18/03/08 THOMAZ FARKAS NA REDAÇÃO
Fotógrafo aprova capa da nova FS – Revista da Imagem e faz as suas primeiras fotos digitais
Na última sexta-feira, 14, a redação da FS Online recebeu a visita de uma figura ilustre da fotografia nacional. Aos 83 anos, o corintiano Thomaz Farkas aceitou o convite para conversar sobre o universo da fotografia, além de história, vida pessoal e por que não, política? Antes de dar início a um bate-papo descontraído, de aproximadamente uma hora, Farkas já foi logo dizendo: “Eu não sou um grande fotógrafo. Sou um fotógrafo de um metro e setenta!”. Entre risos e diversos assuntos que ainda lhe causam distintas emoções, Farkas conversou sobre a vinda para o Brasil, a prisão durante a ditadura militar, a amizade com Conrado Wessel, além de nos conceder duas exclusividades. A primeira foi escolher o layout final da próxima capa da FS – Revista da Imagem, que será lançada no fim de março, e a segunda foi realizar aqui na nossa redação as duas primeiras fotos digitais de sua vida! Sem preocupar-se com técnicas, Farkas deliciou-se ao, literalmente, brincar com uma pequena câmera digital, disparando-a em todas as direções. Embora referência na cena fotográfica, antes de responder a qualquer pergunta, Farkas apóia-se em sua simplicidade para afirmar: “Eu estou contente de estar aqui”. A entrevista que você acompanha a seguir abre o Projeto Na Redação, que, ao longo do ano, convidará alguns dos principais personagens da fotografia brasileira para encontros como esses. O próximo convidado é o celebrado curador Diógenes Moura. Fique ligado, mande suas sugestões e confira agora o papo com Thomaz Farkas.
O que mais o atrai na fotografia?
A minha família tem sangue de hipossulfito, um produto que se utilizava para revelar fotos. Meu avô já tinha uma lojinha de fotografia, meu pai veio para cá e estabeleceu a Fotoptica, eu mexo, meu filho trabalha com fotografia no cinema, minha neta mexe com fotografia. Então, meu amigo, minha amiga, a família tem sangue de fotografia, desde antes de nascer. Gosto de fotografar gente, embora tenha feito imagens de prédios, obras. Mas eu sempre sei que atrás daquela arquitetura, daquela construção existiam pessoas. Gosto de fotografar pessoas mesmo que elas não apareçam. E gosto de cão.
Desculpe, como?
De cão.
Ah! E será tema para um próximo ensaio? O que o senhor está produzindo agora?
[risos] Depende muito da época. No momento não estou fazendo nada especial, porque eu já fiz muita coisa. Estou trabalhando para mostrar essa produção montando exposições. A última grande coisa que fiz foi uma série sobre uma excursão pelo rio negro, com um material em cor. Eu adoro a Amazônia. Também fui muito a Brasília e tenho muitas fotos da construção e da inauguração da capital. Tudo isso é minha vida.
O senhor falou sobre subir o rio negro e fazer fotos na Amazônia. O senhor se considera um fotógrafo aventureiro?
Eu gosto de viajar, para qualquer lugar, desde França, Bahia, Rio Grande do Sul. Eu não fui às Missões, mas vou. Tem algumas coisas que eu quero fazer. Adoro percorrer o Brasil e viajar por qualquer lugar. O Brasil é o meu preferido.
Engraçado isso porque o senhor tem sangue europeu, mas assumiu o Brasil como sua nação. O senhor já voltou à Hungria para fotografar?
Minha mulher é brasileira, meus filhos são brasileiros, meus netos são brasileiros e eu já me tornei um real brasileiro há muitos anos [risos]. Na Hungria eu nunca fiz fotos, saí de lá com cinco anos e nunca voltei com este propósito. Estive lá há alguns dias com um dos meus filhos, mas foi apenas para lhe mostrar a cidade, que cresceu bastante.
Qual a imagem que pode passar anos, décadas, e o senhor nunca tirará da memória?
