10/06/08 “FOTÓGRAFO É PAGO PARA NÃO PENSAR!”
Cia de Foto esquenta o projeto Na Redação
Acredite ou não o título desta matéria vem da boca de um fotógrafo. Mais precisamente de Pio Figueiroa, integrante do coletivo Cia de Foto, ao lado de João Kehl e Rafael Jacinto, todos convidados da mais recente edição projeto Na Redação. Donos de espíritos sempre “moleques”, os fotógrafos participaram da iniciativa falando de seus incômodos em relação ao mercado fotográfico, de suas frustrações por não conseguir emplacar comercialmente suas produções mais prazerosas, de sua nova empreitada denominada Caixa de Sapato, que coloca no Flickr algumas das (ou todas!) imagens mais íntimas do coletivo. Sem freio na língua, em pouco mais de duas horas de papo, o coletivo respondeu a questões caladas pelo universo da imagem, como por que não fotografar a alta sociedade paulistana e deixou recado às premiações: “Pára de premiar gente que há vinte anos faz a mesma coisa”.
Flávia Lelis:Vocês se consideram cidadãos conscientes? Por quê?
Rafael: Tenho a consciência de que não sou consciente.
João: Em muitos pontos sim. Mas que tipo de consciência você se refere?
Flávia: A gente reclama da pobreza, da doença, mas o que a gente faz? Uma coisa é apenas ficar falando sobre os problemas, a outra é fazer algo para contribuir…
Rafael: A gente parou de usar carro. Vamos a pé para a Cia, trabalhamos sem carro.
Flávia: Mas isso é um ato muito pequeno. São Paulo tem mais de 14 milhões de pessoas e vocês são apenas três.
Rafael: É pequeno nada!
João: Acho que você consegue mudar as pessoas ao seu redor com essas pequenas coisas. Mas com questões maiores eu me considero alienado.
Pio: Acho que temos uma consciência burguesa. Em alguns assuntos que consideramos que vale a pena se estressar e brigar contra, nós adotamos esta postura. Mas se isso mexer com a rotina da gente, com nosso conforto, nós somos alienados. Acho que somos o oposto do que foi a geração de nossos pais.
Rafael: Parei de usar carro completamente. Meu carro quebrou por que eu parei de usar. E quando você pára de andar de carro começa a prestar atenção em um certo tipo de situação. Vimos uma briga no trânsito outro dia e pensamos: a gente era assim?
Pio: Tiramos cinco carros de circulação. Mas parte de uma situação diferente. O Rafa começou a andar a pé, pois tinha se separado, queria emagrecer para voltar ao mercado (risos). Mas é uma experiência de quem tem grana para morar na Zona Oeste. Uma relação relativamente acomodada. Eu reciclo lixo, mas gasto água para isso. A gente termina não se aprofundando nas questões.
Flávia: Acho que as pessoas já estão pelo menos comentando sobre essas questões, que antes ninguém pensava. Agora a gente se toca um pouco mais, toma pequenas atitudes, que podem fazer a diferença…
Pio: Tem um lado que é difícil de selecionar, pois temos uma empresa de fotografia. É difícil estar regularizado com a questão de usar softwares regularizados, equipamentos… Não somos a favor da pirataria, não temos nada pirateado de fato, mas temos a dificuldade de renovar nossos equipamentos. É um grande esforço ter tudo dentro da lei. Não sei se burlar conscientemente é ser consciente. Relativiza. Agora se a gente mobilizasse o mercado em torno desta questão seria diferente. Mas é sempre uma consciência limitada.
Pio: Agora se você pega um extremo… Acho que tem um político massa no Brasil, que é o Gabeira, de quanto ele foi radical em 68 e como ele tem uma consciência democrática hoje, com idéias políticas atuais. A filha dele tem uma meta completamente pessoal, de ser recordista de Tow-In, de descer aquelas ondas gigantes. É um extremo geracional. A filha dele tem como objetivo descer um murão. É um desafio interior. Tem essa contradição.
João: A geração que veio antes idealizava mais as coisas. A nossa geração já tem esse aspecto mais individualista.
Diego Dacax: Vocês falaram muito de consciência individual, mas como é isso? Esse isolamento é típico dessa geração? Não existem mais movimentos de massa?
Rafael: Tem uma pesquisa que diz que executivos de 30, 35 anos, têm planos de se aposentar cedo para poder cuidar da própria vida…
Pio: Eu vejo essa pergunta de uma forma mais otimista. Não existe mais uma lei para os movimentos de massa. Se você olha para massa, você encontra indivíduos. As movimentações de massa atuais prezam pelo individualismo. Você vai a festas e vê a cara de cada indivíduo. Não é mais aquela coisa de soldados sincronizados. Isso é muito legal. Acho que cada vez mais existe uma força de massa, mas que preza mais pela individualidade, até por essas ferramentas que a gente tem hoje, de expressão. O seu computador tem sua cara e tudo mais. Acho que isso significa que a massa está amadurecendo. Mas isso é retórico pra caralho. Tipo aquele movimento de Londres, que os caras batem o carro, simulam uma briga, aí entram circenses, fogo e tudo vira uma festa. Isso são movimentos políticos muito sérios, que estão quebrando estereótipos de uma forma muito violenta. Mais violenta que uma greve, por exemplo.
João: Tem alguns modelos que não funcionam mais, mas as pessoas continuam se prendendo a eles.
