15/04/08 HÉLIO CAMPOS MELLO NA REDAÇÃO
Política, infância e guerra foram alguns dos temas discutidos pelo mestre do fotojornalismo
Após receber o mestre Thomaz Farkas, a segunda edição do projeto “Na Redação” assumiu um novo desafio ao receber, na última sexta-feira, um outro grande nome da fotografia nacional. Desta vez, Hélio Campos Mello, diretor de redação da revista “Brasileiros” e um dos mais respeitados fotojornalistas do país, aceitou nosso convite para um bate-papo descontraído, durante um café-da-manhã, na redação FS Online. Sobressaindo-se aos engarrafamentos típicos de São Paulo, com a habilidade de quem já se aventurou pelas pistas de automobilismo, Campos Mello chegou ainda abalado pela derrota do São Paulo para o Aldax no dia anterior, mas logo se animou ao contar alguns grandes fatos que construíram sua vida e carreira. Apoiado em experiência e bom humor, o fotógrafo encarou os repórteres Daniel Andreazzi, Denis von Brasche e Thomaz Gomes, além da redatora-chefe Flávia Lelis. Na linhas a seguir, esteja pronto para saber histórias de guerra, corridas de carro, política, viagens à praia, família, medos e, até mesmo, a fotografia de Hélio de Campos Mello.
[Flávia] Como foi uma infância?
Sou filho de uma família quatrocentona, que é o Campos Mello. Meu avô era um típico imigrante italiano, que veio pobre no navio e ficou rico, só que fez 15 filhos que acabaram com toda riqueza, e não sobrou nada, a ponto da minha mãe, aos 60 anos, fazer Direito para brigar com os irmãos, pelo que ela achava que ainda existia para ser brigado. Então, era uma classe média alta, em termos de cultura, mas sem grana. Fui criado em colégios legais, a custo de muito sacrifício dos meus pais. E não devolvi isso porque eu era um péssimo aluno. Estudei em colégios que, na época, eram muito bons, como Nossa Senhora de Lourdes, depois Rio Branco, São Luís, daí eu fui degradando, não em termos de qualidade, mas de fama de colégio, Paes Leme era onde o cara não dava certo, então vai para o Paes Leme! [risos] Acabei fazendo vários cursos e o curso clássico, que era Letras, um cursinho na GV [Fundação Getúlio Vargas] que era moda, para ser administrador de empresas, só que não tinha nenhuma empresa para administrar, quem geralmente fazia o curso eram filhos de famílias ricas. Aí entrei no Mackenzie, fiz um ano de Economia, e depois fui embora para a Europa para correr de automóvel, coisa que eu nunca consegui fazer. Gostava muito de corrida de automóvel, ao invés de futebol, era o tempo de Emerson Fittipaldi, as corridas eram mais românticas, tinham menos eletrônicos, eram mais interessantes, trabalhei como instrutor de uma escola de pilotagem. Eu guiava razoavelmente bem, mas não tinha o que faltava para um piloto: foco e grana. Fui para Londres, para correr, mas assisti duas corridas, casei, fui para Itália e fiz um curso de fotografia.
[Flávia] Li que após o curso de fotografia você se viu em dúvida entre a Fotografia de Moda e a de Guerra.
Isto foi nos anos 70, você tinha a guerra do Vietnã e o filme “Blow Up”, do Antonioni, que basicamente era história de um fotógrafo de moda, e tinha todo aquele fetiche do fotógrafo de moda, ou seja, um monte de mulher bonita, um estúdio lindo, um carro legal. E outro fetiche também era guerra, uma coisa mais heróica. Mas tudo fetiche, voltando um pouco, tudo meio “psicanalizado”, as duas coisas muito pouco conscientemente focadas. Foi indo meio que pouco planejado. Acabou dando certo, porque as coisas acabam dando certo. Fiz o curso de fotografia, em Florença, e o legal era que nós visitávamos muitos museus. Lá tive minha primeira experiência fotojornalística, bem e mal sucedida. Não tinha nenhuma ligação com nada de jornalismo no Brasil, e na época era o começo de uma revista chamada Placar. E também tinha um grande jogador brasileiro chamado Amarildo que jogava no Roma, e eu estava naquela coisa de querer ajeitar a minha vida para voltar para o Brasil. Resolvi ir e fazer uma matéria com o Amarildo para a Placar. Consegui entrar no estádio e me colocaram atrás do gol. Isso foi a parte bem sucedida. A mal sucedida é que eu tinha uma Pentax com uma grande angular, uma normal, e uma tele de 200, super escura. O problema é que choveu pra cacete, a luz caiu barbaridade e eu não tinha a menor idéia do que eu podia fazer com um filme de 400 asas e eu meti as fotos! O foco inexistiu! [risos]
[Thomaz] Que idade você tinha naquela época?