Minha chegada ao Brasil, em 1930, nunca vai sair da cabeça [emocionado]. A imagem do nascimento dos meus filhos e depois o meu paraíso que fica em Paraty, onde tenho minha casinha, meu barquinho. Estou com 83 anos e esse paraíso é algo tão gostoso.
O senhor já passou por vários períodos da fotografia, a ponto de poder opinar sobre uma questão que ainda persegue muitos fotógrafos: é possível ganhar dinheiro com fotografia?
Tem muita gente que ganha. Hoje é possível viver de fotografia. Muitos profissionais do mundo ganham com fotos em revistas, por exemplo, que pagam bem. Na época da Life, os fotógrafos eram contratados, fixos. Mas, além disso, há os que ganham com fotografia de guerra, que é algo que eu não gosto. Acho muito triste. Embora tenham existido nomes como o de Robert Capa que pôde viver disso. Para você ganhar dinheiro, você tem que ser bom. Tem que lutar, como em qualquer profissão. Até no Brasil você pode ganhar, ganha menos porque é em real. Veja o Sebastião Salgado - o Tião - está ganhando dinheiro.
Mas o Sebastião Salgado ganha muito mais dinheiro com o que ele faz para clientes do exterior. A produção dele aqui dentro é super pequena.
Ah, no mundo inteiro é assim. O último livro dele é sobre a África. Então ele vende essas coisas, tem muitos livros publicados e junto com a sua mulher faz um trabalho excelente. É um pessoal muito ligado a fotografia e eu gosto disso. O Mascaro que é um grande amigo também ganha, não tanto quanto ele gostaria, mas ganha.
O senhor citou o Robert Capa. O senhor está acompanhando os últimos acontecimentos em relação aos negativos de Capa que foram encontrados?
Acho que li essa notícia na FS Online. Vamos ver o que tem dentro, é preciso saber em que condições eles estão. Sorte. As minhas fotografias de 60 anos atrás estão encurvando, então eu entrei em acordo com o Instituto Moreira Sales para que tudo isso seja revitalizado e guardado. Eu não vendi nada, mas eles estão fazendo isso, catalogando, cuidando.
O grande valor que estão creditando a estes negativos é a possibilidade de verificar a veracidade de algumas das mais famosas imagens feitas por Capa.
Escreveu-se muito sobre essas fotografias, se são mentiras ou verdades. Mas a fotografia está lá. Ele era um grande fotógrafo, húngaro. [risos] A língua húngara só serve para duas profissões: músico violonista e fotógrafo. Bobagem minha…[risos]
E o que senhor acha da produção fotográfica atual?
Eu gosto da fotografia, então para mim qualquer fotografia bem feita eu gosto. Pode ser de gente, de prédio, de nu. Acho tudo isso maravilhoso. E agora com as máquinas digitais a fotografia se popularizou novamente. Houve um passo muito importante quando surgiram as máquinas fotográficas, você apertava o botão e os filmes saíam bem. Antigamente, na Kodak, vendia a máquina por USS 1 e depois você mandava a máquina para eles revelarem o filme, também por um dólar. Mas isso faz 1800 anos, eu nem sei mais. Depois vieram as reflex, automáticas, as miniaturas, as Leicas, e eu tive de tudo porque na Fotoptica passou de tudo. Então com a digital tudo ficou mais fácil. Mas hoje eu só tenho duas Rolleiflex e duas Leicas
E o senhor só faz foto em filme, ainda não experimentou a digital?
Ainda não. Mas eu vou comprar, porque você vai em qualquer lugar e sempre está todo mundo fotografando. Mas não vamos esquecer que essa é a fotografia que morre logo. Vou fazer uma conferência sobre isso, daqui uns três meses na Cinemateca, sobre isso: como a fotografia morre? Porque a fotografia pode morrer no álbum, numa caixa de sapato e essas digitais você faz e praticamente elas acabam. Você faz, vê e acaba. Para mim, olha a minha bobagem, só vale fotografia em papel. Quantas fotografias estão morrendo?
Voltando a falar em fotografia nacional, o senhor não acha que algumas pessoas em busca de serem ousadas, estão pecando pelo excesso?
