15/05/08
“EU SOU DA RUA”

Tuca Vieira conta suas experiências na quarta edição do projeto Na Redação

Na última semana, o projeto Na Redação recebeu o fotojornalista Tuca Vieira, que encarou abertamente o bombardeio de perguntas feitas pela equipe da FS Online, em uma entrevista exclusiva. Durante a manhã, Tuca falou sobre diversos assuntos, sempre guiado pelo seu “olhar vagabundo”, despretensioso, porém aguçado - resultado de anos de fotojornalismo e andanças pelas ruas de São Paulo. Caminhadas noturnas, a democracia corintiana, influência de Histórias em Quadrinhos, trânsito, muita fotografia e até um impressionante diálogo com um suicida. A conversa teve de tudo, como você pode conferir nas linhas a seguir.

Flávia Lelis: Onde você nasceu?
Nasci em São Paulo, na Avenida Santo Amaro. Morei aqui praticamente a vida inteira, com exceção de alguns anos que eu morei em Belo Horizonte, quando era adolescente, e uma pequena temporada na França.

Flávia: Você morou em que lugar na França?
Eu passei seis meses em Paris, quando eu tinha vinte e poucos anos.

Flávia: Qual a melhor recordação da sua infância?
A primeira que me vem à cabeça era ir em jogo de futebol com o meu pai. Quando eu era muito pequeno. Sou corintiano, mais importante do que paulistano, eu sou corintiano [risos]. Eu me lembro daquele time da democracia corintiana, de 82, 83, não é? Sócrates, Casagrande. Mas não era só o time, eu acho que ali começava a nascer uma relação com a cidade mesmo. Quer dizer, você ir ao jogo era uma experiência. Você tinha que se deslocar de casa para ir até o estádio, ver aquela multidão, você ter contato com todas as classes sociais, era uma experiência muito urbana, muito rica de informações e imagens.

Flávia: E a adolescência? Você teve a famosa crise da adolescência?
Claro que teve. Toda aquelas ansiedades... A adolescência também é muito ligada ao período de Belo Horizonte, que eu morei lá. Eu fui lá com treze anos e fiquei até os dezoito, e nessa fase da vida é onde acontecem muitas descobertas. E isso tudo aconteceu no cenário de Belo Horizonte, foi muito interessante ter saído de São Paulo. Em São Paulo a gente às vezes cai na ilusão de que o mundo inteiro está aqui e não é verdade. Desde moleque, muito cedo, 14, 15 anos eu comecei a viajar sozinho pelo Brasil. Então, a adolescência foi cheia de descoberta e a fotografia surgiu numa dessas viagens.

Flávia: Essa era a próxima pergunta: como aconteceu esse encontro com a fotografia, quando você decidiu que era o que você queria?
Eu sempre tive curiosidade como todo mundo tinha, mas eu, aos 16 anos, planejei fazer uma viajem para a Europa. Aos 16 anos. Eu tinha um cabelo enorme, era cheio de espinha na cara, gostava de Iron Maiden. Era um adolescente bem típico. E eu planejava ir com um amigo que já tinha ido, tinha família lá. Isso foi um acontecimento na minha família. Gente, engraçado, eu não sou tão velho assim, mas hoje é mais fácil, as pessoas vão [para a Europa], passam uma semana e voltam. Eu lembro que a família parou para que isso acontecesse, eu ia ser o primeiro a ir à Europa desde os imigrantes italianos, descendentes de família. Na última hora esse amigo não pôde ir e eu fui sozinho. A família apoiou e tal, e eu fui. Na última hora minha tia me comprou uma câmera, uma Yashika falsificada, que era incrível porque ela fazia 72 fotos ao invés de 36 no filme, depois que eu descobri que ela fazia com meio fotograma, e essas câmeras não existem mais. E aí eu fui, e deu tudo certo, eu viajei por vários países, de mochileiro, descobri o mundo ali. Quando você viaja em grupo você fotografa os amigos em geral, quando você está sozinho, você começa a olhar para as outras coisas. Quando eu voltei eu procurei o Cláudio Feijó, que é meu tio.

Flávia: Ah... eu não sabia.
É. O Cláudio Feijó me viu nascer. Eu fui procurar a escola Imagem e Ação e fiz o primeiro curso de fotografia logo que eu voltei dessa viagem.