Foi em 71, eu nasci em 48, eu tinha 23 anos.
[Daniel] Você já tinha conversado com o Amarildo ou foi com a cara e coragem?
Não cara e coragem, fui direto, fui que fui! Deu certo, por isso que falo que essa foi a parte boa. Lembro que me colocaram atrás gol, falaram “fica aqui”. [ironicamente] “Esse fotógrafo vai fazer um monte de merda, fica aqui” [risos]. Agora a Magali Giglio está organizando meu arquivo e estão aparecendo essas histórias, um monte de coisa engraçada.
[Daniel] Você teve outra experiência com futebol?
Teve uma ruim. Puta só tô falando cagada. Essa é terrível, nunca contei para ninguém. Em 1977, foi um ano importante para o Brasil, foi quando a ditadura começou a cair, quando o Geisel [general Ernesto Geisel] demitiu o Frota [general Silvio Frota], quer era linha dura. Só que pouca gente lembra disso, as pessoas lembram muito que o Corinthians saiu de uma fila de vinte e poucos anos sem títulos ganhando da Ponte Preta. Eu fui cobrir esse jogo e na hora em que o Basílio fez o gol, eu estava trocando de lente [risos]. Então, eu não tenho a foto [risos]!! Daqui a pouco a gente tem que contar alguma coisa legal que eu fiz [risos]!!
[Flávia] Hélio você passou por uma grande parte da história do fotojornalismo. Qual a sua avaliação considerando que você viveu fases completamente diferentes?
Minha avaliação é meio mal humorada. Como eu gosto de corrida, vou fazer um paralelo. Aliás, não gosto mais de corridas. Corrida era muito legal porque era um desafio individual, o cara o tempo todo tinha que se concentrar para melhorar, porque os equipamentos eram precários. Hoje, os equipamentos são de uma auto-suficiência irritante, tem pouco da arte de pilotar. A fotografia também é um pouco disso, com relação a transição do analógico e digital, um pouco obviamente, não quero amargo demais, nem cretino. Mas de qualquer maneira hoje todo mundo fotografa, os equipamentos estão mais amigáveis. O equipamento está em função de inteligência, de olhar, então acho que o indivíduo se massificou, e acho que o indivíduo tem se especializar mais, ler, ver, pesquisar e pensar cada vez mais. Eu tenho um projeto meio saudosista que é comprar uma câmera grande para fazer retratos com uma chapa só, tentando recuperar a postura, a solenidade de fotografar, de fazer um retrato que se perdeu. É mais algo lúdico, do que amargo. Hoje, fazemos muitas fotos, isso é bom, mas perde um pouco da solenidade. Outro dia o Marcio Scavone me chamou para fazer um retrato no estúdio dele [para edição da Revista FS] e tem solenidade, que vai te deixando mais propício para ser fotografado.
[Flávia] Há um tempo atrás, o Éder Chiodetto escreveu um artigo falando sobre as condições do fotojornalismo, e ele foi massacrado.