Rafael: O que aconteceu com essa troca de músicas da internet de Napster e tudo mais, é um movimento de massa, que obrigou toda a indústria a se readaptar. É uma revolução da burguesia. Aliás, não só da burguesia, pois muita gente se beneficiou.
Pio: Acho que a gente vive em um modelo de mundo que continua sendo sustentado pelos excluídos. Isso funciona para uma galerinha porque existe uma massa excluída, que sustenta isso. O que acontece é que com o tempo, essa massa excluída também começa a produzir. E vão surgindo novas formas, novas idéias. A internet chegou no bar, por exemplo, mas com uma situação de muita miséria atrás dela. As regras continuam sendo ditadas por um núcleo muito confortável. Mas acho que o ponto da questão é esse. É o indivíduo que não acha que faz mais tudo sozinho. Que percebeu que para quebrar um recorde de surfe, precisa de alguém puxando ele em um jet-ski. É uma equipe sempre. É o indivíduo que sacou que existe uma consciência coletiva, que não dá para ser herói, que não existe mais espaço para isso.
Flávia: No começo do papo o Rafa, falou sobre o abandono do carro. É uma escolha pessoal, que vocês apostaram. Vocês tinham possibilidade de fazer isso. Mas o trânsito continua, assim como o caos. Por coisas como essas, vocês tem vontade de sair da cidade, ir morar em outro lugar?
Rafael: Não troco por nada. Casado eu moraria em Paris, mas solteiro não. Nasci aqui, cresci aqui, vivo daqui. Qualquer lugar que eu vou eu comparo com São Paulo.
Pio: Eu adoro São Paulo. Adoro Pinheiros. A vida pra mim lá é muito ideal.
Flávia: Eu tinha essa mesma fala do Rafa, que eu iria no máximo para Campinas. Mas hoje se eu tivesse a possibilidade sairia de São Paulo
Pio: Campinas tem uma coisa muito engraçada. Ela me dá uma impressão de bairros de São Paulo. Como tem no Recife também. Se eu morasse no Morumbi, por exemplo, eu não gostaria talvez…O que desgasta em São Paulo é o deslocamento, principalmente no horário comercial.
Pio: Isso é uma coisa hedonista, de facilitar a vida. A Cia tem cachorro, os filhos estudam perto, trabalha perto, vai andando para o trabalho. Isso é um modelo fácil de depender. Nesse sentido, nada melhor que morar em Pinheiros. A gente conhece o bairro, sabe os códigos sociais, tem direito de ser educado lá. Isso vai melhorando sua rotina. Mas a gente também não precisa dirigir duas horas para o trabalho né? Isso é quase uma amostra de uma realidade social.
Rafael: Fomos para Brasília na semana passada e ficamos mais tempo para chegar em Guarulhos do que o vôo em si.
Pio: Quando a Folha abordou a questão do trânsito, saiu uma foto com um pessoal no ônibus, nos carros. Achei muito foda. É uma loucura, uma imbecilidade extrema, você colocar as pessoas quatro horas por dia nessa situação. Por um lado é bom, para mim, que sou de fora. Me traz pequenas vinganças. Toda vez que você acha São Paulo o melhor modelo de cidade do país, você tira isso do bolso e vê que a cidade é tão idiota… Que faz isso com as pessoas todos os dias, que mata os rios. E mesmo assim os caras ainda se acham.
Flávia: Ontem o Luiz Braga veio aqui na redação e estava falando sobre os fotógrafos que registram o mesmo espaço, do mesmo modo. Eu por exemplo, não imaginava uma Amazônia urbana, por que eu nunca vejo fotos assim. Vocês concordam com este tipo de afirmação? Vocês percebem isso também?
Pio: Eu concordo com ele. Mas tem duas coisas. A primeira é permitir que as pessoas vão para lá fotografem o óbvio. A segunda, que é legítima na cobrança dele, é que a média fotográfica está muito ruim. São muitas pessoas que não chegaram nem no nível do registro do óbvio. Se você pega um cara do Japão e joga ele no meio da Amazônia, ele vai representar o óbvio, mas ele vai trazer coisas pertinentes. Tipo fotografar um monte de folhas juntas para mostrar que nem todo verde é igual. E isso pode gerar discussões bacanas.
Rafael: Se a gente for para a Amazônia, vai passar um mês no máximo. Moramos em São Paulo, podemos buscar coisas menos óbvias aqui, para mostrar para as pessoas. Mas quando você vai para esses lugares você vai por pouco tempo.
Pio: Se a gente for para a Amazônia, vamos procurar uma coisa óbvia, que se relacione com o urbano. Hoje em dia a gente sabe que não chove tanto em São Paulo por causa do desmatamento da Amazônia. 60% da chuva que cai aqui vem de lá. Nossa ignorância diz que a gente não depende da Amazônia. E 70% da madeira que a gente consome vem da Amazônia, de maneira irregular. É um ciclo interessante de se observar. Acho que se a gente fosse para lá tentaria levar para essa relação com São Paulo. Possivelmente não chegaria na profundidade da região que o Luiz Braga tem, mas levaria por esse lado. O mais certo da crítica dele ele é o que ele fala sobre os fotógrafos estarem alienados.
Diego: Quando o Tuca Vieira esteve aqui, ele falou que é duro se expor para fotografar em ambientes hostis, para quem tem grana e está longe dessa realidade. Vocês fizeram um ensaio para a FS representando contrastes sociais. Para que e para quem vocês fizeram isto?
