11/07/08
“FOTÓGRAFO BRASILEIRO NÃO GOSTA DE SER CRITICADO”

Juan Esteves participa do projeto Na Redação critica mercado de livros e não revela gafes de Lula

“O publicitário brasileiro é um caipira. É aquele sujeito que gosta de chegar numa reunião e dizer que ele come um sanduíchinho especial de pastrame em Nova York, ou que ele passa as férias em Nova York. No fundo, é um caipira que quer ser uma coisa que ele não é”, a afirmação anterior vem do fotógrafo e colunista Juan Esteves, que mostrou sua insatisfação com processo de criação publicitária no Brasil, durante a mais recente edição do projeto Na Redação. Ressabiado, Juan poupou as “gafes” do presidente Lula, mas não deixou de revelar com pesar a situação do mercado de moda. “Com raríssimas exceções, o grande lance de certas campanhas de moda é trazer um fotógrafo de fora, você quer coisa mais non-sense do que isso?” E sobre o comentário de Simonetta Persichetti, de realizar apenas críticas positivas, afirmou: “Eu respeito a opinião dela, quando eu peguei uma câmera pela primeira vez, ela já era uma senhora crítica”.


Flávia Lelis: Você dá esmola?
Juan Esteves: Dificilmente, eu sou daquela opinião do pescador: é melhor você ensinar a pescar do que dar o peixe pronto. Embora seja difícil hoje em dia em São Paulo, não é?

Flávia: Em todo canto, em todo lugar. A esmola é um negócio, e tem muita exploração atrás disso.
Juan: É, hoje isso virou uma profissão. Tem um sujeito na esquina, a três ou quatro ruas de onde eu moro que faz ponto ali. Se todo mundo der dez centavos ele ganha mais que muita gente por aí. Você tem uma faxineira que você paga sessenta reais por dia, esses caras faturam mais. Agora se você está numa padaria e vem uma criança pedir um negócio para comer eu pago, embora nem todas aceitem... Mas essa coisa de “perdi o dinheiro na frente do metrô e preciso ir não sei pra onde...” não dá, o pessoal não está muito criativo.

Thomaz Gomes: Teve um cara que foi capa da Veja até, ele ficava na Consolação todo enfaixado e colocou os filhos dele na escola com o dinheiro que arrecadava ali.
Juan: É o país, não é? Cada vez que a gente enxerga no noticiário o governo dizendo que acabaram de aumentar o Bolsa-Família justo às vésperas de eleições... Quer dizer, existem dois países, aquele que eles acham que existe, ou seja, a ilha deles, onde está tudo bem e o PIB está crescendo e aquele que a gente vive.

Flávia: E você é uma pessoa que costuma reclamar da política, discutir política?
Juan: Toda vez que é possível se manifestar eu não perco a chance. Mesmo nos meus textos de fotografia se eu puder, porque é a maneira que você tem de se manifestar. Agora reclamar pura e simplesmente é muito vazio, a coisa se dilui, não é? Eu até posso falar de carteirinha, eu acompanhei durante muitos meses vários políticos, cobri a primeira campanha presidencial depois da ditadura, acompanhei o Lula durante seis ou sete meses com um repórter. A gente chama de repórter carrapato, que era um repórter fotográfico e um jornalista. Eu fiquei meses rodando com eles pelo Brasil inteiro, quer dizer, dá para conhecer um pouco a intimidade deles. Durante muito tempo eu cobri prefeitos, vereadores, governadores, presidentes... Então você tem uma noção um pouco mais ampla do que a maioria.

