Juan Esteves

CARLOS MOREIRA D’APRÈS CARLOS MOREIRA - 09/04/09
O livro parece (e é) um momento de reflexão. Uma pausa na gestão de uma grande obra, inacabada por certo, de um dos grandes fotógrafos brasileiros cujo percurso sempre amarrou a observação arguta à reflexão sobre o próprio fazer fotográfico. Carlos Moreira, simples título do exercício, também remete ao primeiro Carlos A. Moreira (Gráficos Brunner, 1977) hoje parte da antologia fundamental.
Cuidada e delicada, a proposta une o fotógrafo aos artistas Rubens Matuck e César Landucci na criação da Edições da Pulga. Na empresa está também a curadora Rosely Nakagawa, que editou as imagens. A feliz parceria dos dois é de longa data, e um escrito seu sobre a obra do fotógrafo sempre é certeiro como um tanka: “Naturezas-mortas compostas de memórias sobre a mesa, livros de cabeceira, sorrisos e afetos…”.



Em tempos de enormes edições e centenas de imagens, Moreira nos brinda com pouco mais de 20 delas. De início, recorro ao dito do curador Diógenes Moura em Eu olhei tanto, sua mostra de 2007: “…cada imagem é um eu profundo. Cada imagem respira independente, uma da outra, sendo todas uma mesma.” Realmente, é preciso olhar muito, e demoradamente, e assim perceber seus desdobramentos, seus diferentes matizes.

A referência aos retratos inclusos em outros retratos nos leva a uma incursão memorialista. Não aquela inconsciente e coletiva como Jung nos sugere, mas sim a sua própria, quase hermética, ou melhor, aquela “proustiana” onde as reminiscências parecem interligar o passado com o presente, sugerindo um caráter ontológico. Postais antigos, fotos emolduradas e livros, porções de seus still life , também sugerem essa digressão.





Na cabeceira está o segundo tomo do Essais sur le Bouddhisme Zen, de Daizetz Susuki; Os 78 poemas do livro Le Chant de l’immédiat satori: Shodoka, de Hsuan-Chueh, são considerados obras fundamentais do Zen. Ao lado destes, descansa outro livro símbolo: The Wit and Wisdom of Quentin Crisp compilado e editado por Guy Kettellhack. Ora, tanto Crisp (1908-1999) quanto Kettellhack são escritores e poetas incomuns, ícones de difícil consumo, mas Moreira, ao torná-los conteúdo propõe o entendimento em diferentes layers: uma página inserida noutra imagem, que por sua vez se relaciona com uma terceira: retratos dentro de autorretratos, filosofia dentro da poesia.

Este círculo filosófico-imagético é inerente a obra de Moreira. Não apenas como pensador que é, mas por suas imagens que, pela simplicidade quase oriental, nos envolve paradoxalmente num raciocínio mais complexo. Não disse o mestre que se leva muito tempo (ou uma vida) para alcançar a simplicidade do ser? Recorro a Rosely Nakagawa: “O desprendimento das regras e do método trouxe uma nova revolução que o fez voltar-se para si próprio.”



Outra alusão exposta pelo fotógrafo: Leaves of Grass, do poeta americano Walt Whitman (1819-1892), com seu retrato na capa, apara outra imagem. Esta, solitária na página anterior adquire encetado significado, pois o retrato sugere o próprio fotógrafo distante no tempo. Noutra um relógio parado oferece a imagem retida para sempre, para logo mais interferir na mesma. Não somos mais senhores da imagem, ela tem vida própria, se transforma.

Afinal, Whitman não uniu o transcendental e o real em sua obra? Para o também poeta e crítico irlandês Edmonde Holmes (1850-1936) ele tinha certeza que, se não havia nada ideal na natureza humana, por certo também não haveria nada ideal acima dela. Como o poeta, o fotógrafo também parece acreditar no que Holmes chamou de concepção idealística igualitária.* Todos os retratados são seus iguais. Tomo emprestado novamente o poeta (…)I will make poems of materials, for I think they are to be the most spiritual poems (…)**

As assemblages de Moreira inevitavelmente nos levam àquelas produzidas pelo genial mineiro Farnese de Andrade (1926-1996) ou como propõe Rosely Nakagawa: “Uma arqueologia às avessas na qual as camadas superiores relatam o passado e as camadas submersas revelam o que está por vir”. Em ambos artistas também vivenciamos uma aura trágica, mas, neste ponto, o fotógrafo não caminha para um destino infeliz como o artista, somente carrega em densidade sua obra, como se cada página fosse um ato de uma ópera. Ambos deixam para o observador a busca pelo elo que unirá suas ideias.

O fotógrafo ao recortar diversas fases da sua vida, propõe um balanço imagético. Ao adotar a assemblage como meio de expressão nos faz pensar que pode revogar suas propostas anteriores, pois desta sobrevivem apenas duas ou três fotografias. Revela também suas adesão, agora explícita, aos pensamentos de seus coadjuvantes, que na verdade junto com o próprio se tornam protagonistas de uma nova ideia.
Carlos Moreira é um livro pequeno (com poucas páginas e imagens) capaz de contar uma grande história ou propor um interessantíssimo jogo filosófico. O fotógrafo, como se intitulava seu personagem Crisp, é de fato um brilhante racontéur. A habilidade na sua narrativa é inequívoca. Por um tempo, imagina-se, deixou de ser o flâneur paulistano e nos brindou com mais um de seus questionamentos fotográficos. Mas, apenas por um tempo, seu próprio tempo, imagina-se…

* Em: Walt Whitman’s Poetry –A study & A Selection by Edmond Holmes (John Lane, 1902)

** Em: Starting from Paumanok 6, Leaves of Grass ( The Modern Library, 1921) pp.14 (acervo Harvard College Library)



Carlos Moreira
Imagens de Carlos Moreira
Textos de Diógenes Moura e Rosely Nakagawa.
Design gráfico de Rubens Matuck e César Landucci
Edições da Pulga
A venda na loja de Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Juan Esteves
Juan Esteves é fotógrafo e crítico de fotografia. juan_esteves@hotmail.com
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