João: Para a gente mesmo (risos)
Rafael: Eu discordo primeiro de lugares hostis. Como assim ambientes hostis?
Diego - O morro do Rio, por exemplo?
Rafael: A gente cansou de ir nesses lugares. A gente odeia ir nesses lugares. Não agüenta mais ir numa favela. É um saco. A gente fotografou favela a vida inteira. Agora você pega o Ronaldo (Ronaldo Camelo), que mora no Capão Redondo. Ele fotografando a vida dele é muito mais significativo que qualquer pessoa que passe a vida fotografando em uma favela. Voltando ao Luiz Braga, você consegue entender que ele fotografa a vida dele.
Pio: Às vezes a gente não precisa ir até lá para representar isso.
Rafael: Todo mundo acha que fotografar é isso. A gente quer fotografar a nossa vida. Ninguém fotografa a classe média no Brasil.
Pio: A idéia talvez seja esta. O Brasil consome e vive para poucos por enquanto. Aí que está o desafio, de descobrir que falta a consciência de que alguns gostos e usos intuitivos da fotografia devam ter mais valor. Isso é fácil de identificar. O fotógrafo, no Brasil, para ter seu trabalho reconhecido, tem que ser publicado, em todos os editais, todos os prêmios. As autoridade acadêmicas do país pedem por isso. Se você publica em um site, ou colando na rua, isso não é considerado publicação. É um processo maluco. Se você continua operando na ordem atual, o Tuca estaria certíssimo. Mas não quero pensar na ordem atual. Quero pensar que estamos sendo bobos que achar que a nossa foto deve ser consumida pelos nossos amigos. Mas também pode haver um certo mérito nisso. Se eu valorizo que o Ronaldo faça fotos da família dele, que as pessoas da comunidade dele fiquem felizes com as imagens e que eu resolvo socialmente, eu também quero fazer isso com a minha vida e com os meus amigos.
Flávia: Você falou de um ensaio sobre a classe-média? Por que ninguém fez um ensaio sobre a classe alta?
Rafael: Porquê as pessoas têm vergonha. É mais fácil falar da vida dos outros do que da sua. Por medo de mostrar ou de fazer uma afronta com quem não tem dinheiro, o que é uma besteira. Lembro de um ensaio de uma fotógrafa, que tinha um marido milionário e tirou fotos de vários banheiros, de lugares que ela visitava. Foi muito criticada por isso…
Pio: Teve uma palestra sobre o “Valor das Obras”, na Semana da Fotografia onde houve uma questão muito interessante, que subverteu a lógica ali, que foi o valor social que a fotografia tem. Ou seja, eu só posso mensurar um valor artístico para uma fotografia quando a minha comunidade estiver pronta para consumir isto. Se colocar alguém como um fotógrafo de casamento na comunidade brasileira, já quebra o cara, ele já não é mais fotógrafo, é fotógrafo de casamento. Mas teve esse cara na China, que fotografou um casamento quando houve um terremoto. Colocou em um site e a comunidade internacional imortalizou ele. Não sei nem se ele teve consciência disso. Esse cara acertou. O documento de mudanças climáticas, do caos, da mudança da vida rotineira… Ainda mais na China! É muito foda! Isso eu quero para a minha discussão, para que minha filha saiba, que ela está crescendo em um mundo que está caindo enquanto você está casando. Pode ser que as pessoas façam piada, mas é um jeito de consumir. Atingiu um pensamento universal de um acontecimento, em uma forma de se representar que a fotografia traduz muito bem. A gente não acredita em representação. A gente ainda tem aquela consciência jornalística em cima do instantâneo, onde uma cena só tem valor jornalístico se uma cara pegar uma arma e começar a matar outro na minha frente. Se eu tentar representar algo, eu perco esse valor jornalístico. É uma loucura isso. Se eu transformo um casamento em notícia, por que o mundo caiu, isso não tem valor. A gente não acredita aqui no Brasil, na experiência do mediador. A gente acha que o cara que está ali, registrando o momento, não pode fazer uma interpretação, passar aquilo que ele chama de recado. Por isso que quem é fotógrafo no Brasil é aquele cara que teve dinheiro para comprar uma câmera.
João: Meu, tem um negócio muito legal. O meu pai foi fotógrafo num período da vida dele, assim, acho que foi a primeira coisa que ele fez... e aí ele começou a viajar para um lado e para outro e começou a vender câmera, vendeu todo o equipamento e tal, mas ele fez teatro fez exposição. Meu pai adorava viajar, né. Ele viajou o Brasil inteiro, tirou foto do Brasil inteiro, foto de pescador, toda aquela coisa. E aí recentemente ele tava revirando os negativos dele e tal, e aí ele começou a achar um monte de coisas da época que ele morava em São Paulo. E meu pai chegou a morar em comunidade, morou com uma galera, e aí ele começou a achar os negativos de cromo dessa vida comunitária. Eram fotos das coisas que elas faziam ali, no dia-a-dia e é incrível, incrível, maravilhoso! É um documento histórico, relamente. Tem todas as viagens que ele fez pelo Brasil interiro, é o documento de uma época, eu duvido que tenha algo parecido no Brasil. Ou talvez tenha, né, nas caixas de sapato empilhadas, espalhadas... E é isso, um trabalho de uma importância histórica muito grande, que trata de uma época específica, de um jeito específico. Tem fotos da construção da casa deles, que eles construíram em sete dias, desde o primeiro, até os últimos dias, a casinha subindo... É um puta documento!