Flávia: Quando você estava acompanhando o Lula, ele deve ter dado várias “escorregadas”. Como é que é isso, qual é a diferença entre a pessoa que você está acompanhando ali no dia-a-dia e a que sai impressa?
Juan: Nossa, no caso do Lula é constante isso. Tirando o fato dele escorregar publicamente, pela própria origem dele, de estar ali no boteco, no ABC (paulista), fazendo política sindical, ele tem essa falta de diplomacia que outros tiveram. O (ex-presidente) Collor tinha uma diplomacia, mas era uma diplomacia forjada, ele tinha aquela pose de aristocrata da oligarquia nordestina e posava daquilo. O Lula é mais espontâneo, digamos, então ele comete coisas que não vale nem falar, não é? Tem o lado de que há uma certa licenciosidade entre a imprensa e o poder, mas isso também é outra coisa inevitável. A gente não pode esquecer que a Imprensa hoje, principalmente hoje, no Brasil, ela é uma empresa. É uma empresa. A Folha (de São Paulo) tem um conglomerado de empresas, tem internet, tem jornais de classe A a D. É difícil para quem trabalha no meio não acreditar que haja, não vou dizer promiscuidade, mas há. As pessoas acreditam no que o jornal diz, mas há alguma coisa por trás, quantas vezes eu já não saí da redação e cruzava com algum prefeito? Não vou dizer quem é, mas era um prefeito que era totalmente antagonista ao que as pessoaS achavam que era a política do jornal. A Folha foi acusada na época dessa campanha de ser petista e há muito tempo ela se relacionava com outros partidos.

Flávia: Todo mundo reclama, mas ninguém está lá. Se você estivesse no governo qual seria a sua medida mais imediata para mudar os rumos desse país?
Juan: Eu acho que a gente tem sim um poder, você tem o voto. Se as pessoas votarem mais conscientemente elas têm uma participação mais efetiva. Mas as pessoas deixam de acompanhar o que os seus eleitos fazem. Se você vota em um sujeito e ele muda de partido ou faz coisas que você não estava esperando que ele fizesse, você não deveria votar mais nele. O que é incrível é que num país onde o presidente troca de ministro com uma freqüência enorme, e a todo ministro que sai ele faz um elogio, continue tendo uma recepção positiva do povo. Esse tipo de comportamento num país de primeiro mundo já tinha mudado de primeiro-ministro várias vezes. Então em primeiro lugar acho que você tem que ter investimento em educação, que é uma coisa que a gente não tem e continua não tendo. A gente já teve um presidente de escola, como diria o Brisola, e agora tem o do povo. Dois radicais. Tinha a finada Dona Ruth (Cardoso) com vários projetos muito bons, mas muito limitados, e outro que fez apologia à ignorância publicamente, dizendo que não importava isso – independente de ele ser ignorante ou não. Então, se você não investe nisso, você vê o resultado aí, o ensino médio tem uma média baixa, o ensino superior tem uma média baixa. Tem que ter um investimento maciço, o principal investimento do governo tem que esse. Não adianta a gente querer construir um submarino nuclear se o povo é ignorante. Ninguém assume isso, mas é.

Flavia: Mudando um pouco de assunto e olhando para a sua carreira, em que momento as pessoas começaram a te respeitar como fotografo?
Juan: Olha, pode parecer até engraçado isso, mas o maior respeito na minha carreira veio quando eu deixei o jornal e comecei a trabalhar por conta própria. Eu fui editor da Folha (de SP), escrevi para diversos cadernos, era consultado sobre questões de fotografia, quer dizer, havia um respeito profissional muito grande. Mas o respeito como autor, como fotógrafo e tudo mais veio depois. Quando eu comecei a tocar o meu trabalho sozinho, sem ter a Folha por trás, eu vi que comecei a ser mais respeitado, o que é muito difícil.