Eu fui personagem daquilo, mas não entrei naquela briga. Junto com o Flávio Cannalonga e com o Egberto Nogueira, eu escolhi as fotos daquela exposição [mostra “Fotojornalismo 2006 - Fatos e Histórias do Cotidiano”]. Então, tem hora que você briga e tem hora que você não briga. Tinham fotos legais? Tinham muitas fotos legais lá. E o Éder resolveu pegar o resultado daquilo tudo e fazer um manifesto contra algo que nem me lembro direito, a mistura da publicidade com o fotojornalismo. Mas eu não concordo muito com aquilo. Mas veja, por exemplo, não gosto de falar de ex-mulher e ex-emprego, mas aconteceu uma bobagem na Isto É, quando eles publicaram numa matéria sobre os Sem-terra, uma foto feita pela Folha de S. Paulo, não me lembro o nome do fotógrafo, onde em primeiro plano tinha uma placa pichada, “Fora Serra”, e ao fundo manifestação do movimento. Só que eles tiraram a frase “Fora Serra”, no photoshop. Eu não acho que é uma grande sacanagem, acho que é uma bobagem, mas se você não quer bater no Serra liga para o cara que vendeu a foto e diga que você precisa de outra. Eu não sou contra mexer em foto, de novo afirmo que as ferramentas novas estão aí para usarmos com sabedoria e bom senso. O photoshop está aí para ajudar, não é uma ferramenta execrável. Não é a ferramenta, é a cabeça do cara.
[Flávia] O que compreendi do texto do Eder é que ele fazia uma crítica a criatividade fotojornalística, no entanto, a correria, o número de pautas e a falta de espaço desestimulam, impossibilitam que seja diferente.
Você paga um preço pelo excesso de competitividade. Você vê nessas coberturas agudas, como o da menina que foi arremessada, [referindo-se à morte de Isabella Oliveira Nardoni] ou o da Escola Base, porque os erros são cometidos? Pelo excesso de competitividade. Os repórteres têm que ser rápidos, se não eles são furados. Eu sempre falei, quando estava na Isto É, “você pode fazer um tiro, mas o furo não tem grande prioridade”. As estruturas facilitam as bobagens, ou seja, o excesso de competitividade, elimina os mecanismos de segurança. Mas em relação à qualidade do fotojornalismo, lá na exposição tinham fotos muito boas, ótimas. Mas o Eder também acusava do uso de artifício de publicidade para fotojornalismo, mas acho meio questionável, acho que a foto tem que ser eficiente e leal. Se você coloca algo em primeiro plano reforça uma foto. Você pode usar todos os artifícios dentro do limite do bom senso.
[Flávia] Considerando o que você já viu em exposições e em leituras de portfólio pelo Brasil, o que você já está cansado de ver?
É difícil falar sobre isso, porque com toda a experiência que eu tenho, para mim é muito mais fácil montar um portfólio, porque eu sei como funciona esse lado do balcão de olhar portfólio. Você olhar o potencial de uma pessoa por uma amostra de trabalho, é subjetivo. Vejo de uma maneira um pouco mais flexível. Tem coisa que eu gosto ou não gosto. Às vezes, tem um outro caminho que pode ser seguido, às vezes não, porque não tem como pensar. A fotografia é um retrato do seu pensamento, ela tem que mostrar um pouco do pensamento e da personalidade da pessoa. A técnica não é fundamental, se um bom pensamento está retratado de maneira eficiente. E claro tem que saber para onde você está levando o seu material, entender a revista, ou o jornal.
[Flávia] Você consegue distinguir a fotografia brasileira?
Nosso país é diferente, tem suas características. Você pega as fotos do Sebastião Salgado daqui e da África e são completamente diferentes. O país é diferente e te ajuda a ter um olhar diferente, você tem essa coisa brasileira que é legal. As fotos de esporte dos fotógrafos brasileiros são muito boas.
[Flávia] Você citaria o nome de alguém?
Ah... não vou falar em nomes se não vai causar ciumeira. Na verdade, o Manuel Marques que fez essa capa [sobre a oitava edição da revista Brasileiros], tem uma molecada boa, tem uns velhos bons, tem uns Pedro Martinelli da vida, uns Cristianos Mascaro....[risos]
[Flávia] Você falou em ciumeira. Você acha que tem muita vaidade na fotografia?
Toda corporação tem ego inflado, fotógrafo tem, repórter, publicitário, todo mundo tem.
[Flávia] Nós publicamos uma notícia na FS Online que está causando muita polêmica, sobre uma fotógrafa que fez imagens do filho da Luciana Gimenez com o Mick Jagger na escola – ele estava com cinco anos na época - e publicou na revista Caras. A Luciana processou e a fotógrafa teve que indeniza-la em R$ 10,5 mil. Você concorda que os fotógrafos estão ultrapassando os limites para conseguir as fotos?