Rafael: ...As pessoas têm vergonha (de expor as suas intimidades). Ou sendo pobre, sendo rico, sendo classe média. Têm vergonha. E quando você não se fotografa, você vai na favela ou vai em outros lugares fotografar com o seu julgamento daquilo é pior que o julgamento que você pensa que as pessoas vão ter de você.
Pio: Talvez o desenho ou o texto estejam mais soltos nisso, mas você escreve coisas em diários, como vocês escreve coisas em ficção – interpretando - e que moralmente você é solto. Por exemplo, você descreve uma metáfora que você deu uma ontem de noite no papel, você termina tendo menos pudor quando você está falando sobre isso. Mas você não fotografa isso. E talvez você faça isso porque você encare que um documento numa linguagem de texto já tenha um domínio ou já tenha uma propriedade pública maior que a fotografia. A fotografia ainda é uma... Se eu fotografo o Rafa, esse é o Rafa. Então se por acaso o Rafa não tiver bem, tiver com o dedo no nariz, é um demérito do Rafa, mas se você enxerga ela como uma linguagem e essa linguagem amadurece socialmente, não é o Rafa que ta com o dedo no nariz, é um cara de trinta anos, que vive em São Paulo, ficando careca (risos)... Esse negócio do pai do João é legal, ele nunca teve consciência de que aquilo era um documento. Ele fotografava o cotidiano deles, mas a partir do momento que aquilo foi registrado, passou a ser um documento. A partir do momento que a gente fotografa a vida da gente na Cia (de Fotos), aquilo é um documento. Teve uma pessoa que entrou nesse Flickr que a gente está fazendo e pegou três fotos de crianças no Flickr pra botar no quarto dela. Uma pessoa, não sei nem onde ela mora, espalhou três fotos de nossas crianças pelo quarto dela. Essas crianças não são mais o sobrinho do João, não é mais minha filha... não é. Para a menina aquilo lá tem um significado que não pertence a gente. Eu não posso encarar como aquilo sendo um documento que me pertence, passa a ser um documento social, entende? Então, sei lá, o Gabriel Garcia Marques escrevendo sobre a vida mais modesta possível dele, ele trata aquilo de forma universal... aquilo tem que ser público, né. E a fotografia é um processo físico químico de exteriorização, ela tem que ser pública... A geração da gente ainda tem o deslumbre com o processo de impressão e não o deslumbre da exteriorização, da capacidade de se mostrar. Você está mais deslumbrado com o objeto que você formou do que a sua capacidade de expelir essas demonstrações e essas comunicações sociais.
Diego: Pio, numa enquête do FotoSite sobre se você acreditava no Brasil, você respondeu que acreditava, mas entre outras coisas não acreditava na Veja. Como você vê a imprensa brasileira e no que você já não acredita?
Rafael: Sabe quando o fotógrafo monta o currículo e diz assim: “entre os clientes estão tal, tal, e tal”? A Cia vai fazer assim: “não trabalhamos para” (risos). A gente chegou num nível de consciência fotográfica e também de profissionalização que a gente não aceita mais ser ignorante e ser burro, ser tratado como burro.
Pio: Isso é um engajamento, né. É um processo que dói muito pra gente. No caso da imprensa, a imprensa em geral, eu acho que ta patinando. Hoje em dia o que eu consumo de imprensa no Brasil é assim, a revista Piauí, blog, então geralmente em matéria de política ou de tecnologia a gente acha com pessoas que descobriram e começaram a disseminar como mexer com isso. E o jornalismo ele ta engraçado por que ele não ta se achando de fato, né. É difícil eu um dia sair de casa pensando em alguma coisa que eu li na Folha de São Paulo, apesar de continuar assinando. Mas agora parece que ta tendo um movimento interessante, que é o caso da volta do Carlos Eduardo Lins da Silva como Ombudsman da Folha, isso é uma indicação boa do que os caras estão querendo. Mas é difícil assim... às vezes o Chico Sá me tira um pouco da cadeira, mas só faz você rir, não bota nada profundo... Não ta uma situação fácil pra eles, nem pro conteúdo, não ta. A imprensa fica no meio de uma relação de poder, fica em cima do muro, quer ser imparcial, mas não consegue... O programa do Marcelo Tas agora é uma chance de talvez dar uma modificada, de trazer um pouco mais de entretenimento e inteligência, assim, do mais ta chato. Não sei o que falar, faz um ano que eu não vejo o Clóvis Rossi trazer algo de novo, faz muito tempo que eu não vejo articulistas de política trazerem posições interessantes que te fazem pensar “Porra,que bacana, eu não tinha pensado nisso”, não tem, não tem. Eu li o livro agora do (Eugênio) Bucci saindo da Radiobrás, eu não lembro o nome agora, é um depoimento lindo assim. Outro dia eu amanheci e a minha mulher me deu a revista da Folha e disse “olha que revista bonita”, eu disse “como uma revista da folha não pode ser bonita?” , e tava bonita. Aí eu fui olhar assim e a edição de fotografia era da Marilia Scalzo.
Rafael: ...Que é jornalista, que é uma das poucas que pensa ainda em mudar...
Pio: Que quebra o recalque jornalístico, que traz notícia de uma forma qualificada, assim, sabe... Mas ta chato, cara. Eu vejo (o jornalismo de hoje) muito como instrumento objetivo, você é investidor financeiro, então você tem que ler o Valor (Econômico) para saber onde investir, sabe, a coisa ta assim... Mas pra meio cultural não tem nada assim, não tem uma revista de música, fotografia...
