Kochi, no sul do Japão, é uma cidade com vistas para a pequena baía de Urado, cortada por vários rios, e cercada por montanhas e pequenos montes. Foi deste belo lugar que o lavrador e fotógrafo diletante Haruo Ohara zarpou para o Brasil, a bordo do navio Hawaii Maru em 1927. Dezenove anos antes, o vapor Kasato Maru trazia a primeira leva de imigrantes japoneses para o país.
Haruo Ohara (1909-1999) ainda não tinha 18 anos de idade, e segundo seus biógrafos Rogério Ivano e Marcos Losnak, autores do livro “Lavrador de imagens, uma biografia de Haruo Hara” (S.H.Ohara, 2003), foi para uma terra onde se dizia crescer “árvore do dinheiro”, o café. Estas informações também estão no texto que os historiadores assinam em Haruo Ohara, publicado pela Editora Positivo (2008) sob coordenação do fotógrafo Orlando Azevedo, que também assina a curadoria e o projeto editorial.

Haruo Ohara Fotografias, edição do Instituto Moreira Salles(2008), celebra a exposição em cartaz em São Paulo (na galeria do Sesi até dia 1º de março de 2009), com curadoria de Sergio Burgi, responsável pela reserva técnica do Instituto no Rio de Janeiro. O livro traz um poético texto do jornalista e fotógrafo Marcos Sá Correia e as imagens impressas em ambas edições pertencem ao acervo do IMS, doadas pela família do fotógrafo.
A edição curitibana é pequena, num formato quase pocket, trilingue em português, japonês e inglês. A edição do IMS traz apenas texto em português, tem um formato maior e é também em brochura como a outra. Embora uma seja maior que a outra, a mancha de imagem é praticamente a mesma, devido ao aproveitamento diferente da diagramação. Em comum também, ambas grafam errado o nome do Foto Cine Clube Bandeirante que este ano completa 70 anos de atividades, aliás, habitualmente escrito no plural.

Por que duas edições simultâneas sobre Ohara? Sem considerar os 100 anos da imigração japonesa, comemorados no ano passado, basta abrir qualquer um dos livros, até mesmo aleatoriamente, e se obtém a resposta imediata: o fotógrafo é um diamante raro em meio a tanto carvão. Ou melhor, um fotógrafo de talento exemplar que trabalhou como agricultor no interior do Paraná. De fato, Ohara quando chegou ao Brasil foi para Cotia, em São Paulo, onde, contam seus biógrafos, “o sonho da fartura acabou numa plantação de batatas”.
Sem perder a esperança, Ohara viu o sonho melhorar depois de uns três anos de trabalho duro, quando sua família teve seu pedaço de terra ao lado do rio Paranapanema, num pequeno povoado que em 1934 passou a levar o nome Londrina. A cidade teve uma colonização espontânea que começou em 1904. Lugar de terra roxa e muito fértil, hoje tem perto de 500 mil habitantes, mas a agricultura ainda é o forte. Foi lá também que comprou sua primeira câmera usada, de um amigo que também foi seu primeiro mestre.Em seu diário anotou: “De cada dez fotos três eram boas”.

Uma de suas primeira imagens, de 1938, foi o retrato da esposa Kô, num campo de laranjas, em roupas de trabalho. A esposa seria muito retratada até pouco antes de morrer em 1973. Tanto ela, quanto sua mãe, seus filhos, a avó, os cunhados e amigos próximos estão registrados na edição. Apesar de certa formalidade, Ohara esbanja elegância e já utilizava fundos neutros, como os usados por Weston ou Avedon. Um cobertor pendurado no varal era o suficiente. A técnica da luz natural distante do fundo lhe dava também uma ampla gama de tonalidades que ele usava sabiamente.
Em 1951 o fotógrafo foi um dos fundadores do Foto Cine Clube de Londrina, ano em que também se inscreve no lendário Foto Cine Clube Bandeirante, por onde passaram nomes como Thomaz Farkas e German Lorca, e participa de inúmeros salões nacionais. Em sua vasta obra, uma visão oriental permanente onde se percebe de imediato o estudo da composição. Mesmo quando é lúdico o fotógrafo não deixa de também ser arrojado. A precisão da iluminação – constante - passeia por seu mundo mais pessoal e familiar e se estende às suas paisagens, que apesar do curto raio da distância ganha ares de grandeza.

Haruo Ohara foi homenageado, em 1988, nos 80 anos da imigração japonesa. “Já não era um imigrante, e sim, um dos pioneiros da construção de Londrina” contam Ivan e Losnak; em 2003 foi lembrado com uma sala especial na 12ª edição da Coleção Pirelli-MASP, em São Paulo. Seu neto Saulo Ohara recebeu a homenagem por ele. Agora são mais dois livros que se somam aos inúmeros catálogos de clubes a fazer justiça a esse brilhante fotógrafo que, em meio a lavoura escondida, soube ser um dos mais universais fotógrafos que este pais já viu.
Haruo Ohara
Editora Positivo
Curadoria e projeto editorial de Orlando Azevedo
Textos de Rogério Ivano, Marcos Losnak e Orlando Azevedo
Isbn- sem
www.photographica.com.br/
Haruo Ohara Fotografias
Edição Instituto Moreira Salles
Textos de Sergio Burgi e Marcos Sá Correia
Isbn-978-85-86707-29-2
www.ims.com.br
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