Flávia: Você acha que hoje no meio fotográfico, o passado, a bagagem, o nome, contam mais que a produção? A massa crítica olha mais para o currículo de um fotógrafo do que para as suas fotos?
Juan: Eu acho que o fotógrafo pode ser duplamente reconhecido. Você tem uma cobrança por conta desse passado. Tem fotógrafos que são reconhecidos e que têm uma produção respeitável, você pode até não gostar do gênero, do estilo, mas ele teve, ao longo desses anos todos, uma produção respeitável e continua produzindo. Você tem fotógrafos que atuam há muito tempo e continuam a produzir, e produzir bem. Assim como tem os outros que se acomodaram e vivem da sua história. Agora, aqui no Brasil a gente sofre da síndrome do estrangeiro, não é? A gente tem uma tendência a valorizar o que vem de fora. Nós temos fotógrafos excelentes de moda, mas por que a gente vai chamar fotógrafos estrangeiros para fazer editorial de moda? Com raríssimas exceções, o grande lance de certas campanhas publicitárias de moda é trazer um fotógrafo de fora, você quer coisa mais non-sense do que isso? A grande ‘batida’ é trazer modelo de fora para estrelar campanha. Uma Kate Moss para fazer Ellus, tenha dó, gente! Põe aquela magrela, sem bunda, para desfilar biquíni. Mas é a Kate Moss. Então todo mundo vai comprar biquíni porque é a Kate Moss? Esses gênios publicitários – porque 90% copia o que vem de fora – assim como os editores de revista de moda no Brasil, que acham que os fotógrafos – na maioria das vezes eles tem razão – não lêem revistas de moda internacionais, então não sabem o que acontece lá fora, assim a gente pode copiar aqui porque ninguém vai perceber. É patético, e as propagandas são a mesma coisa. São raras as exceções que usam estrelas daqui de dentro.

Thomaz: Então você acha que o mercado de moda e publicitário é um pouco deslumbrado?
Juan: Sem dúvida o publicitário brasileiro é um caipira. É aquele sujeito que gosta de chegar numa reunião e dizer que ele come um sanduichinho especial de pastrame em Nova York, ou que ele passa as férias em Nova York. No fundo é um caipira que quer ser uma coisa que ele não é. Se você olhar a origem deles vai ver que eles são caipiras mesmo. Às vezes, eles são bilionários, cada campanha custa uma fortuna, agora, não apostam em uma novidade, não apostam em nada! Um art-buyer que aposta em jovens fotógrafos você conta nos dedos. É outra relação nefasta do art-buyer com a fotografia. As agências de fotografia vivem puxando o saco dos art-buyers, convidando para festinhas, quer dizer, você não contrata um fotógrafo porque ele é bom, você contrata porque ele é bom e amiguinho do art-buyer, do diretor de criação, o tal do “Q.I”. Vamos chamar o Dermachelier, o LaChapelle, o fulano de tal, porque é status chamar um cara desses, a publicidade vive de criar status, signos de coisas que não existem. Você vai dizer que o Duran não faz tão melhor quanto o LaChapelle? Faz melhor, superqualidade de trabalho, aqui e internacional, a carreira dele fora é excelente e tudo. Tem espaço? Tem, talvez tenha.

Flávia: Parece que as pessoas recorrem sempre àqueles cinco fotógrafos top – aqui dentro - vamos esquecer o mercado internacional. Outro dia o João Wainer estava aqui, ele estava fazendo foto para uma determinada revista, que disse querer tal material como referência. Referência nada, porque a proposta era igualzinha. Seria um caso específico?
Juan: É uma regra. Não é especifico, é uma regra. Eu já entrei em diversas redações de revistas de moda e você via colada nas paredes páginas de outras revistas. Eu cheguei ao cúmulo de ver uma vez, em 1990, quando foi publicada uma foto que eu fiz de um músico japonês na Marie Claire Japão... Dois anos depois, saiu uma capa aqui no Brasil, com a mesma matéria, a mesma modelo “O quente da moda de biquíni”, dois anos depois. Então você vê como funcionam as coisas. Cansei de ver grandes fotógrafos brasileiros repetirem editoriais de várias grandes revistas de cunho internacional, praticamente todas já fizeram. Cansei de ver editoriais de moda e publicitários inteiro copiados. Não que o fotógrafo esteja copiando, mas está executando a pedido de um editor. O que acontece é o que eu chamo de síndrome de Otto Stupakoff. É difícil ele falar o que quer a uma produtora hoje e ela entender. Os grandes problemas hoje são os editores de arte, a ausência de um personagem fundamental que é o Diretor de Criação. O Duran tem um texto muito bom sobre isso na própria FS (FS – Revista da Imagem) se não me engano, sobre a questão do Diretor de Criação que é importantíssimo. Você tem esse pré-staff antes de chegar no fotógrafo que tira toda a autonomia da criação. Cabia ao fotógrafo decidir o que era melhor para a foto. Eu chamo de síndrome do Otto porque são épocas incompatíveis. A capacidade artística e intelectual dele, de conhecimento adquirido ao longo dos anos, trabalhando com os melhores Diretores de Arte do Mundo, então imagina hoje, sem querer esculachar as produtoras, trabalhar com uma produtorazinha que nem sabe falar o português. Essas pessoas estão sendo formadas vendo a cópia, e não a fonte. Eu gosto daquele conceito do Ezra Pound de que existem os Gênios, os Mestres e os Diluidores. O Gênio é o cara que criou uma coisa excepcional e só ele no mundo consegue fazer aquilo, mais ninguém. Tem os mestres, que podem fazer uma coisa parecida, dominam aquele tipo de trabalho com certa maestria, e os Diluidores que pegam aquilo que o Mestre fez e vão diluindo até ficar uma porcaria. Então hoje o que eu vejo muito é que os fotógrafos não estão indo em direção aos mestres – como eu havia dito antes- eles estão usando de referência os diluidores.