Eu concordo. Para quê? O que vai acrescentar? Eu lembro de uma pauta que foi feita a partir de uma informação que os repórteres trouxeram, de que o filho do Pitta (Celso Pitta, ex-prefeito de São Paulo) fumava maconha. So what? Porquê tem quer dar isso? Ele foi preso? Uma das coisas que mais gostei na Isto É foi uma matéria que pedi pra fazer sobre o João Carlos Martins, que era um pianista reconhecido como o maior interprete de Bach no mundo. Aí ele fez uma bobagem durante uma campanha do Maluf, notório canalha. Eu descobri que ele tinha uma história terrível, que além dessa bobagem com o Maluf, ele estava jogando futebol no Central Park, caiu em cima de uma pedra e danificou um tendão. Daí a mão direita parou de tocar, ficou só com a mão esquerda. Ele foi fazer um concerto não sei onde, agrediram o cara e a mão esquerda parou de funcionar. Aí foram fazer a matéria, queriam focar que ele era malufista. Eu falei “Tudo bem, ele é malufista, mas além de tudo ele é isso, isso e isso”. Então a imprensa tem essa história de linchar a priori, crucificar, ou seja, põe rótulo, um chapéu de palhaço, pendura um negócio no peito e põe o cara na rua pra ser linchado. Tive prazer de tentar modestamente, com uma revista como a Isto É, recolocar o cara em uma situação melhor. A gente tem esse negócio, porque a gente é imprensa, pode tudo. A gente pode invadir a casa dos outros e fotografar uma criança, pode meter a máquina na janela e ficar olhando. Não é uma coisa que eu gosto de fazer. Já me senti paparazzi uma vez e não gostei, tomei guarda-chuvada de porteiro de boate, mas é pessoal. Eu só acho que os valores deveriam ser um pouco mais equilibrados. Aquela coisa de “tudo pode pra se conseguir uma foto” – não é bem isso. A fotografia não é uma ideologia, é um trabalho, assim como jornalismo é um trabalho. O Cláudio Abramo que tem a grande frase: “É um trabalho de carpinteiro, tem que fazer as coisas direito, nada além disso”.
[Flávia] Quando eu conversei com o Thomas Farkas, disse que gostaria de ter vivido cada grande fato da história. Você fotografou guerras. Como era cenário, esse ambiente, é como a gente vê na mídia mesmo, nos filmes? É hostil, com tiros, bombas?
Passei por essa coisa de tiros e bombas, mas não tinha câmera, pois estava preso, só podia fazer legendas de fotos que não existiam [risos]. Foi quando fomos presos no sul do Iraque e fomos levados num comboio para Bagdá. E esse comboio foi emboscado, daí teve tiro e bomba, a gente no chão, os caras atirando na gente. O resto era uma outra guerra, era a guerra pra você chegar perto da guerra. E nessa história do Iraque, eu e o William Waack, com toda essa dificuldade para chegar na guerra – fomos para Jordânia, ficamos um tempo sem poder sair, sem visto, sem nada, depois fomos para o Egito tentar visto, depois para Arábia Saudita, onde ficamos assistindo coletivas de imprensa sobre a guerra, ou seja, contavam para gente sobre a guerra. Até que a gente alugou um carro e subiu, foi pra guerra. Chegamos no lugar que tinha guerra, que tinham mortos, tinha tudo. Fomos para o Kuwait e chegamos um ou dois dias depois da liberação do país, com toda morte, carro destruído, bomba, todas aquelas coisas que eu nunca tinha visto, estavam ali. Têm coisas que eu lembro até hoje, como o cheiro do petróleo queimando nos poços, de carne humana, várias coisas que eu lembro bem. E essa semana que passamos presos, achando que a gente ia morrer mesmo. Você não sabe o que vai acontecer, se desliga completamente de tudo. Está preso em meio a um caos, nem os caras sabem o que estão fazendo.
[Flávia] Você voltaria a cobrir guerra?
Não, hoje não. Estou com uma neta... Eu estou fazendo uma revista, botar a revista na banca já é uma guerra.
[Flávia] Você é um dos poucos fotógrafos que chegou a cargos dentro de uma redação que são tipicamente de jornalistas. Como isso aconteceu?