Rafael: A Folha começou a ficar desinteressante e eu parei de assinar.
Pio: O jornal não ta esquentando a vida. O jornal ainda tenta furar a internet. É uma loucura. É difícil você ir no outro dia e pegar uma notícia aprofundada.
Thomaz: Você acha que o jornal deveria ter um perfil mais literário, que esse negócio de furar a internet já era?
Rafael: Eu acho. Que nem a Piauí. As (revistas) semanais são horríveis. São todas iguais, não sei o que elas fazem, têm uma semana pra fazer e não fazem nada, cara. Quando você vê (o conteúdo) já ta tudo velho. Parece que elas estão querendo mudar, mas não sabem como... ta sobrando dinheiro no jornalismo de consumo, então eles estão se dedicando pra esse lado.
Diego: E no que você não acredita mais, Pio?
Rafael: Cara, eu não acredito mais em casamento (risos).
Pio: Eu acredito, eu acredito... acredito muito (em casamento). É engraçado assim, naquela entrevista eu disse que não acreditava no Recife, e eu continuo não acreditando, mas outro dia eu fui convidado para ir num evento de fotografia e eu vi coisas específicas da fotografia de Recife que me deixaram muito animado. Eu ainda continuo não acreditando, mas dá uma vontade de você sugar ali alguma coisa... Eu acho que não acredito no sistema, no jeito que a gente vive... O que mais me prende àquela resposta (da enquete) é não acreditar na grana que eu gasto pra minha filha estudar e ter saúde. Isso prova que dificilmente ela vai quebrar o ciclo da minha geração. E se eu pensar muito sobre isso é muito triste, é melhor não pensar. Saber que ela vai estar com 33 anos vivendo dramas que podiam ser mais sofisticados e eu desconfio que ela vai ter que ralar e entregar horas para os outros que lhe pagam...
Rafael: Talvez, talvez, cara. Acho que a geração dos nossos filhos não vão precisar sobreviver de São Paulo, não vai ter a dependência de um local físico como a gente tem.
Thomaz: Mas você acha que é culpa de quem isso?
Pio: É triste só, né. É ingorante, assim...
Rafael: É muita gente no mesmo lugar, também. Acho que isso tem a ver.
Pio: É uma percepção engraçada, assim. Tanto de consciência ecológica ou coisa desse tipo para uma mostra clássica, cruel de tudo. Não sei se é culpa, mas é triste. O que é culpa, enfim, eu acho que é culpa minha, culpa de todo mundo, culpa da história, de como esse país foi construído, culpa do tratado de Madri (risos).
Flávia: Eu não acho que tenha só um culpado, é uma coisa de trezentos anos...
Pio: Eu acho que é triste que os 20 anos que seria a geração que realmente importa, que é quando você passa a ser pai, isso é uma loucura que você acha que realmente inventou alguma coisa, é uma coisa maluca. Quando você pára pra pensar realmente naquilo, você pode até se esforçar evoluir em algumas coisas... Talvez a minha filha possa ter uma vida sexual menos recalcada que a minha e isso transforme ela numa pessoa mais feliz ou não. Quando você pensa nessa estrutura, nessas estruturas emocionais também... Só pra comentar, atualmente to acreditando no Sport Recife, que vai ganhar a copa do Brasil aí (risos). Isso de certa forma gera muita coisa pro Recife.
Denis: Eu queria perguntar pro João primeiro. Olhando para o que a Cia é hoje, até que ponto você se arrepende de ter recusado o convite da Benetton?
Rafael: Cara, ele acredita em São Paulo (risos).
João: Pra mim a Cia foi um processo muito animal, porque eu sempre fui muito individualista, assim. E eu aprendi muita coisa na Cia, não só profissional, mas justamente de como se relacionar e como fazer isso ser produtivo, sabe. Então acho que ali foi uma decisão que tinha muita coisa envolvida, não era só a questão profissional, na verdade o profissional acho que foi o que pesou menos. E eu não tinha idéia de que era mais legal ir pra fora do que ficar na Cia, não era, não era. Na prática a Cia era o que eu queria assim, por tudo o que representou. Foi um momento ali que a Cia deu uma virada muito grande, então era ou vai ou racha. Então não precisou chegar a esse ponto para valer a pena, já valia a pena antes.
Rafael: Eu acho que quando você viaja, conhece outros lugares, você desmistifica tudo isso. Você vai pra Itália parece que você ta no Bom Retiro (risos) não é aquela coisa, não é nada demais sabe. Você vê o cara que foi editor da Colors durante 10 anos veio morar no Rio agora. É um cara normal assim... isso é coisa da classe média.
Pio: O legal foi a estima que isso (o João não ter ido pra Beneton) criou, sabe.
Flavia: Mas foi uma decisão do João ou uma decisão da Cia?
Pio: O João recebeu o convite, abriu pra gente na hora a gente achava que ele deveria viver aquela história, que não dá pra recusar um convite de te jogar num mercado como é o mercado europeu, por exemplo. Até porque nessa época a gente tinha um deslumbre muito grande pela Magnum, Então não seria estranho o próximo passo do João ser essa agência, sabe. É uma coisa maluca na cabeça da gente, até hoje. É que hoje a gente já tem uma cabeça diferente assim, o espírito contemporâneo da Cia independe de uma relação submissa a Magnum, por exemplo. O João tava num momento que poderia ir pra lá, sabe. O que aconteceu é que ele foi pra Itália e disse pro cara que topava viver a história se ele não saísse da Cia. Ele assinaria como Cia, teria passagem pra voltar. E aí o cara começou a jogar de um jeito...