Flávia: E o caminho até a Folha de S.Paulo?
Dali, do curso de fotografia, eu entrei na faculdade de Letras, mas já não tinha interesse profissional com a faculdade. Eu achava que era a fotografia mesmo, mas, mesmo assim, queria estudar letras, língua e literatura. Dali, o meu primeiro trabalho como fotógrafo mesmo foi no MIS - Museu da Imagem e do Som. Comecei como laboratorista, assistente do Eduardo Castanho, depois ajudava na montagem das exposições, comecei a fotografar os eventos do museu. Depois veio esse período que eu estive na França, por 6 meses, onde eu fui com a idéia de fotografar. Uma idéia muito romântica de fotografar. Eu cheguei a montar um laboratório lá na casa onde eu morava, foi muito conflitante, foi muito difícil conseguir fotografar aquela cidade. Depois trabalhei como assistente de estúdio de publicidade, para descobrir que eu não gosto disso [risos]. Aí fiquei uns dois anos de frila, e fui para agência N Imagens, da Nair Benedito. Lá foi a primeira experiência como fotojornalista mesmo. Fiquei quatro anos fazendo o Diário do Comércio, que foi uma experiência muito legal. E depois eu passei pela revista do Sesc e fui pra Folha.

Flávia: Como você se descreve – quem é você -, e o que de você tem nas suas fotos?
Eu sou muito curioso. Acho que a curiosidade é fundamental. Eu sou muito inquieto e interessado. E para me descrever eu diria que essa é uma característica que me importa. O que tem de mim nas fotos? Acho que tem paixão. Qualquer um só fotografa bem, ou só se expressa bem através de algo que goste, que tenha uma identificação.

Flávia: Dentro da sua carreira, do que você se arrepende?
Não, eu não me arrependo de nada. Sem nenhuma falsidade. Eu acho que a gente aprende tanto com os erros, que todos os erros me serviram para alguma coisa.

Flávia: Quando o Hélio [Campos Mello] esteve aqui, a gente falou um pouco de fotojornalismo e de como os fotojornalistas estão sendo criticados. Mas como é dentro das redações: vocês são cobrados diariamente?
É, existe uma cobrança, mas ela não é exatamente diária, vem a longo prazo. Se você percebe que está fazendo pautas muito ruins, que estão te deixando de lado é porque você não está agradando de alguma forma. E o contrário também. Você percebe que está fazendo coisas mais interessantes porque você está no caminho certo. E esse caminho certo a gente nunca sabe se é para o bem do fotojornalismo ou para o bem da empresa. Em qualquer empresa é assim. Então, é sempre uma linha tênue entre você fazer o que você acredita absolutamente ou fazer o que tão pedindo pra que você faça. Porque você é um funcionário e eles podem, às vezes, estarem mais certos do que você. Então, essa decisão ela é constante e diária. Muitas vezes você não pode se negar a fazer alguma coisa que te peçam, às vezes você tem que fazer isso. Numa empresa, num jornal ou numa revista também há interesses conflitantes.

Diego Dacax: Você já se negou a cobrir alguma pauta...?
Negar a cobrir, nunca. Mas varias vezes fui fazer uma coisa que era justamente diferente do que haviam pensado. Aí você tem que ter peito para dizer “Olha, hoje não tem foto”. Ou então você mostra a antifoto. Precisa ter coragem para fazer isso.

Flávia: Nesse caso [da Isabella Nardoni] que a gente a cada dia vê mais meio capítulo da história da menina que foi supostamente arremessada pelos pais. Como vocês são pautados para esta cobertura?
Desse caso não participei. Ontem [quinta-feira, 08/maio] foi terrível na verdade. A polícia expôs o casal claramente. Inclusive colocando em perigo a vida deles. Então, para você ver como é um ciclo: um crime abala a população, que movimenta a imprensa, que interfere no crime. Precisa ter um limite para isso. Agora, esse limite nunca vai ser imposto pelo leitor, pelo público. Eles estão interessados em ver. Tem que ser imposto pelos profissionais de imprensa.

Diego: Você vê alguma semelhança com o Caso Escola Base?
Acho que tem que levar em conta que existe a mínima, ínfima, possibilidade de eles não terem sido culpados. Isso tem que ser levado em conta. Não é o papel da imprensa [julgar], é o papel da justiça. Eu vejo na imprensa a mesma atitude daquelas pessoas que mandam linchar. Se a pessoa comete um crime bárbaro e você quer linchar aquela pessoa, você, em última instância, quer se tornar um criminoso bárbaro igual a ela. O que eu acho mais interessante dessa história do caso Isabela em termos de fotografia é a reprodução dela [da menina], sorrindo. Eu acho que essa foto tem um impacto enorme. É uma análise. Você poderia escolher várias fotos dela quando ela era pequenininha. Mas aquela foto eu acho fundamental no imaginário das pessoas!

Thomaz Gomes: Agora, Tuca, se você fosse pautado para cobrir esse caso, qual você acha que seria a boa foto, uma foto imparcial, porque afinal de contas eles não foram condenados ainda, ou uma foto que pegue um ângulo mais sinistro, que condene eles?
Então, mas você não pode fazer uma foto que condene eles, não é? Hoje na Folha tem uma foto que condena eles. Tem o cara [Alexandre Nardoni] atrás de alguma coisa que parecem grades e o cara está atrás. É uma foto que condena. É uma decisão muito delicada do fotógrafo, talvez podia ser o único ângulo que ele tinha. Mas é uma decisão delicada do jornal colocar aquilo.