Quando você apresenta seu trabalho para uma revista, para um crítico você tem que escolher. E essa escolha é muito importante. Você não pode mostrar tudo. Por exemplo, eu vou mostrar um material para vocês, então eu vou estuda r a revista e aí apresento uma coisa que seria aceitável. Se eu mostrar tudo vocês ficam loucos! O portfólio do seu trabalho tem que ser muito interessante, dedicado a uma finalidade.
A fotografia nacional é celebrada em diversos outros países. Apesar desta realidade, o que senhor acha que está faltando na fotografia nacional?
Acho a fotografia brasileira muito especial, não é igual a argentina, a americana ou a européia. Ela tem um cheiro diferente, interessante. Acho que a fotografia brasileira tem um caráter, eu não sei explicar. Não sei se daqui para frente ela vai permanecer assim ou se ela vai se universalizar. O cheiro é outro, é difícil explicar.
Falando um pouco de cena nacional, o senhor acha que há fotógrafos que se utilizam propositalmente de temas que mexem com a sensibilidade humana, como fome, miséria, dor, pois assim, a aceitação é mais fácil?
Não sei. Essas coisas são problema. Porque os assuntos não se esgotam, cada dia surgem novos problemas. Veja a transposição do Rio São Francisco, vai dar fotografia. Fiz muito filme sobre o Brasil e a televisão não quis mostrar, porque segundo eles tinha muita miséria. Não é miséria é como as pessoas viviam. Você sai de São Paulo e vai para o interior e acha que aquilo é miséria. É a vida das pessoas. Você não pode diminuir as pessoas porque elas são pobres, é preciso tomar muito cuidado para que isso não seja estigmatizado. É muito importante mostrar que as pessoas estão vivas e vivendo, e tem que valorizar essas coisas.
O senhor fala muito em positividade. Por esse motivo o senhor não gosta de fotografia de guerra?
Vem muita fotografia de guerra, sei que as guerras existem. A Magnum publicou um livro ano passado [sobre os sessenta anos da agência] e 90% são fotografias de guerra. Não acho que a guerra deva ser tão valorizada, eu não iria fotografar guerra. A morte não é muito para o meu jeito. As fotos do Capa, embora tenham cenas sobre momentos difíceis, são mais sobre vida do que de guerra. Não é só desgraça. Existe vida e a gente tem que valorizar a vida. Atenção, atenção.
Lendo um pouco sobre a sua carreira, um de seus objetivos era encontrar o Brasil de verdade. E o senhor encontrou esse Brasil? Qual é a cara dele?
Eu acho que o Brasil verdade é aquele que a gente sente. Como você sente o Brasil, os fatos, a inundação, os problemas? O que você vai mostrar? Conheço um pouco o mundo e não existe país melhor do que o Brasil. Com todas as desgraças, não existe no mundo um país com essa tolerância, com essa capacidade de se desenvolver. As pessoas vêm para cá e em pouco tempo têm tudo: trabalhou, ganhou. O Brasil é muita coisa fantástica, e como vim de fora e conheci muitos países, eu percebo isso.
Do que mais se orgulha em sua carreira?
Da minha família e dos meus amigos, que não são muitos. Cheguei aqui com cinco anos, então você pode imaginar o número de coisas que vi, que fiz, que gostei. A vida toda foi muito boa para mim, não que não tivesse meus problemas, mas eu encarei com uma certa positividade. E eu também sou muito chato!
Ah, então o senhor disfarça muito bem! [risos]
Ah, mas é porque você não é casada comigo! [risos] Aí você ia saber…O trato com as pessoas, com seus empregados é super importante. No tempo da Fotoptica tinha muita gente e todos se lembram de mim. Quando a gente se encontra é sempre bom. Tenho boas memórias, estou contente.
Falando em amigos, li numa entrevista que o senhor tem uma carta de Conrado Wessel. Na revista FS o senhor já nos presenteou permitindo a publicação de uma carta trocada com Edward Weston. O senhor gostava de trocar cartas? Guarda-as até hoje? De quem mais tem?