João: Não tinha flexibilidade, era “ou você vem ou você fica”.
Pio: Acho que ele pensou “o que esse pentelho ta dizendo? Tem um monte de gente do mundo todo querendo estar no lugar dele e ele fazendo exigências”. Isso deu muita estima pro grupo. Até por que poucos meses depois quando a gente já estava acomodado novamente, o mundo respondeu pra gente. Pensaram “olha,os caras são... você não mexe com aquele conceito ali”. Tanto que a gente hoje colabora com coisas que o mundo todo quer fazer. A gente tem grandes amigos que estão em grandes agências lá fora e sabe disso.
Rafael: A gente ta muito forte agora. Na idéia. Ninguém tem coragem de dizer isso.
Pio: Não há proposta configurada pra tirar a gente da Cia.
Rafael: Até porque tem que sair da São Paulo (risos).
Pio: Mas sei lá. A gente tem uma tentação pelo mercado de artes visuais, assim, não como missão, mas porque é o mercado que ta mais fresco nas idéias, que atrai mais pessoas bacanas pra fotografia. O diálogo com o mercado de artes visuais assim é o mais instigante.
Flávia: É o mercado mais próximo do que vocês mais gostam assim, que á linguagem, né?
Rafael: É bem mais próximo. Tem uma coisa que é, assim, é tão difícil você conversar com um fotografo. Os caras só falam em fotografia, acho que é por isso que eles não evoluem muito, por isso eu acho que eles têm uma resistência a esse lance da autoria assim, sabe.
Pio: Agora, nessa história do mercado de artes visuais existem modelos que dá vontade de entrar neles, experimentar, e a gente não entrou ainda porque esses modelos ainda são muito restritivos, tipo, pra você entrar com uma foto numa galeria você tem que seriar. Então todos os convites que chegam nesse sentido a gente rejeita.
Denis von Brasche: Vamos dar uma relaxada, vocês saem juntos, vão para a balada juntos?
Pio: A gente está sempre junto, e isso nem sempre é bom. A gente adora festa, música, gente, drogas.
Rafael: É um pouco isso que Cia está nos ensinando: a ser menos hipócritas. Esse ensaio íntimo é isso. Porque todo mundo faz e diz que não faz.
Denis: Vocês falam de mostrar a intimidade que ninguém faz e que colocaram isso no Flickr. Mas porque deixar lá para a galera baixar e usar?
Rafael: Porque se a gente fosse vender seria muito caro.
Pio: Esse ensaio criou um eixo de experimentação muito forte para Cia. E é legal porque nós vamos fazer agora um trabalho para uma marca de moda, só que nós não temos o mesmo perfil dos trabalhos dos fotógrafos de moda. Nós fomos chamados pelos outros trabalhos que nós já fizemos. O que nós aplicamos na reunião e aplicaremos no trabalho é o que nós fazemos na Caixa de Sapato.
Rafael: Puta, é muito gostoso pensar que as pessoas podem conhecer mais a gente através de nosso trabalho. Alguns fotógrafos, você consegue saber como eles são através de suas fotos. A maioria não consegue, pois existe um distanciamento, por melhor que seja a foto, você não sabe nada do cara.
Pio: Eu não posso mostrar uma coisa exótica minha nesse caso? Como mostrar como é minha vida na zona oeste? O que eu faço? Como eu transo? Se eu pudesse fazer 30 anos só de Caixa de Sapato ia ser lindo.
Denis: Por que vocês gostam de aparecer pelados nas suas próprias fotos? Ou de cueca, como naquele ensaio do Papai Noel para a FS?
Rafael: No caso da FS mandaram só a barba e o chapéu para a gente…(risos).
Pio: Isso é muito legal. É algo que as pessoas vão consumir rápido. A história da foto xixi (onde aparece um pênis da Cia), por exemplo, vale um documento, gera uma discussão. É um momento ordinário. Mas a gente ficou meio assim internamente, na hora que a foto foi feita. Será que vale colocar no site? Tem hora que a foto não é mais da gente.
Rafael: E vale mesmo. Vale botar transa, vale botar nudez.
Pio: Mas acho que a gente se mostra muito, porque a gente amadureceu, criou esse desprendimento com a nossa intimidade. A gente começou a encarar isso como documento, que instiga a gente a se mostrar. Então solta aí… A gente adora a nossa mesa de pingue-pongue, quando rolou a foto do Papai Noel a gente tava jogando direto, então por quê não fazer lá? E se você parar para pensar, já fazia parte de um amadurecimento, quando paramos de usar carro, quando o Rafa voltou a cultuar o corpinho para voltar ao mercado.
Denis: Por quê vocês ficaram tão preocupados com o uso que as pessoas podem fazer da série Caixa de Sapatos? Já que as imagens estão no Flickr e não dá para ter muito controle sobre elas?
Rafael: A gente questionou qual a finalidade da fotografia. Por quê as pessoas consomem imagem? O que está sendo surpreendente para a gente é que o mercado ainda não está usando de forma comercial. Claro que elas são importantes comercialmente para a gente, no sentido de atingir um determinado público. A gente fotografa para a gente, mas quer que as pessoas consumam.