Foi indo naturalmente, mas com muita dor. Porque eu trabalhava com um cara muito chato, que era o Mino Carta, um chato de galocha. Eu era tudo lá, editor de fotografia, fotógrafo, laboratorista. E o editar fotografia era sentar e paginar as matérias. Aí eu tinha as fotos, mas não sabia de que matéria que era, não tinha lido os textos. Tomava um esporro atrás do outro e fui ficando massacrado, até que tomei uma decisão estratégica, tática, inteligente, no meio daquela guerra, que foi conseguir uma cópia das matérias que chegavam via telex.
Fiquei amigo do cara do telex que me dava várias cópias. Então eu lia as matérias e na hora de paginar eu sabia do que se tratava, dava para saber o que você estava fazendo. A partir daí eu comecei a ler a revista toda, lia tudo. Comecei a traduzir o The Economist e fechava. Outra coisa que me honra muito é que eu fechava também a coluna do Cláudio Abramo. E aí foi indo. Foi um pouco essa coisa de você como fotógrafo não ficar circunscrito pela estrutura do jornalismo, que te deixa ali a reboque. E pelo fato de você não conhecer só a sua engrenagem, você começa a entender o motor, e a interferir no motor. Fui convidado para ser jurado do Miss Brasil 2008, aí perguntaram: “Qual é o seu cargo?”, eu fiquei pensando “Eu sou dono, sou diretor, sou fotógrafo... Pode botar o que você quiser!” [risos].
[Flávia] Pra encerrar a minha parte, numa coluna da FS, o Juan Esteves escreveu que você “é paraninfo de uma geração de fotógrafos”. Como você reage a uma afirmação dessas e do que você mais se orgulha na sua carreira?
De ele ter escrito isso [risos]. É legal, isso é ótimo, é bom para o ego. A gente faz muita bobagem, erra muito. Quando eu li esse texto fiquei super contente. Eu acho que eu trabalhei em um momento que, apesar de mais difícil, era mais fácil. Porque a gente tinha algo concreto, que era uma ditadura, uma censura, as coisas eram mais objetivas, mais lineares. Apesar de você apanhar, você sabia o que tinha que fazer. Então era adrenalina e cheiro de gás lacrimogêneo. Aquilo te dava força pra você fazer tudo, ficar dias sem dormir. No começo, brincavam que a fotografia da Isto É parecia o banheiro de um avião DC3, que era minúsculo. Eu usava o fotolito, que não existe mais, depois que o pessoal do fotolito saía, às três da manhã, para revelar as fotos que eu tinha feito. Então essas coisas são legais, essa coisa meio heróica.Hoje eu diria que é mais difícil porque você tem um governo democrático, que faz as suas cagadas, mas que também faz coisas boas.
[Denis] Você se interessa por política, obviamente, mas até que ponto você se envolve?
Eu sou a favor desse governo, né? Mas com ressalvas, como seria a favor de governos parecidos, como eu seria a favor de um governo do PSDB, com ressalvas também. Em política eu tenho uma bandeira que uso, que agito. Sou a favor da fusão dos dois partidos, do PT com o PSDB. É uma coisa utópica, eu sei, mas eu já falei para próceres tanto de um como de outro. Eu já falei com o Lula e já falei com o Fernando Henrique e a história vai cobrá-los por não terem juntado os dois partidos, para poderem evitar essas alianças escuras que eles têm que fazer pra governar o país. Se tivesse uma fusão disso, se eles conseguissem lidar com seus egos e com os seus perdes-e-ganhas, o país ia ganhar. Então politicamente, eu tenho uma ligação com o Lula que é uma ligação que eu não sou amigo dele, mas eu tenho uma ligação porque eu cobri São Bernardo em 1977 a 1980. O que as pessoas o acusam hoje é que ele fez uma correção de rumo para o centro e que é inevitável. Qualquer governo na história do mundo quando a esquerda chega ao governo ele vai para o centro para poder governar com um pouco mais de tranqüilidade. Mas se você pegar os números do governo Lula são números muito mais favoráveis que desfavoráveis. Esses 56, 57, 58% que ele tem de aprovação não é por nada, é só viajar o Brasil que você percebe. Tem uns casos que são emblemáticos. Eu tenho um amigo que é muito rico que tem um moinho de trigo, que estava dando prejuízo e falavam para ele “vende esse negócio aí”. E outro dia eu fui lá e o lucro dele subiu 5, 10, 25% e eu perguntei “o que ta acontecendo?” e ele: “pô, o povo está comendo pão”. E isso é verdade, a base está comendo mais, e isso incomoda a elite. A gente fala essas coisas e parece que a gente é um chato, mas tem um setor da sociedade que acha que não é por aí. Mas é por aí. Quanto mais acesso ao consumo, ao bem-estar o povo tem, mais a roda se mexe. Você tem que pensar em sustentabilidade. Eu fiz um editorial sobre sustentabilidade, que não adianta você alimentar o povo, se você não cuida da Amazônia. Porque se você mexe lá pára de chover aqui embaixo. Então tem um monte de coisas que são em cadeia. Politicamente eu defendo o que aconteceu na Espanha, que é, para tocar o país de uma maneira mais eficiente, fazer uma aliança entre os dois partidos mais leais.
