. E me deprime muito a solidão, tenho uma grande dificuldade em ficar sozinho. Em determinados momentos, um domingo chuvoso pode me deixar bem encolhido na cama. Mas sempre existem amigos, um bom restaurante, adoro comer, adoro cozinhar.
Hanny Guimarães – A arte precisa da solidão?
Em algum momento sim. Quando vou escrever algum texto curatorial ou editar fotografia, preciso não só de solidão, mas de silêncio absoluto. Sofro muito. Aliás, vocês me perguntaram, se algo que eu invejo é quem sabe escrever bem. Mas se é algo mais técnico, como mexer no photoshop, pode colocar a música que quiser.
Solidão uma realidade
Choro pouco
Fofoca inevitável [risos]
Minha fortaleza o trabalho
Tira-me do sério quando alguém não me entende
Hipocrisia mal menor, não dou tanta importância.
O que você gostaria que lhe perguntassem? Por que do pingue-pongue? Poderíamos fazer um pingue-pongue mais perverso [risos]
Que tipo de mulher? Todas [risos]
Se tivesse que escolher um tipo? Morreria
Que tipo de morte? Com elas
Escute o áudio da entrevista com Iatã Cannabrava AQUI
Da Redação
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