Isabelle: Que tom você daria para essa cobertura que estão fazendo?
Exagerada, desmedida... Eu procuraria, se me dessem essa liberdade, eu procuraria ficar longe dos suspeitos e faria o circo. Eu acho que focaria a cara das pessoas, com raiva olhando para eles, por exemplo.

Flávia: Isso também me frustra um pouco. Você poderia mostrar esta matéria de várias formas, mas qual faria com que o leitor comprasse jornais? E o que te frustra mais na nossa imprensa?
Frustra-me que a imprensa tem praticamente dois papéis. Um de atender as necessidades do leitor, e o outro uma responsabilidade social como veículo de comunicação. Frustra quando essa balança está muito desequilibrada pelo lado comercial, quando o lado da responsabilidade é colocado de lado. Quer dizer, é claro que é chocante a morte da menina, mas há crimes como esse quase diariamente. Por que tanta atenção num caso e tanta negligência nos outros?

Diego: Tuca você acha que o jornalismo brasileiro faz jus à obrigatoriedade do diploma?
Ah, você pega a lista dos 20 maiores jornalistas do país, você vai perceber que 70% não têm diploma de jornalista. Se você pedisse para os fotógrafos então... [risos] Não faz nenhum sentido isso. O jornalismo é o ato de contar uma história e você pode se preparar para isso das formas mais diversas. Talvez o curso de graduação em fotojornalismo seja um dos menos indicados. Eu acho que na redação tem que ter gente de todas as áreas diferentes, inclusive jornalistas [risos].

Flávia: Olhando para o que a gente tem hoje, não há muito investimento em imprensa, há pouco espaço, houve um enxugamento de profissionais na Folha, principalmente em fotografia. A imprensa toda vive uma crise. O que te motiva a continuar fotografando, o que te inspira quando você olha para tudo isso?
A imprensa teve uma recuperação de um ano e meio para cá. Eu acho que vai muito com os números da economia; esse boom imobiliário, por exemplo, cria uma série de anúncios e você vê os jornalistas indo junto. È verdade, ainda está em crise, tem a concorrência com a internet, mas apesar de todos os defeitos, é o canal que você tem para se comunicar. Nunca vai ser perfeito, então você tem que continuar brigando para colocar uma foto, por mais difícil que seja. No Brasil a gente tem basicamente dois tipos de veículo para o fotojornalismo: o jornal diário e os livros com grandes projetos patrocinados por empresas ou leis de incentivo. Mas o veículo mais nobre na história do fotojornalismo sempre foi a revista, como A Paris Match, a Life, a Time, com ensaios de 10, 15 fotos, e tempo de apuração da notícia, isso a gente praticamente não tem. A gente ou tem quinze minutos pra fazer uma pauta para o jornal, ou luta a vida inteira para publicar um livro... Não fotografo só para a imprensa. O meu livro de cabeceira é o “Cartas a um Jovem Poeta”, do Rainer Maria Rilke. Rilke era um poeta já muito famoso, austríaco, do final do século 19. Aí um rapaz escreveu para ele dizendo que queria ser poeta também e perguntando o que ele devia fazer. Ele disse o seguinte: “Você só vai ser um grande poeta se a poesia para você for uma necessidade, se você precisar dela para viver. Não é uma opção”. Então Rilke diz a ele assim: “Pergunte a si mesmo, você morreria se te fosse vedada capacidade de fazer poesia? Preste atenção nisso”. Então, o que me motiva a fotografar, eu acho que eu nem tenho mais essa opção.

Flávia: E seus projetos pessoais? Eu sei que você tem uma paixão muito intensa por São Paulo, suas fotos mais famosas são da cidade – pelo menos as que eu mais gosto. O que você gosta de colocar nos seus projetos pessoais?
Eu nunca fiz grandes projetos, no sentido de projetar trabalho no futuro. Eu sempre acreditei em uma coisa mais constante, estar sempre fotografando, sempre atento, sem uma coisa projetada, um trabalho contínuo. E disso vai surgindo meu produto de imagens interessantes, que aí você olha para trás e transforma aquilo em um projeto, eu sempre pensei mais assim. A partir do momento que você mora na cidade, você fotografa o lugar em que você está e eu estou na cidade. E eu sempre me interessei pelo ambiente das coisas, pelo cenário.