[Denis] Você acredita no Brasil?
Eu acredito, sim muito, mas tem que lutar, tem que defender as coisas. E são pequenas coisas, ou seja, desde as bobagens de você ser mais educado no trânsito, ser mais solidário com a pessoa que está do seu lado.
[Denis] E como que isso reflete na revista Brasileiros?
Por uma questão estratégica editorial ela não pode ser nem chapa branca nem chapa preta. Chapa branca perde a credibilidade, chapa preta é uma coisa que eu não agüento mais que é o linchamento, que é o apocalipse a qualquer custo e a qualquer preço. Eu tenho um companheiro lá, que é o Ricardo Kotscho, um grande amigo meu há 200 anos. Ele tem uma ligação com o presidente da república, né? Então tem que compensar. Eu falo “Kotscho, vamos fazer o Kassab, que ninguém sabe quem é, que era um cara que estava lá na sombra do Serra, vamos ver qual é a desse cara”. Até porque a revista tem que ser plural. Tem que defender coisas que são defensáveis e tem que colocar dedo na ferida. Mas a revista basicamente acredita no Brasil, ela quer olhar o Brasil com olhos um pouco menos preconceituosos, como normalmente a imprensa olha. A gente tem vergonha de falar bem, a gente não pode falar bem. Aí se volta àquelas piadas de jornalismo, como nos Estados Unidos que falam “good news is no news”, boa notícia não vende. O que a gente não pode é só olhar o que é ruim. Agora, é arriscado fazer uma revista assim, que pode cair para babaquice, falar que está tudo bem e não é isso. Ou seja, essa revista é uma pilotagem complexa.
[Denis] E como foi a escolha desse nome?
Quando eu saí da Isto É, estava eu e a Patrícia minha mulher na praia, na Bahia, e aí tocou aquela música “a gente faz um país”, da Marina Lima (Fullgás). A gente faz um país, mas a gente tem que ajudar a fazer: Brasileiros! Parece pretensioso, mas é uma marca, brasileiro é a marca do Brasil, eu acho o Brasil uma puta marca. Tem gente que tem vergonha do Brasil, mas como nós vamos ter vergonha do Brasil? Tudo bem, eu posso achar que é uma merda, que o trânsito é um merda, que as pessoas são mal-educadas, que os políticos são corruptos, mas o país é bom e pode melhorar. Não quero ter uma visão absolutamente de psicopata em relação ao país, nem para um lado nem para o outro, nem ser cretino de achar “ah, que maravilha”. Não é isso. Ou “que merda”.
[Denis] E esses problemas que você citou do país, qual o que mais te envergonha?
Falta de educação. Eu digo falta de educação não é em termos elitistas, falta de educação em termos de relações humanas. Ou seja, você tratar mal o cara que ta do seu lado, pessoas de classes diferentes, o garçom, isso me deixa enfurecido. Falta de educação no trânsito por exemplo, não fazer gentileza. E essa malandragem, que ou a gente destrói, ou a gente endeusa. Um exemplo, pega o Felipe Massa: “ah, finalmente um cara que vai substituir o Rubinho, aquela besta”. Não é por aí, a gente é muito imediatista.
