Juan Esteves

NAS JANELAS DE BITTENCOURT - 02/04/09
Fotografia e janelas há anos mantém um casamento feliz. Dentro da imagem está a sua própria moldura. Não no sentido literal, mas no da composição onde a cercania delimitada nos conduz, sem atalhos, diretamente ao conteúdo. Este pode ser tanto objetivo como também um simulacro do que vemos. Sugere o que estamos preparados para acreditar e também no que deveríamos acreditar.

Julio Bittencourt escolheu um emblemático espaço na maior metrópole da América Latina e o transformou-o no livro Numa Janela do Edifício Prestes Maia 911. Um prédio no empobrecido centro de São Paulo e uma plêiade de moradores numa espécie de plano sequência de 70 páginas. O tom denso e carregado no preto, as imagens manipuladas pela sua linguagem e técnica, completam a proposta.



À luz da Gestalt não há dúvida que as complexidades de cada figurante são superadas pelo conjunto de seus personagens. Cada um deles produz seu próprio mis-en-scène, mas é no formato final que a proposta ganha mais força, é nele que o trabalho adquire uma razão maior. Contudo, cada página não é desprezada por seu individualismo, devido a presença marcante de seu protagonista.

Ronaldo Entler, da Pós Graduação em Multimeios da Unicamp, no seu texto introdutório nos diz que “a fronteira simbólica que separa a arte da documentação nunca deixou de ser ameaçada pelos dois lados”. Também acerta ao dizer que o trabalho do fotógrafo é resultado de uma construção, e que suas imagens foram negociadas com seus personagens. É uma constatação, não uma crítica. Afinal, a fotografia contemporânea não vem se portando assim há anos?




A cumplicidade entre fotógrafo e retratado, como sugere Entler , fica óbvia ao se notar de pronto o caráter stageable de cada um, em detrimento ao posicionamento straight, apenas para citar dois adjetivos em voga na chamada crítica contemporânea. Em outras palavras, o que é encenado surpreende o factual. Mas como ele alerta, a fronteira entre os dois momentos é simbólica e hoje carece de revisão em suas análises mais ortodoxas.

Como um maestro conduzindo sua orquestra, Bittencourt produz e lê uma partitura monocórdica em seu andamento gráfico, embora, deliberadamente, permita que seus instrumentos desafinem. É o momento em que cada um se manifesta. Não estamos vendo uma sequência de retratos mudos. Há aqueles que gritam, pois são ecos da cidade que os aperta. Paixão, calor, tristeza, dor, felicidade e amor estão ali para quem souber olhar. Este é o mérito do fotógrafo, dar voz aos habitantes da metrópole antropofágica.



Ronaldo Entler une os fenômenos de uma metrópole moderna com a fotografia. Em sua digressão, ora a cidade se oferece a fotografia, ora esta a acolhe de maneira privilegiada. Porém a sua expansão, na maioria das vezes descontrolada, abala as fronteiras formais e expõe seus fragmentos. É sobre estes, em forma de janela e seu conteúdo humano, que Bittencourt se debruça literalmente, criando um amálgama entre o que é arte e o que é imagem documental.

Julio Bittencourt ganhou com este ensaio o Prêmio Leica Oskar Barnack 2007 e o 2º lugar na categoria Ensaio, do Prêmio Fundação Conrado Wessel de Arte de 2006. O fotógrafo também ganhou o Prêmio de Ensaio não Publicado da FCW de 2009. Já lançado na Alemanha pela Kehrer Verlag e na Inglaterra pela Dewi Lewis Publishing, a versão brasileira mantém a co-edição com as européias. Carregada nos pretos do contorno das imagens, e a maioria carregadas nos baixos tons, a edição, por questões de aproveitamento, também foi impresssa em Verona, na Itália, em quadricomia impecável.




Numa janela do Edifício Prestes Maia 911
Imagens de Julio Bittencourt
Texto de Ronaldo Entler
ISBN- 978-857234378-7
DBA Dórea Books and Art
www.dbaeditora.com.br


Juan Esteves
Juan Esteves é fotógrafo e crítico de fotografia. juan_esteves@hotmail.com
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