Isabelle Mani: O que mais te emociona na cidade, você que é apaixonado por São Paulo?
Eu acho que São Paulo é hoje a cidade mais criativa do mundo. Eu viajei muito, tive esse privilégio, conheço essas grandes cidades famosas, Nova Iorque, Londres, que têm uma história incrível na arte, na cultura, mas eu as vejo como cidades meio prontas, já fizeram o trabalho deles, já chegaram em algum lugar. São Paulo é muito pouco fotografada, muita gente mal conhece. Eu acho que São Paulo vive hoje um momento como Londres viveu nos anos 60, Paris nos anos 30.

Isabelle: E quais são seus lugares favoritos e os que você menos gosta?
Eu gosto do centro, sem dúvida. Eu acho que o centro da cidade vai ser sempre a referência da cidade, nenhuma cidade vai ser bacana se o centro não for. E eu não me identifico nem um pouco com o Itaim, por exemplo [risos]. Eu me sinto meio estrangeiro às vezes. Hoje existe uma curiosidade do mundo por São Paulo como eu nunca vi. Parece que no exterior descobriram ontem como São Paulo é interessante. O grande tema da cidade para esses caras é a cidade sitiada. Eles estão clamando por boas fotos desse assunto e eles vêem isso como a principal característica de São Paulo, quer dizer, a cidade protegida: os bunkers que se criam nos condomínios, nos carros blindados, você evitar o contato social, os shopping centers. Não me identifico nem um pouco com esses lugares, mas acho que a gente tem que prestar atenção nisso. Outro dia vi no jornal o anúncio do Bairro Privado. Bairro Privado! Não é genial? [risos] É incrível, daqui a pouco a cidade inteira vai ser privada!

Isabelle: Se você tivesse que escolher uma, qual seria a imagem que melhor define São Paulo, a cara dela?
Eu acho que é a juventude criativa. Os grafiteiros, os músicos, eu acho que está ali a cara de São Paulo hoje.

Flávia: Tuca, você acha que os fotógrafos estão passando um pouco da linha do bom senso?
Eu não tenho muito como comparar o que se fazia há vinte anos, porque não estava lá fazendo. Se existe essa transposição do limite do bom senso, sinceramente não se deve culpar o fotógrafo. Porque o fotógrafo, ele quer publicar na primeira página do jornal e está atendendo a uma demanda. Não é um projeto pessoal da vida dele ir fotografar o Alexandre Nardoni na prisão. Ele vai fazer essa foto porque se ele conseguir, vai ter alguma recompensa profissional por isso. Essa pressão que se faz sobre ele, ele reflete na hora de fotografar. Ultrapassar o limite do bom senso é exigir isso dos fotógrafos o tempo todo. Por outro lado, os fotógrafos precisam reagir a isso. Atrás de cada foto dessa, tem o que o Clóvis Rossi chama de “Cenas de Jornalismo Explícito”, é uma coisa violenta! Você está tomando porrada, você pode arrumar briga com os colegas lutando por um centímetro de espaço. Se o fotógrafo não colocar um limite nisso, quem está na redação não vai colocar, porque muitas vezes não sabe o que está acontecendo. Esses casos de crime, eu acho que não era muito diferente não. Eu cobri muito o caso da Suzane von Richthofen, esse eu estive bem próximo mesmo, de ficar na porta da casa dela. É uma coisa violenta a forma de trabalho. Eu acho que tem responsabilidade dos dois lados, não só do fotógrafo. É complicado você ver uma briga da imprensa para conseguir fazer uma imagem, você está lá, é pago para isso, aí não sabe se entra nessa ou não. É difícil. Para os jovens fotógrafos, que estão começando ainda, é pior. Agora, tem um negócio em redação que é cruel: se você faz uma coisa absurdamente proibida, você invade uma casa, igual fizeram na época da cratera no metrô, você usa de uma mentira muito grande, você faz a foto e volta, você vai ser elogiado por isso. Vão falar “Pô, o cara é bom!”, sendo que o cara invadiu. O cara se sente pressionado a fazer coisas desse tipo, às vezes. Agora, bom senso é mesmo a palavra.

Flávia: Quem ganha dinheiro com a fotografia?
Ah, publicitário! Eles fazem para isso! Mas tem outro povo que ganha dinheiro, é o mercado de arte de fotografia, é uma loucura isso, como está se tornando um mercado como qualquer outro.