Flávia: Eu tenho muito contato com jovens fotógrafos que vem aqui e dizem: “ ah, fotografei isso, gosto desta linguagem...” e ficam experimentando. É fato que nosso mercado não está preparado para apostar em grandes talentos e permanecem recorrendo aos mesmos nomes?
Juan: A questão não é chamar um ou outro, a questão é que o mercado não arrisca...

Flávia: Não é também só o mercado. Se hoje a gente tiver um concurso sobre grandes talentos eu aposto que as pessoas vão ter muita dificuldade em indicarem esses grandes talentos, porque as pessoas dificilmente apostam...
Juan: Mas você já parou para pensar porque se chamam esses fotógrafos? São fotógrafos que exerce uma atividade forte, que não param. Esse é um mérito grande deles. Eles têm varias atividades, eles expõem, vão atrás, escrevem, não ficam sentados no trono. E o que eu vejo nos fotógrafos que vêm conversar comigo é que eles sentam lá e ficam reclamando da vida: “Ah porque não me chamam para isso, para aquilo...”, é aquele rancor que não faz bem para criação. A melhor maneira que eu vejo para as pessoas entrarem no mercado é se manifestar mais. A figura recente do agente fotográfico ajudou muito, hoje há uma pessoa que cuida desse trabalho.

Flávia: A gente estava falando antes de competição, de que está mais rígida, e que hoje há muitos fotógrafos no mercado. Você vê trabalhos de muitos fotógrafos, lê muitos portfólios, imagino. Então considerando o que você vê nas suas leituras, nas escolas, nas faculdades, como que está o rumo da fotografia?
Juan: Olha, sempre que posso eu participo destes eventos, sempre que sou convidado. Gosto muito, qualquer momento em que você consegue reunir pessoas e debater a fotografia de maneira saudável...Não acho que valha a pena você sentar e ficar dizendo: “Não gosto disso, não gosto daquilo, acho aquilo ruim”. Eu acho que nesses encontros é justamente isso; se eu disser que gosto, eu vou dizer porque eu gosto. O problema todo é você tratar a fotografia como um dogma. A mídia nunca foi tão popular, tão acessível. Antes o fotógrafo precisava ter uma câmera, e isso introduziu uma massa gigantesca de gente. Eu olhei 300 portfólios para selecionar para o Fórum Latino Americano, então a gente viu de tudo – gente que já conhecíamos pela importância, de nome se submentendo a uma avaliação para participar, o que eu achei fantástico, porque fotógrafo brasileiro não gosta de ser criticado. Há um descaso no Brasil. As pessoas querem ser reconhecidas pelo conjunto da obra, a história do fotografo, não o trabalho que fazem e mandam para a mostra. Devido à coluna no Fotosite eu recebo muito e-mail pedindo para avaliar trabalho, o que também é curioso, porque muitos destes e-mails vêm de estudantes de jornalismo, do curso de fotojornalismo, gente que está fazendo tese. Há mais e-mails de pessoas que estão estudando, fazendo pesquisa, do que gente que trabalha na área. Há uma certa desorientação, dentro do contexto do país, há um imediatismo muito grande, não se adquire cultura fotográfica e vocabulário sem perder tempo, esse é grande x da questão. Você deve consumir fotografia, ver muita fotografia.