[Thomaz] Sobre essa história que hoje em dia todo mundo fotografa. E hoje em dia você vai num show, e ao invés de ver as pessoas com isqueiro na mão, as pessoas estão com celular tirando foto. Queria saber se você acha isso uma coisa legal ou se acabou se perdendo a privacidade, que tudo está sendo registrado, a todo momento, e que perdeu aquela magia, aquele momento de solenidade que você falou?
A solenidade que eu falo é do retrato individual. Agora isso aí, eu, como sou velho, eu fui no show do The Police, em 1980, no Madison Square Garden, quando inventaram uns bastonetes de néon e a aquilo era maravilhoso. E eu também já fui levar meu filho no show do Black Eyed Peas, todo mundo com os tais celulares, que é uma solenidade, é uma celebração. Além do que nesse show, o Will.i.am fez um negócio do caralho, que foi um seguinte: tinha um cara que tava atrás de mim com uma maquininha filmando, aí eu vi o Will.I.Am chamar o segurança que levou a máquina até o cantor. Daí o Will.i.am filmou o povo todo devolveu e cochichou: “upload it on YouTube”. Que é um negócio do caralho, o que é o mundo hoje? Isso é uma coisa que não pode deixar de fora, essas celebrações. É evidente que tem certas coisas que poderiam continuar fazendo com uma certa solenidade, à moda antiga, né? Mas existe essa solenidade à moda moderna.
[Thomaz] E esses trabalhos, que na verdade são uma viagem pessoal, a lazer, e que acabam virando uma exposição? Você prefere alguma coisa que parte de um projeto ou alguma coisa que parte de uma coisa despretensiosa também pode ser boa?
Acho que se o resultado é bom não interessa. Ou é horrível, se é muito pessoal, aí depende. Se você diz “olha, é o seguinte, eu vou fazer uma viagem, pegar minha mulher e meu filho, pegar um jipe e dar uma volta ao mundo, quero desovar isso num livro, numa exposição, num blog, num site”. Então você já vai montar uma workstation ali à bordo.
[Thomaz] Você já fez algo nesse sentido?
Não, nunca fiz. Mas eu acho que é legal. É evidente que como em qualquer tipo de trabalho, você tem que ter cabeça legal para pilotar essas coisas. O resultado tem que ser bom.
[Thomaz] E nos seus momentos de folga, o que você faz ara se divertir, pra relaxar?
Bom, com essa revista, faz tempo que eu não relaxo. [risos] Eu tenho uma casa em Ubatuba, que faz tempo que eu não vou que fica numa ponta, do lado de um farol, fica no meio do mato, é um refúgio, mas faz tempo que eu não vou lá. Com essa revista eu costumo dizer que durmo bem do dia 1º ao dia 15, depois começo a dormir mal para ver se as contas vão fechar.
[Daniel] No início de nossa conversa, você comentou que gostaria de pilotar. Você chegou a disputar alguma corrida?
Aqui no Brasil, disputei várias corridas. Era uma espécie de stock car da época. Eu trabalhava em uma escola de pilotagem que tinha um fusca. Era sócio do Marcos Brandão, filho do Oswaldo Brandão, um grande técnico de futebol. Ele tinha um Puma e eu era sócio desse carro de uma maneira meio estranha: tinha dois carburadores e quatro pneus. Corri algumas corridas longas com esse automóvel, mas nunca passei do décimo lugar. Comprei um Porsche, em 1973, todo podre, detonado. Fiquei dois anos comprando peças e restaurando o carro inteiro, com um bom mecânico. Agora eu estou fazendo isso com um Fiat 500, que é um carrinho pequeno, de 1957.
[Daniel] E voltando ao assunto de futebol…
Eu jogo futebol no meu sítio. Eu tenho uma filha de 34 anos, a Patrícia que é correspondente do Estadão em Washington. Tenho duas enteadas, que também são filhas minhas, praticamente: a Florença, de 34, antropóloga, que mora em Londres, me deu uma neta. Também tem a Ana, de 30, que é Arquiteta. Aí chegou o meu filho mais novo, o Filipe, que tem 14 anos. Quando o Filipe nasceu, eu era um “vagabundaço”, no que diz respeito ao meu corpo. Então comecei a fazer esportes, ginástica, karatê. Comecei a me cuidar um pouco para encarar um moleque dessa idade. Hoje eu também jogo tênis, esporte que sempre gostei de assistir.