O Wessel eu conheci e era um cara que gostava muito do meu pai, de mim, tenho uma carta linda dele sobre a Fotoptica. Ele foi um homem importante para que a Kodak pudesse vir para cá e se estabelecer. A Kodak construiu a fábrica dele. O Weston eu adorava. Um dia consegui ir para os Estados Unidos e marcar um encontro com ele. E foi absolutamente sensacional. Veja uma anedota: o governo americano queria fazer um documentário sobre ele, mas eles queriam que ele usasse um carro novo. Mas ele tinha um calhambeque. O documentário não foi feito. O Weston era um grande cara, com uma família muito interessante.
O senhor fala muito em amigos. O senhor é o tipo que gosta de receber os amigos em casa, jogar conversa fora? Como o senhor gosta de passar o tempo livre?
Não fazendo nada. É uma delícia. [risos] Eu sou a mais preguiçosa das pessoas. Eu adoro as tardes que não tenho nada para fazer. Não é que eu durmo. Eu vou ver fotos, ler um livro, mas não me incomodo. Eu gosto da liberdade. E depois você chega nessa idade você tem neto, bisneto, e também gosto de conversar com meus filhos.
Qual a lembrança mais gostosa da Fotoptica?
Os funcionários. Eu conversava muito com todos eles, fazia de tudo para que eles estivessem bem. Tenho saudade. Meu pai trabalhava no atendimento, minha mãe no caixa e eu vendia cartão-postal. Gostaria de ter mantido pelo menos uma loja.
E a maior decepção seria a perda da Fotoptica?
Não, não. Entrou algum dinheiro que foi distribuído por toda família: eu, minha mulher e meus filhos.
O senhor é filho único?
Sou, na minha época não se podia ter muitos filhos.
Eu sou apaixonada por história e o senhor viveu grandes momentos da história como a 2ª Guerra Mundial, Revolução Constitucionalista, Ditadura Militar, as Diretas Já. Que momento o senhor considera mais intenso? Foi bacana fotografar nessas épocas?
Os últimos vinte anos deram uma pilha de álbuns. Excursões, passeios, amigos. Só que eu já não lembro mais os nomes das pessoas, tenho que ficar anotando. Não tem coisa melhor coisa para guardar a história do que a fotografia. Nestas épocas da história, São Paulo era uma cidade muito pequena e eu vivi muito bem. A segurança era melhor, a criminalidade era menor. Fotografar foi tranqüilo.
O senhor e o Pedro [Pedro Farkas, filho] foram presos durante a Ditadura. Como isso aconteceu?
Estive preso por duas semanas. Mas sei lá, vi coisas chatas, pessoas que voltavam do interrogatório muito mal. Mas sei lá.
O senhor teve sorte?
Eu tive sorte, eu tive amigos que trabalharam para me soltar. Quando meu filho esteve preso a gente falava com o chefe do DOPS. Ele era jovem, era idealista, ainda hoje é.
E o senhor gosta de política? Como o senhor se posicionaria em relação ao governo atual?
Eu gostava muito, era muito ativo, em política de esquerda. Sempre fui muito de esquerda. Hoje não tenho mais interesse. Leio dois jornais daqui e outros de fora, mas a política já não me interessa mais. Antes quem era da esquerda era de esquerda, quem era da direita era da direita. Você sabia quem era quem. Hoje, eu não sei.
E gosta de futebol? Qual time torce?
Gosto, sou corintiano. É difícil eu ver um jogo, só vejo os mais importantes, o resto acompanho pelos jornais. Agora estou fazendo um livro sobre as torcidas do Pacaembu, com texto do Juca Kfouri. Estou muito contente.
Sonho: sonho pouco, mas adoro sonhar colorido
Cinema ou fotografia: os dois
Um filme: Santiago, de João Moreira Salles
De quem sente falta? Do meu cachorro que morreu
Qual o seu maior medo? Não tenho medo
Vida sem fotografia? Impossível
Imprensa Brasileira: mais ou menos
O que o senhor gostaria que lhe perguntassem? O que você gosta de fotografar?
Você pode conferir agora o áudio de algumas perguntas que marcaram este bate papo. Basta acessar o arquivo na seção FS Cast
Por Flávia Lelis
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