Flávia: E o que você anda vendo está bacana?
Juan: Eu acho que têm poucas coisas que eu separaria como uma coisa de futuro, por causa das características desse pessoal. Tem gente mais inquieta, gente que pesquisa, que vai mais a fundo, e gente que quer uma coisa mais rápida, não quer ouvir, não lê. Isso faz parte de uma cultura brasileira, que quer ganhar muito, em pouco tempo. Você conhece algum fotógrafo que diz: “Vou terminar esse projeto em 2012”. Não tem, duvido. Se você perguntar para o Sebastião (Salgado) quando ele vai terminar o projeto Gênesis, ele diz: “2018”, quer dizer, há uma diferença, há um foco de interesse e necessariamente ele passa por essa dedicação. Não existe boa fotografia sem dedicação. Com o advento da fotografia digital ela piorou, as pessoas não estudam mais. As máquinas estão otimizando tudo, estão pensando pelo fotógrafo. O problema não é ser digital, pelo contrário, eu faço coisas hoje que não fazia, tem uma parte ágil nisso inegável. Não é o problema da fotografia digital, que fique bem claro.

Thomaz: Você acha que a fotografia digital vai manter seu espaço então?
Juan: Eu tenho conversado com fotógrafos do mundo inteiro ultimamente, e acho que as duas vidas estão caminhando, aqui no Brasil, que como eu disse antes é um país imediatista. As pessoas querem procurar mais cursos de como manipular imagens do que fazer imagens, estes cursos estão brotando por ai. Há um interesse de certa parte da comunidade fotográfica em transformar isso em realidade.

Thomaz: Você não acha que (o digital) é uma nova linguagem que está surgindo?
Juan: Eu acho que a linguagem não está mudando. O que acontece é que as pessoas estão mexendo mais na pós-produção. Eu mesmo estou mexendo muito mais nessa área do que na geração de imagens. Eu sou de uma geração na qual a manipulação era feita com o Scitex e outros softwares. O Photoshop era apenas um programinha. Quer dizer, ainda é, mas popularizou a manipulação. Estou me divertindo muito com isso, sem contar que dá para criar coisas que antes eram muito caras.

Flávia: É difícil sobreviver na comunidade fotográfica?
Juan: Todo mundo que faz um trabalho com seriedade, que pesquisa, que não fica parado, tem o seu lugar. Quem reclama é quem não se mexe. Existem várias comunidades fotográficas subdivididas, que, na maioria das vezes, não se relacionam entre si. São guetos, tanto na parte intelectual como na fotográfica. É uma pena, pois são poucos os momentos em que conseguimos juntar essa turma, para criar um debate sobre algo relevante. As coisas poderiam ser melhores. Os eventos acabam sendo excludentes. Enquanto alguns querem a inclusão outros buscam a exclusão. As pessoas deviam ser mais generosas. Muitos fotógrafos não são acessíveis, parecem que estão guardando um segredo.

Thomaz: Na última entrevista a Simonetta fez uma “crítica sobre sua crítica”. Ela comentou que você acha tudo fantástico. Você acha que sua opinião é muito branda, que é muito bonzinho no seu julgamento?
Juan: Eu respeito a opinião dela, quando eu peguei uma câmera pela primeira vez, ela já era uma senhora crítica. Quanto a minha coluna, gostaria de colocar o nome dela como: “Elogio à Fotografia Brasileira”. Não sou um crítico de um jornal diário, que recebe uns 50 livros por dia, para falar se eu gosto ou não deles. A minha coluna surgiu de uma outra coluna que se chamava o “Melhor da Fotografia”, que tinha como função mostrar a um público de pouco acesso, o fotógrafo iniciante, o que tinha de interessante dentro do mercado. Essa era a base da coluna. A característica dessa coluna dentro do Fotosite é essa mesmo, que a Simoneta aponta, com toda a razão. A idéia é filtrar dentro da produção fotográfica o que pode interessar ao leitor. Tanto na área impressa como na virtual, onde as pessoas, às vezes, não têm acesso. Eu não posso falar mal de cinco livros, simplesmente porque eu não gosto. Eu não vejo o sentido de fazer uma coluna assim para uma pessoa que está numa lan house, interessado por essa leitura, com o tempo contado.