Pio: O mercado está acostumado ao uso da fotografia quando ela é agenciada, quando tem contratos, licença de uso e tal. Então se você chega com uma foto dessas, o cara vira as costas e vai procurar algo parecido na Getty. O engraçado é que quando a gente colocou essas imagens no ar, estávamos ansioso por um uso comercial. E logo depois a gente sacou que não ia rolar, que esse mercado não ia dar essa resposta, que o valor vai ser da mulher que coloca a foto em sua casa. A gente se sente meio tiozinho no Flickr. E quem entra no Flickr, procura coisas despretensiosas e a gente tenta responder despretensiosamente. Ontem mesmo, uma menina da Itália fez um monte de pergunta e a gente ficou brincando na entrevista, com uma pergunta sobre quais fotógrafos a gente escolheria para jantar com a gente.
Rafael: A gente falou que gostaria de ver o Cartier Bresson servindo a gente, como garçom.
Flávia: Mas vocês têm consciência de que vocês não têm controle sobre o uso das imagens?
Rafael: Sim, nós temos. Tem uma empresa que pegou uma das nossas fotos, e dessa nós vamos cobrar. Pegaram nossa foto e fizeram uma propaganda!
Pio: Tem um banco de imagens no Brasil que se acha, que tem algumas fotos nossas, poucas, e não vai ter nunca mais fotos novas. E nós tínhamos contrato com esse banco de imagem e isso é um saco. Essa empresa, que é a Telefônica, pegou uma foto muito íntima da gente e lançou numa propaganda. O banco de imagens não sabia disso, a gente foi atrás do banco de imagem para falar sobre o que estava acontecendo. E hoje em dia a gente não pode brigar com a Telefônica, porque no contrato diz que é o banco de imagens que nos representa legalmente. Então é ele que faz o acordo com a Telefônica e nos passa 50% desse acordo. Veja que loucura! Agora nós vamos falar com nosso advogado e nunca mais ter relação com esse banco. Para mim isso é uma prova de que esse banco está morrendo. Tomara que as pessoas que precisam de fotos usem o Flickr e não mais banco de imagem! Pelo amor de Deus! Vão direto ao Flickr! Você tem a possibilidade de ser uma empresa que está em Estocolmo, dar uma puta grana a Ronaldo [jovem fotógrafo Ronaldo Camelo], sem precisar de uma pessoa, de um art buyer, para poder ter a foto. Isso acontece muito rápido! “Caixa de Sapato” tem essa consciência comercial: são fotos de graça, mas um universo íntimo, autoral e restrito da produção da Cia de Foto. É uma produção pequena que está de graça, mas se você observar o número de acessos do nosso site triplicou, nesse tempo de Flickr, cerca de 14 dias. A gente já soube que tem um monte de agência bacana que está olhando o Flickr. Ficamos sabendo também que uma revista que nós nunca conseguimos relação comercial direito porque os diretores de arte se acham, está usando as nossas fotos para desenhar o projeto gráfico, para criar o espírito da revista. Você quer piada maior? A gente colocou o Caixa de Sapato na rua com total insegurança com o resultado teria, a única coisa que nós sabíamos é que todo mundo estaria aprendendo, curtindo. E a gente está pronto para as discussões.
Flávia: Quando o Tuca Vieira esteve aqui comentou que uma de suas fotos mais famosas, a Paraisópolis, já foi usada de diversas vezes, mas sempre num contexto em que ela se encaixa. Vocês têm diversas imagens muito íntimas de filhos, de nudez, não temem que essas imagens sejam aplicadas em contextos depreciativos?
Pio: A responsabilidade é de quem usa. É artigo de lei. A moral é de quem usa.
Flávia: Mas as leis para internet ainda são recentes e quase não cobrem as possibilidades mais recorrentes?
Rafael: Acho que não teria uso depreciativo
Pio: Mas a questão da imagem, se eu pego a foto do pinto da Cia de Foto, e uso de forma depreciativa, eu peguei a foto, eu respondo legalmente por isso. Em todo caso é um instrumento de perversão minha. Estranho isso, não é? Quando você vê a foto de um adolescente que se fotografa nu, e você enxerga perversão naquilo, a perversão está em você. Você enxergou porque há perversão em você.
Thomaz Gomes: Tem algum momento em que vocês estão fazendo um trabalho em que vocês pensam: “Se eu estivesse fazendo isso sozinho faria diferente”. Mas por estar num grupo vocês acabam cedendo?
Pio: Eu acho que isso foi no começo. Hoje é o oposto disso, porque existem horas em que estamos encaixotados de coisas para fazer e um olha para ou outro e pensa: “Deixa esse porra resolver!” (risos).
Rafael: Tem hora que é foda! Mas nosso principal trabalho é o pensar da foto e depois a edição, e fazemos isso juntos, discutindo como é melhor. E, às vezes, nós pensamos na estrutura coletiva: hoje tem oito pessoas trabalhando lá, e é muito caro. E a gente pensa: “E se fosse só nós três numa salinha?”. Mas daí não funcionaria.
Thomaz: Em relação a dead line, vocês já entregaram o trabalho, mesmo ele não estando da maneira como vocês queriam?