[Daniel] O que você acha de estrangeiros, que vêm para o Brasil apenas pelo samba e o futebol?
Isso é muito imediatista, mas nós também não cuidamos muito bem das nossas coisas. Nossos museus poderiam ser muito melhores. Temos uma produção muito boa de artes e fotografia, mas isso não é muito exposto. Você vai ao Paris e visita o Louvre. Chega em Londres e vai ao British Museum. Temos muita arte, mas ainda não conseguimos vender isso. Então o cara vem aqui e termina indo só para a praia.
[Daniel] E o que te faz rir? E chorar?
Eu dou umas choradas no cinema. O São Paulo está me fazendo chorar [risos]. Ontem me fez chorar muito (referindo-se a derrota do São Paulo para o Audax na Libertadores da América). Mas já me fez rir muito também.
[Daniel] Você cansa de falar sobre fotografia?
Na verdade eu não falo muito de fotografia e jornalismo. Eu tenho “simancol”. Hoje você joga as imagens no computador e faz uma apresentação de slides. Na minha época era aquela coisa de “vamos ver uns slides”, e aí você colocava 80 slides no projetor e ficava lá vendo tudo. Sempre tive um simancol para não encher nem meu saco nem das pessoas. [risos]
[Daniel] Em que tipo de discussão você não entra?
Religião. Política eu entro com cuidado, pois eu respeito o ponto de vista das pessoas. Posso até tentar acrescentar algo, mas não tenho a pretensão de fazer as pessoas pensarem do meu modo. Detesto falar o que eu sou, mas eu sou muito respeitoso. Já fiz muita cagada. Já tive que demitir pessoas. Já tive que fazer coisas que não são muito legais, mas na medida do possível eu tento respeitar as pessoas.
[Thomaz] Quando você falou que nós não sabemos vender o que temos de bom, me lembra de uma tendência recorrente na produção artística brasileira, de sempre recorrer a temas negativos, como a miséria no Nordeste, o tráfico no Rio. Você acha que é possível falar das coisas positivas também, saindo desse estereótipo que se formou?
É isso que a “Brasileiros” quer fazer. Queremos falar do narcotráfico, mas não só dele, buscando de uma maneira eficiente as boas notícias. As pessoas desconfiam de boas notícias. Elas acham que elas são pagas ou que existe algum interesse por trás delas. Eu ainda não tenho a fórmula para fazer isso, mas acho que vou encontrar. Isso junta um visual bem feito, sacadas de títulos, conjunto de matérias. Eu acho que as pessoas se interessam em algo além da tragédia. É por isso que eu faço tudo que estou fazendo. Mas volto a falar que para passar uma boa notícia, você tem que ser eficiente. E o que é ser eficiente? É não ser piegas, é não ser otário, não ser chapa branca.
[Flávia] Agora para finalizar, gostaríamos que você respondesse algumas perguntas com a primeira coisa que vier a sua cabeça. Pode ser?
Quer que eu deite no sofá ali para responder? [risos]
Sonho de consumo Não tenho mais. Já tive um monte. Na verdade meu sonho é esse Fiat que estou fazendo, com teto solar, dois cilndros, 25 cavalos. O que custa é achar as peças.
Medo De deixar meu filho. Quando você tem um filho pequeno, você tem medo de morrer e deixar seu filho sem pai… Vou ter que deitar no divã daqui a pouco. [risos]
Um fato? A ridícula derrota do São Paulo para o Audax ontem.
Fotografar ou escrever? As duas coisas. Se bem que eu gosto um pouco mais de fotografar. Escrever é como música, tem a coisa do ritmo, fazer e refazer até chegar a algo que você acha legal. Fotografar é algo mais social. Você tem que conhecer pessoas, lugares, se colocar de maneira eficiente, para não estragar eventos e cenas. Aí também tem aquele aspecto lúdico, de enquadrar aquele momento, esperar as coisas acontecerem, se antecipar, olhar por aquele visor...
Que pergunta você gostaria que lhe fizessem? Não tem nenhuma. Acho que já me fizeram todas.
Por Flávia Lelis, Daniel Andreazzi, Denis von Brasche e Thomaz Gomes
Ouça esta entrevista com Hélio Campos Mello agora. Basta clicar AQUI.
|