Thomaz: Mas acho que o que ela quis dizer, é que nenhuma obra é perfeita, que você pode falar da parte negativa do livro.
Juan: Eu acredito em uma crítica construtiva. Essa história de dizer que você não gostou, apenas porque não gostou, eu não concordo. Mas é difícil eu achar algo tão excepcional assim. Inclusive a fotografia tem muitos poucos livros que valem a pena ser folheados. Existe uma lei de incentivo à cultura e existem muitas empresas lucrando com isso. O livro passou a ser um subproduto das editoras. O produto passou a ser o dinheiro do patrocinador. Não se vende livro, as vendas são muito pequenas. Os custos são enormes. As tiragens são mínimas. O dinheiro vem de outro lugar. As editoras não filtram nada. Muito pelo contrário. Eles são obrigados a ter um número mínimo de entradas, por quê elas têm que estar naquele segmento do mercado. Eu desafio qualquer um a entrar em uma livraria e gostar de todos os livros. Primeiro porque gosto é gosto e depois por causa do jabá. Isso está aumentando descaradamente. No final, essa coluna tem uma função prática, de mostrar ao leitor o que pode ser interessante para ele. E tenho tido um feedback muito positivo sobre isso. Recentemente eu escrevi sobre um livro da Lucy Figueiredo e fiz umas anotações que ela adorou. Mandou-me um e-mail falando da pertinência delas. Acredito neste tipo de crítica construtiva. Para que eu vou perder meu tempo falando do que eu não gosto? No meu tempo de jornal, não entendia o porquê quatro pessoas faziam uma crítica falando mal do mesmo filme. Se o filme é ruim, por quê vamos perder tempo e espaço falando mal dele? Eu vejo em média 15 livros de fotografia por mês, entre importados e nacionais, além dos lançamentos das feiras de Londres e Frankfurt. Acho que estou fazendo um trabalho útil aos fotógrafos. E outra coisa, criticar não é falar mal, necessariamente, não é mesmo? É um trabalho de análise, de ver os pontos positivos e negativos, assim como na leitura de um portfólio. Você não olha um portfólio e fala simplesmente que é ruim, não é mesmo?

Isabelle Mani: Na última entrevista, a Simonetta comentou que no Brasil todo mundo ou é curador ou é crítico. Você concorda?
Juan: Na área de curadoria é impressionante isso. Todo brasileiro é crítico. A seleção brasileira é a prova disso. É difícil ter uma crítica sem opinião. Se você escreve um artigo sobre algo, você dá uma opinião. Eu acho que a gente tem que ter mais respeito com os produtores. Fazer um livro nesse país é muito difícil. Um de fotografia é complicadíssimo, pois existe uma questão técnica. Desde o início há um envolvimento mais complexo dos fotógrafos. Por isso que eu não vejo sentido em falar sobre livros sem sentido, que não agreguem nada ao leitor. Muita gente pode não gostar do que eu vou falar aqui, mas às vezes a qualidade vem de um conteúdo ideológico. A coluna tem essa missão também, de apoiar esse tipo de projeto. De fazer essa crítica elogiosa, como alguns chamam, mas também destacar outros aspectos onde você acha que poderiam ser melhores ou piores. É o caso do livro da Luciana Whitaker (“11 anos no Alasca”). É um belo livro, mas poderia ter sido mais aproveitado, mais dimensionado.