Flávia: Mas você diz o empresário que investe em uma galeria, que investe no colecionismo?
Tudo isso. Tem um site que chama ArtNet, você se cadastra lá, pega uma senha, daí você clica no nome dos artistas, aparecem gráficos, como se fossem ações da Bolsa de Valores! Gráficos de valorização, a última foto que foi vendida, comparações, várias estatísticas, os grandes da última semana, as maiores valorizações do último mês comparado com o mesmo trimestre do ano passado. É uma loucura. Aí, o que é mais perigoso ainda, os fotógrafos começam a produzir voltados para esse mercado. Esse povo ganha, mas ainda ganha menos que publicitário... [risos]

Thomaz: A situação do mundo hoje, você vê tiroteios em escola, pai aprisionando filha no porão, pessoal se matando na África e no Oriente Médio. O que tem de errado com o mundo? Você acha que tem um ponto que está levando a essa loucura?
Ontem mesmo, não vou dizer que eu estou lendo porque é um livro de fotos, mas eu estava vendo o Century, o livro do Bruce Bernard, que é uma retrospectiva pessoal dele sobre o século vinte. É um tijolo, um livro enorme, eu vejo uma década por noite. Aí você percebe que a crueldade, essa guerra, matança, ela sempre existiu, não acho que hoje seja diferente. Eu acho que o que é diferente hoje é a velocidade das coisas. Você fica sabendo de tudo imediatamente, a repercussão é imediata e o esquecimento também já é imediato, porque já vem outra coisa... Acho que as coisas acontecem simplesmente mais rápido. É diferente você saber que um cara trancou a menina por vinte quatro anos, mas isso foi descoberto ontem. É muito mais chocante do que você perceber que isso foi descoberto há dez anos.

Thomaz: Tem vários casos de fotógrafos que cobriram conflitos e catástrofes naturais, que morreram, como o Kenji Nagai, que morreu fazendo as fotos agora em Mianmar. Você como fotografo, em uma situação destas, cobrindo uma guerra, catástrofe, um conflito, qual a linha que você seguiria?
È uma situação hipotética porque eu nunca vivi, mas é engraçado, a gente nunca viveu, mas todo o fotógrafo já se fez essa pergunta.

Thomaz: Você se arriscaria?
É, primeiro eu acho o seguinte, que é a questão do perigo. O nosso colega, o Lacosta, morreu cobrindo um acampamento de sem-teto em São Bernardo do Campo. Quer dizer, o perigo, às vezes não está na guerra. Quer dizer, você pode morrer em um acidente de trânsito na Marginal. E precisa tomar muito cuidado com o “glamour do perigo”, que eu acho que o fotógrafo, os jornais e os veículos de imprensa valorizam muito. Eu acho uma das coisas mais idiotas do mundo a frase do Robert Capa que diz: “Se a foto não é boa, é porque você não estava perto o bastante”. Acho isso uma bobagem sem tamanho. Tem que se avaliar uma situação dessa que seja um conflito, ou mesmo, uma favela do Rio de Janeiro, onde acho muito mais perigoso do que ir ao Iraque, por exemplo.

Flávia: Tem mais perigo dentro da favela?
Eu acho que sim, você fotografar ou fazer uma reportagem na favela realmente, eu acho que é mais perigoso.

Flávia: É difícil colocar o fotógrafo como um mercenário...Teve o caso do menininho que caiu poço, a mãe pulou logo em seguida, mesmo sem saber nadar e salvou o menino. O fotógrafo [Tiago Brandão] fez a série de fotos, e aí ajudou a salvar a criança. E ganhou um prêmio!
É, agora se a criança tivesse morrido por que o cara não foi lá? Acho que é até crime. O fotografo que faz, que fotografa uma situação podendo ajudar. Ele não faz isso por compromisso profissional “ ah meu dever da notícia”. Ele faz isso por promoção pessoal, porque aquela foto vai transformar a carreira dele. Eu acho um horror essas coisas...

Thomaz: Tem se falando bastante nas manifestações pelo Tibet, contra a passagem da Tocha Olímpica. Se a Tocha Olímpica passasse por São Paulo, você tentaria apagá-la?
Se eu tentaria apagar? Não...

Thomaz: A Hillary Clinton está com chances de fazer um momento histórico e se tornar a primeira mulher presidente.
A Hillary Clinton? Imagina, hoje nos jornais está dizendo que o troço está ganho.

Thomaz: Pelo Obama... que também pode fazer um momento histórico ao se tornar o primeiro presidente afro-americano de uma potência mundial.Você acha que tem alguém aqui no Brasil que tem o potencial para preencher esse perfil?
Eu não sei se o Brasil tem alguém para preencher esse perfil e nem acho que isso seja bom para o Brasil. Engraçado, eu vejo essa disputa americana entre Hillary e Obama , e não sei, a minha idéia de espectro político é você ir da extrema direita à extrema esquerda. A disputa entre Obama e Hillary está em uma fração ínfima desse espectro político! São dois democratas, e a disputa entre os democratas e os republicanos também é uma disputa muito pequena. Eu vejo o presidente dos Estados Unidos como alguém que não vai mudar muito sua filosofia de vida. Não sei, você imagina uma revolução comunista nos EUA? Não é? Isso que seria uma oposição. Eu tenho simpatia pela imagem do Obama, e é muito perigosa, a imagem é só o que eles sabem trabalhar. O cara é super bacana, é um charme não é? Você viu as fotos? Mas eu acho que o Lula de certa forma representa isso. Ele não é um negro, mas é pobre. Acho que o preconceito que os americanos têm contra os negros, é o equivalente ao nosso preconceito contra os pobres.

Diego: E você acha que esse preconceito é refletido na imprensa em geral? Na forma como o presidente é tratado?
Ah, sem dúvida. A Veja é impressionante, maior revista do país, tratam-no com desrespeito, não respeitam a figura do presidente. Eu acho que existe o preconceito social, que é o pior preconceito do Brasil. O Brasil não sofre muito com preconceito religioso e racial, comparado com outros paises, mas o preconceito social é terrível. É preconceito contra o pobre.

Thomaz: No caso da política, o preconceito é contra a mulher, pois acho difícil você cogitar uma mulher para o cargo de presidente do Brasil hoje, você não acha? A Heloísa Helena, que já concorreu para presidente...
A Heloisa Helena não, mas mais da metade dos eleitores do Brasil são mulheres.

Thomaz: São mulheres, mas não sei se dá para vê-las votando em mulheres.
Ah, mas quem imaginava a Luiza Erundina prefeita de São Paulo? Ela é nordestina, uma senhora, não é uma modelo, é do PT, marxista. Prefeita de São Paulo, uma cidade tão conservadora! Acho plenamente possível...

Diego: Falando em conservadorismo, eu estava conversando com um amigo sobre aborto, pesquisas com células-tronco, casamento entre gays, e ele falou: “O Brasil é um país laico com leis católicas”. O que você acha disso, você consegue evidenciar esse resquício de catolicismo na nossa cultura?
Sim, é exatamente o que você falou, resquício de catolicismo na nossa cultura. Quando me perguntam se eu sou religioso, eu digo que não. Agora, você negar a cultura em um país católico é impossível. Os valores católicos estão nas pessoas mais ditas modernas do que você pode imaginar. Depois, é um país unânime entre os países mais católicos do mundo, quer dizer que não tem nem referência em outras religiões. Se a gente parar para pensar pecado, monogamia, todas essas coisas, tem gente que nem questiona muito isso. Quer dizer, acho completamente impregnado na nossa cultura, a meu ver com mais prejuízos do que benefícios.

Isabelle: Os nossos grandes feriados são todos em datas de comemoração de santos...
Tuca: Pois é, no caso da menina Isabella, tem tanto catolicismo nisso, não é?

Diego: Tuca, você estava falando do perigo que é fotografar no Rio de Janeiro e em outras situações em que o repórter fotográfico não tem segurança para trabalhar. Dá para fazer jornalismo em situações como estas, ou tem que cumprir tabela, fingir que está fazendo jornalismo?
Dá pra fazer... No Rio de Janeiro eu sei que dá para fazer. No Iraque eu não sei, é meio que um mundo muito distante. Eu já acho errado chamar o que acontece no Iraque de guerra. Para mim é um ataque, uma invasão, qualquer coisa, tudo menos uma guerra. Se você vai lá para cobrir uma guerra você já está indo errado. Mas no Rio de Janeiro sim, está aí o Cypriano que fez um belíssimo trabalho sobre a favela. Não precisa só mostrar encapuzado com arma, o cara foi lá, ficou um tempo, morou lá. O nosso João Wainer está sempre indo, buscando alguma coisa. Tim Lopes foi não é? Nada justifica aquilo que aconteceu com ele, mas com certeza ele ultrapassou algum limite, talvez ele não soubesse. Você tem que ter essa certeza, saber até aonde você pode ir. O Eduardo Coutinho tem um documentário incrível, chamado “Babilônia 2000” - maravilhoso - sobre o ano-novo de 2000, enquanto estava todo mundo em Copacabana eles foram para a Babilônia, é muito legal. O Moreira Salles fez um filme também sobre os meninos do tráfico.

Flávia: Mas no caso do Tim, que era repórter investigativo, ele estava lá para ninguém reconhecê-lo. João Wainer e André Cypriano fizeram trabalhos indiscutivelmente belíssimos, mas rolou uma autorização. Quando você está subindo o morro para fazer umas fotos, não dá tempo de falar com o líder da comunidade. Você precisa da foto, você precisa entregar para o jornal. Você não tem tempo de seguir todos os padrões: “Primeiro, vou falar com o líder comunitário, depois com o traficante, para ver se a gente pode entrar na favela”. No caso do Tim, talvez ele tenha escolhido a forma errada de expor uma situação.
É uma pena né? Jornalismo investigativo é outra coisa. Difícil o cara saber não é? Puta merda, vou me expor a este risco ou não? Eu acho muito louco o seguinte, você se expor ao risco para contar uma coisa que todo mundo já sabe. E tem que ser contado, tem que ser contado...Aí entra uma outra discussão também, que é aquela de você saber que não muda nada. Eu vou na historia da paixão, só alguma paixão deve mover o cara a fazer isso. Agora a situação do jornal, que você citou, isso não acontece, o jornalismo de imagem, este que a gente está falando não está nos jornais. Foto para amanhã você não vai lá e bate hoje, você tem que negociar isso. Você não vai lá para fazer uma foto, você vai lá para fazer varias. Tem uma tendência hoje do jornalismo, que é a linha dos meninos de Minas, o João Castilho, esse pessoal é muito interessante, que eles contam uma história sem enfiar a grande angular no olho do cara como queria o Robert Capa. Ele conta história com um distanciamento, eu acho interessante.

Diego: Como é ser repórter fotográfico em um país onde só 5% da população ganha mais de 800 reais por mês?
Pois é. Hoje se publica 300 e poucos mil exemplares da Folha, o Estadão 300 mil, O Globo um pouco menos, quer dizer, juntando os três não dá nem um milhão, em um país de cento e tantos milhões, não é? Outro dia encontrei uma menina, ela trabalha em um jornal da Bavária [provícia Alemã]. E o jornal tem uns 400 mil exemplares. Quer dizer, você está fazendo jornalismo para quem? Isto é outra questão, também você vai à favela, se expõe e tal, para as madames de Higienópolis lerem? Pega uma revista bacana, você publica uma matéria, atinge muito pouca gente. E a fotografia ainda não tem esse limite da pessoa ser alfabetizada, essa é uma das belezas da fotografia, você pode mostrar. No filme “Tropa de Elite” por exemplo, tem um julgamento em cima do filme, para quem é feito esse filme, quem ele retrata, qual a situação que ele transforma, sempre visto assim. Isso meio que limita um pouco a atividade do artista, do fotografo, do jornalista, porque ele se sente sempre meio culpado de fazer alguma coisa assim. Ao mesmo tempo é super estimulante você lidar com problema. Outro dia eu vi um comentário sobre o Cristiano Mascaro. Uma amiga italiana foi lá ver a exposição, ela é documentarista, e disse: “Eu acho o trabalho do Cristiano Mascaro alienado”. Quer dizer, o Cristiano Mascaro não tem o direito de fotografar a cidade, mostrando a beleza da cidade. Na minha exposição eu vi isso. Eu estou fazendo uma exposição no Maria Antonia, que mostra o preto-e-branco da cidade, não é jornalismo. E eu ouvi isso. Não é só isso o Brasil, o Brasil é um país lindo.

Denis von Brasche: Você costuma fazer buscas na internet, para procurar reproduções de fotos suas? Ou pelo menos da mais famosa?
Faço. Acho muito legal. Tem umas coisas absurdas. Uma vez a foto “Paraisópolis” foi para a Bienal de Veneza, na Itália e foi parar em um fórum de discussão italiano. E o cara que colocou a imagem lá achou a foto incrível, mas teve gente que achou que era de mentira, uma montagem. Aí se criou uma discussão longa sobre a legitimidade da foto, a ponto de fragmentarem para provar que era de verdade.

Denis: Essa foto já foi descontextualizada?
Difícil descontextualizar essa foto. Tem um contexto social muito forte. Tem muitos blogs que utilizam, mas não falam que é São Paulo, que eu sou o autor, mas acham incrível. Essa foto inspira essa revolta social, essa coisa que deixa as pessoas indignadas.

Denis: Você é muito caseiro? Gosta de ficar em casa, relaxar da correria de fotojornalista? Ou prefere um barzinho, uma balada?
Antes eu estava na rua todo dia. Agora eu tenho mais trabalho em casa, fotografo menos, mas com mais cuidado, tem mais trabalho burocrático, tipo responder e-mail, tratar imagens, cobrar pessoas. Eu optei por morar no Centro de São Paulo, na Praça Roosevelt. Não tenho carro. É uma opção minha como cidadão e como fotógrafo. Acho que o carro é um monstro que está destruindo a cidade. Então circulo muito por ali à noite, a pé. Não sou de dormir cedo, nem de acordar cedo. Por isso essa exposição [Fotografia de Rua], tem fotos muito noturnas, pois é a hora que eu estou na rua mesmo. Acho que fotógrafo que não se expõe, vai fotografar o quê? Também é uma desculpa para tomar uma cerveja [risos]. Tem uma história, publicada na Piauí, que é muito reveladora sobre essa minha relação com a cidade. Estava andando de madrugada, fotografava sempre nessa época. Encontrei um sujeito, no viaduto da Doutor Arnaldo [avenida de São Paulo], que ameaçou se jogar. Tivemos uma conversa muito estranha. Depois de um tempo ele pulou na minha frente e eu fiz uma foto dele morto, caído. O Éder Chiodetto [fotógrafo e crítico] falou que histórias como esta só acontecem com quem se expõe. Não acontece com quem está em um carro blindado. Mas ao mesmo tempo, não acontece um monte de coisa legal que acontece na minha vida, saindo à noite... Eu sou da rua.