Rafael: Sim...(risos)
Pio: Com as revistas que nós temos uma relação comercial diferente do que o mercado trata, nós temos um pouco mais de atenção. O que não é sinônimo de sucesso. Acaba sendo uma grande merda. Porque muitas vezes a gente tem mais agenda para coisas que não são muito rentáveis, são fracas. A gente vigia isso: pára de ser artista, vamos ganhar dinheiro. A gente precisa de dinheiro! Então, temos os nossos trabalhos mais pessoais que são usados comercialmente, mas também tivemos que aprender a fazer simplesmente o que cliente queria.
Thomaz: Qual foi o pior trabalho que vocês já fizeram?
Rafael: Publicidade, naquele estilo mais tradicional. É algo que nós não fazemos mais, paramos. Porque é mais fácil você ser um falso amigo do cara, do que entregar um bom trabalho. A gente não consegue. Já teve ocasiões em que marcavam com a gente as nove da noite do domingo, o cara chegava as onze e não estava nem aí. Daí no dia seguinte de manhã ele pergunta: “vocês podem aparecer aqui?” Não! Isso aconteceu na campanha para a Havaianas.
Pio: Numa reunião o criativo pegou e falou: “me senti sozinho”. E o Rafa levantou e falou, “mas você não é mais bebê, cara”. Teve esse estresse. E isso é foda porque você fica pensando que no dia seguinte a gente quebrou. Porque se na hora que chegou a Havaianas na sua frente você chega na frente do publicitário e diz que não é babá dele, fodeu! Nunca mais vão ligar para gente!
Rafael: E eles realmente nunca mais ligaram (risos)
Pio: Mas a gente também teve casos de grandes empresas que nós fizemos trabalhos muito grandes que envolveram jurídico e tudo mais, e embora tenha havido paus e sugestões, a pessoa ligava e falava “estou com vocês aqui dentro”.
Rafael: E não adianta inventar, você engana por um tempo. É melhor você ser sincero e tentar educar o seu cliente. “Ah, não está rolando? “ Então, não vamos trabalhar. Pelo menos o cliente vai saber o que você está pensando.
Pio: É difícil a gente aceitar as formas que o mercado colocou para estruturar essa existência. Tem fotografos que pagam edições de livros, e estes livros são passes para o mercado comercial. Tem fotógrafo que lança livro todo ano, elabora e até paga um curador para escrever um texto, e alguns caras até curam aquilo como sendo uma obra, e não é! Aquilo é uma forma de conseguir trabalho ano que vem! Por esses embates a Cia escorrega muito na parte comercial, a gente sofre muito, dói.
Thomaz: Sendo quem vocês são, o que é mais frustrante na fotografia?
Pio: É ver que as melhores coisas que a gente faz não são pagas. É ver que nossas produções mais bacanas não têm valor comercial. É ter que pensar em dinheiro, isso é foda. E quando tem que pensar em dinheiro, a viabilização em fotografia é muito suja. Nem eletricista é tratado desse jeito. Porque se você chama um eletricista na sua casa você não diz “não faça isso” “troque desse jeito”. Com fotógrafo é feito isso. Fotógrafo é pago para não pensar! Isso é muito cruel! O mais frustrante é a Cia ter que aprender dessa forma: o que é legal a gente não vai ser remunerado.
Isabelle Mani: Mudando um pouco de assunto, vocês trabalharam com mulheres lindíssimas e, às vezes, elas estavam nuas. Como era isso?
Pio: Acho que num bate, sabe? Porque você está num clima intimista com a figura que é animal, mas geralmente não são as eleitas as bonitas para isso. É foda, você entra numa vibe. É realmente foda! (risos)
Isabelle: E vocês já saíram com alguma delas?
Rafael: Já. Com cliente, com assessora de imprensa, com personagem (risos). Tem até dois exemplos recentes (risos). Mas também nós não somos esses caras deslumbrados que chegam e: “eu sou o fotógrafo”. (risos)
Pio: Você aprende a seduzir. Mas também existe o outro lado, tem vezes que sai faísca com a pessoa que vai ser fotografada.
Isabelle: Como a Laura Cardoso?
Pio: Com a Laura Cardoso foi um pau! E de certa forma a foto retrata isso
Rafael: Mal-humorada ...
Pio: Pedro Cardoso foi outro que não rolou, ele reclamou demais, dizia que o flash iria fazer mal, questionava se tinha que usar aquilo. Eu não estava lá para aquilo, peguei minhas coisas e fui embora.
Isabelle: E quem foi bacana de fotografar?
Rafael: Ah tem vários....a Fernanda Young foi bem legal, o Dan Stulbach, o Bill Clinton que depois de dois dias sendo fotografado ainda tirou foto abraçada comigo.
Pio Figueiroa
Diferença: diferença é um motor que me leva a quebrar preconceitos, para me tornar melhor
Tesão: Juliana
Recado: eu faço tempo todo, tenho dificuldade de dizer as coisas diretamente, então fico dando recado o tempo todo. Recado é uma habilidade linda de comunicação social.
João Kehl
Atitude: é algo que está muito ligado a fotografia, que é um motor muito importante na minha vida
Arrepio: “Nada mais tem nome, só o arrepio”
Em cima ou embaixo: Embaixo
Rafael Jacinto
Poder: Está na mão errada
Frio na barriga: ansiedade pela novidade....e isso é bem falando de mulher mesmo (risos)
Blábláblá: tem que ter...se não, não leva para casa (risos)
DESAFIO: A Cia de Foto foi desafiada a mandar três fotos de situações que reflitam algo em que eles não acreditam.
Ouça a conversa com a Cia de Foto Aqui
Da Redação
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