Thomaz: Deixando a crítica de lado, você falou sobre três tipos de pessoas: gênios, mestres e diluidores. Em qual destes três perfis você se encaixa. O que você faz que é genial, que ninguém mais consegue copiar?
Juan: Acho que estou entre os diluidores, não é? Em todos os anos da fotografia não conheci nenhum gênio. Tudo o que a gente faz é diluído. A gente trabalha com um volume de informação cultural que é enorme. Ultimamente venho buscando muita coisa na arte. Estou deixando cada vez mais de olhar fotografias mais antigas e contemporâneas e pesquisando em coisas anteriores a elas, nas origens da fotografia. É uma análise mais voltada para isso do que para as imagens fotográficas em si. Sobre a parte genial, sobreviver em um país como este já é um mérito. Não lembro quem falou isso, acho que foi o Otto Stupakoff. Concordo com essa afirmação.

Isabelle: Falando sobre sobrevivência, quando o pessoal da Cia de Foto veio aqui, o Pio Figueroa fez uma afirmação polêmica, dizendo que fotógrafo é pago para não pensar e o frustrante disso é saber que você pode ter algo legal, mas que não vai ser remunerado por isso. O que faz um fotógrafo ganhar bem no Brasil?
Juan: Essa afirmação é interessante. Mas eu discordaria um pouco. Acho que tem espaço para fazer o que você gosta e, às vezes, ser remunerado por isso. Acho que tem muitos fotógrafos ganhando bem e fazendo o que gostam. Mas precisa ver o que você chama de remuneração. Quando eu fotografo um cineasta ou um escritor que eu gosto muito, além de financeiramente, eu recebo de uma maneira que é impagável. Eu sei que ele se refere ao sentido financeiro, mas talvez eu seja de uma geração mais romântica, que associe a isso o prazer de fotografar. Também acho que não é todo mundo que está querendo que o fotógrafo não pense. Ultimamente, temos mais fotógrafos pensantes do que antes. Essa coisa do fotógrafo burro, que não pensa, é meio antiga. Os fotógrafos estão se impondo mais.


Sorte: Fotografar. Na hora certa, no lugar certo e com o filme certo.

Puxa-saco: Ficar grudado em fotógrafos famosos.

Três fotógrafos que você convidaria para um jantar: Carlos Freire, Alécio de Andrade e Carlos Moreira. O Otto Stupakoff para a sobremesa...


DESAFIO
Desafiamos Juan Esteves a enviar aqueles que seriam os cinco livros brasileiros realmente essenciais. A resposta você já confere logo abaixo:


Históricos:
Fotografia no Brasil, Um olhar das origens ao contemporâneo. Organização Ângela Magalhães e Nadja Peregrino, Edição Funarte
O Brasil de Marc Ferrez, fotografias de Marc Ferrez, Edição IMS
O olho fotográfico de Marcel Gautherot e seu tempo, Organização e edição de Heliana Angotti-Salgueiro, Edição MAAB-FAAP
Geraldo de Barros, Fotoformas e Sobras, organização de Rubens Fernandes Junior, Edição Cosac Naify
Trabalhadores, fotografias de Sebastião Salgado, Edição brasileira da Cia das Letras

Autores:
O chão de Graciliano, fotografias de Tiago Santana, Edição Tempo D'imagem
Otto Stupakoff, fotografias de Otto Stupakoff, Edição Cosac e Naify
Sudarium, fotografias de Orlando Azevedo, Edição Fundação Cultural de Curitiba
Firmo, Fotografias, fotografias de Walter Firmo, Edição Bem-te-Vi
Noturnos São Paulo, fotografias de Cássio Vasconcellos, Edição Bookmark Publishing

Difíceis de encontrar:
São Paulo, Anotações, fotografias de George Leary Love, Edição Eletropaulo
Flagrantes do Brasil, fotografias de Jean Manzon, Edição Gráficos Bloch S/A
Nakta, fotografias de Miguel Rio Branco, Edição Fundação Cultural de Curitiba
David Drew Zingg, As melhores Fotos/Best Photos, fotografias de David Zingg, Edição Sver & Boccato
Amazônia Fotografada por Claudia Andujar e George Love, Edição Praxis

 
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