Denis: Você anda sempre com a câmera?
Depois dessa história eu não andei mais. Não porque não quero me deparar mais com situações como essas. Porque eu parei para pensar um pouco. Eu fiz uma exposição que é resultado do ato de andar o tempo todo com uma câmera. Quero recuperar esse hábito, acho muito legal. Você fica meio obcecado, sai na rua e tem outro olhar sobre as coisas. Tem fases que eu ando o tempo todo com a câmera.

Denis: E o pessoal do Rolê [coletivo fotográfico], que sai para tomar uma cervejinha, depois sai para fotografar o local...?
Eu acho genial. Maravilhoso. É uma adaptabilidade incrível. Tem uma sociabilidade, de sair com um monte de gente na rua, que dá uma segurança, que pega esse aspecto da cidade e reverte isso a seu favor. Acho muito legal. Tem lugares que eu não tenho coragem de ir sozinho. O Cássio Vasconcelos [fotógrafo] deu uma palestra, sobre o “Noturnos da Cidade” e falou quando ele ia para alguns locais, levava dois seguranças com ele. Os fotógrafos mais velhos acharam um absurdo, que assim ficava mais fácil, e ele respondeu com um: “Você vai sozinho”? Eu acho bem desagradável sair com dois seguranças, mas tem alguns lugares que são complicados.

Denis: Tem um trabalho bem legal, chamado “Vagabundo”. Para você, o que é ser vagabundo?
O Éder comentou que eu tinha um “olhar vagabundo” e eu assumi isso. Vagabundo tem vários significados. Essas fotos são o anti-projeto. São fotos de viagem, um gênero super importante confundido com foto de turista. Vagabundo vem dessa liberdade. É um laboratório, um exercício, um caderno de anotação desses lugares. É um olhar despretensioso, que não questiona muito. Que é o contrário do fotojornalismo. Aí entra a idéia da beleza, que é algo que precisa ser desmistificado. O homem precisa de beleza para sobreviver. O contrário da guerra não é a paz, é a beleza. A guerra é a coisa mais cruel e horrível que o homem faz. Uma coisa bela simplesmente agrada, faz o seu dia melhor. Acho que o Vagabundo é um pouco disso.

Isabelle: Você costuma escrever?
Eu não tenho o hábito, mas gosto. Escrevi algumas reportagens. Tenho afinidade, me formei em letras. Na verdade, a escrita é um hábito, assim como a fotografia se tornou um hábito para mim. Eu fui estudar letras para ser um bom fotógrafo. Queria estudar a comunicação, a linguagem. Não consigo imaginar algo que tenha mais imagens que um poema. Um poeta é um grande criador de imagens. Todo grande fotógrafo é alguma outra coisa. O Salgado é economista, o Cartier-Bresson era da pintura. Uma fotografia é um instrumento pelo qual você vai expressar alguma outra coisa. A técnica da fotografia é muito fácil, não precisa estudar anos disso. Eu fui buscar nas letras um aprendizado, pois tinha consciência, desde muito jovem, que aquilo ia me ajudar como fotógrafo.

Diego: Nas suas fotos de rua percebi uma certa influência das Histórias em Quadrinhos, alguns enquadramentos são bem típicos da HQ's. Existe alguma relação entre seu trabalho e os quadrinhos?
Muita. Eu tenho uma coleção enorme de quadrinhos. É uma influência muito grande. Desde as Graphic Novels até os de humor. O quadrinho é uma das realizações mais perfeitas entre palavra e imagem. Os personagens do Angeli, dos anos 80, aquelas imagens de São Paulo… Aquilo é uma das imagens mais recorrentes na minha cabeça.

Flávia - Agora, para finalizar, gostaríamos que você respondesse algumas perguntas com a primeira coisa que vier a sua cabeça

Garganta Seca - Sede.

Arrepio - Emoção.

Borboletas no estômago - Disenteria.

Mão gelada - Paixão.

Tesão - Mulher.


DESAFIO: Desta vez a redação FS Online pediu para o Tuca Vieira fazer o upload de uma imagem no seu Flickr [http://www.flickr.com/photos/tucavieira/] que represente a sua inquietação atual, propondo aos leitores que contribuam com a discussão mandando suas opiniões para fotosite@fotosite.com.br. Participe e concorra a uma edição da FS – Revista da Imagem.

Para saber como estava o clima desse bate-papo, clique AQUI
Ou confira o site do Tuca e escute toda a entrevista!

Da Redação

 
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