Juan Esteves

OS CAMINHOS DE FRANÇOIS! - 02/04/09
Sobre Cuidar- Um documentário sobre a medicina humanizada no Brasil, segundo livro do fotógrafo André François, escrevi em 2006 que o Brasil era um país cheio de contradições, governado por pessoas cujo interesse é mais pessoal quando deveriam estar cuidando do coletivo (leia em Colunas). Pois é, quase três anos se passaram e o país piorou institucionalmente, enquanto o fotógrafo continuava suas viagens pelos recônditos mostrando que ainda existe gente interessada em fazer com que a saúde no país melhore. Principalmente para aqueles cujo o simples acesso é uma dificuldade a mais.

François está nesta estrada desde 2005, quando começou a desenvolver seus documentários. O livro A Curva e o Caminho - Acesso à saúde no Brasil de 2008, é a sua segunda publicação do gênero. Seu primeiro livro, de 1992, tratou de São Thomé das Letras, cidade de Minas Gerais onde morou por um tempo. Foi lá também que desenvolveu seu primeiro trabalho mais voltado para o social, trantando dos trabalhadores das pedreiras locais. Em 1995 criou a ImageMagica organização que acredita no poder da imagem para transformar a sociedade.



Vencedor do Prêmio Conrado Wessel de Fotografia 2009, na categoria ensaios publicados, o fotógrafo dá continuidade a publicação anterior cuja reflexão se divide entre a informação e a estética fotográfica. Sobre a primeira, François verbaliza a rede que humaniza a saúde no Brasil. Com a segunda, a representação gráfica do seu conteúdo mostra um fotógrafo mais maduro que alia informação com o caráter autoral marcante e uma meticulosa observação.

O livro dispensa a maré contemporânea de imagens maneiristas e se volta ao preto e branco formal onde o interesse está mais no assunto do que no ângulo que ele é tratado. Sem precindir de belas fotografias, está mais debruçado no que o conteúdo pode revelar do que na abordagem estética conduzida a gosto da pirotecnia pura e simples. Neste sentido sua sintaxe é simples e objetiva, como deve ser um livro do gênero. Antes de tudo o que se busca é informar. Sem informação não há transformação, que por analogia se traduz na busca do autor.



O fotógrafo conta que houve muita discussão entre a pesquisa para o trabalho até a sua finalização. Notadamente em como perceber as diferenças entre sua própria cultura e aquelas que conviveu durante suas viagens. François enfrentou suas próprias dúvidas na tradução do que via em imagens. Pode parecer parodoxal, mas nem sempre aquilo que o fotógrafo vê é o mesmo que estará impresso. Deixar a literalidade à parte é tarefa árdua e não é para qualquer um. Ainda mais quando esta tradução é oriunda de sua própria experiência pessoal, mesclada entre o que o fotógrafo acredita e o que sua consciência propõe.

Também, A curva e o Caminho, não é trabalho de um só. François contou com a parceria da jornalista Alicia Peres que dividiu com ele quase todas as viagens. Ela registrou as entrevistas, organizou informações e ajudou na coordenação de tudo, enquanto o fotógrafo voava de monomotor, navegava em pequenos barcos e penava nas estradas do Amazonas, Acre, Roraima, Ceará, Maranhão entre outros. Em estados como o Pará, trilhou pequenos caminhos entre Redenção até Pau d’Arco no Pará, e de lá até Belém. Na outra ponta, de Bagé a Aceguá, no Rio Grande do Sul. No Acre, de Seringal Canadá a Feijó e desta para Rio Branco, capital.



Parte das imagens relatam homens e mulheres desprezados pela saúde institucional e atendidos pelos voluntários. Parte registra aqueles que fazem a ponte deste acesso: médicos voluntários em aviões de carga, em pequenas barcas, em hospitais improvisados. Eles foram fotografados em ação, entre cirurgias e exames, mas a sensiblidade do fotógrafo separou alguns momentos em que a simples convivência entre eles parece ser parte da cura. François mostra que nestas regiões não existe uma profilaxia. A medicina é massivamente curativa e a presença do médico é fundamental.

Flagrantes da reflexão de cada personagem nos dão conta da dificuldade hercúlea da empreitada. Uma enfermeira ou médica sentada no chão da barraca após uma cirurgia, exausta; uma indígena com curativos no rosto, deitada numa rede, com olhar no infinito; e um pequeno bebê no colo do médico, fazem contraponto a lancha que corta o rio na bela paisagem; mãe e filhos na mesa de refeição, inserida no meio de seu barraco. São pequenas histórias, parte de um grande drama que mais uma vez o fotógrafo expõe à sociedade.



Cada bloco de imagens, editadas por Eder Chiodetto, traz um de textos explicativos que foram editados por Maria Alzira Brum Lemos. Os textos sem dúvida são o elo entre as imagens. Na maioria dos casos, não dá para prescindir deles em função de seu conteúdo. Mas sua narrativa é dinâmica e muito interessante. Afinal, o livro não é exclusivamente de fotografia. É sobre um assunto, e André François na verdade nos propõe uma discussão ao nos dar subsídios sobre lugares onde raramente alcançamos. Esta proposta é o que esperamos da verdadeira imagem documental, aquela que nos mostra o caminho após cada curva!


A curva e o caminho - Acesso à saúde no Brasil
Autor André François
Edicão ImageMagica
Patrocínio Roche
Editora
ISBN- 978-85-61921-00-2
Juan Esteves
Juan Esteves é fotógrafo e crítico de fotografia. juan_esteves@hotmail.com
colunas anteriores
 


RSS:
RSS 0.91
RSS 1.0
RSS 2.0
Parceiros:

Realização: