Aurélio Becherini é um livro daqueles que merece um canto especial na estante, ao lado de alguns poucos outros que, paulatinamente, resgatam a história da cidade de São Paulo, bem como de seus importantes produtores que transformaram, na curta existência da fotografia, ritmos visuais em formas significantes, promoveram o entendimento mais amplo do termo documental e legaram à posteridade um portfólio magnífico para o estudo da arquitetura e do comportamento humano.
A edição trata de resgatar vida e obra do italiano Aurélio Becherini (1879-1939), até pouco tempo, limitadas aos estudos acadêmicos e algumas poucas edições que o mencionam de passagem, caso do livro São Paulo de Piratininga: de pouso de tropas a metrópole [Terceiro Nome/O Estado de S.Paulo, 2004] já comentado nesta coluna quando lançado. Juntamente com B.J.Duarte, Caçador de imagens, igualmente comentado, faz parte das monografias históricas da Editora Cosac Naify em parceria com o Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

Além do portfólio excepcionalmente bem cuidado, com reproduções cuja qualidade superam largamente as publicações anteriores, a edição se completa com textos da arquiteta e fotógrafa Angela Célia Garcia, estudiosa do fotógrafo, que escreveu sua dissertação de mestrado para a USP: São Paulo em prata: a capital paulista nas fotografias de Aurélio Becherini; do sociólogo José de Souza Martins, titular aposentado do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da USP, autor de uma dezena de livros, e do pesquisador Rubens Fernandes Junior, professor e diretor da Faculdade de Comunicação da FAAP, especialista na história da fotografia. Os mesmos tiveram colaboradores, entre eles o historiador Ricardo Mendes, autor premiado e expert na cultura da cidade.
Segundo Angela C.Garcia, o fotógrafo pode ser considerado o primeiro repórter fotográfico da imprensa paulistana: “Aurélio teria iniciado sua carreira trabalhando de graça para jornais”. Com a atividade crescendo, passou a ser remunerado e posteriormente foi trabalhar no O Estado de S. Paulo, mas fotografou para outros jornais e algumas revistas como Cigarra e Cri-Cri. Da sua história mesmo, pouco se sabe, ainda cedo se casou com Ada Ardinghi, com quem teve nove filhos. Sua biografia foi montada basicamente pelo depoimento anotado pela arquiteta em 2006, concedido por sua neta Araceli Becherini. Um mês após sua morte, em 1939, o Estado publicou uma nota registrando uma rara homenagem ao profissional.

Becherini é o fotógrafo, juntamente com Militão e Gaensly, entre outros grandes, que consegue transportar para o bidimensional a transitoriedade da cidade de São Paulo do início do século 20, quase impossível de registrar. Trabalhar para a grande imprensa o diferencia dos demais, afastando-o do interior dos estúdios e aproximando da imagem de campo no sentido amplo da palavra. Para Fernandes Junior, esta particularidade em não produzir retratos, “desprezível diante da exuberância de sua fotografia documental urbana”, também reveste sua atuação como rara, “por ser um dos poucos fotógrafos que conseguiram escapar da tradição do ateliê”.
O portfólio, entre outros recursos, usa o zoom para destacar pequenos detalhes das fotografias ao lado das originais. Apesar de ser o mesmo recurso já utilizado no livro São Paulo Anos 20 Andar,Vagar e Perde-se [Melhoramentos,2005], também já comentado, com ele se percebe nitidamente a qualidade dos negativos produzidos por Becherini. Tais cortes, se isolados, poderiam estar lado a lado com os originais e somente um fotógrafo experiente perceberia a diferença. A dinâmica criada pelo projeto gráfico é eficaz, e como comenta Fernandes Junior, temos a sensação de ver um filme.

Uma iconografia interessante acompanha os textos, como a reprodução de uma notícia publicada em 1975, na extinta revista Atualidades Cinótica. Nela, Becherini recebeu a primeira câmera fotográfica para reportagem, ou melhor, “a primeira máquina de reportagem”. Tratava-se de uma câmera francesa que usava chapas de vidro 13X18cm. A nota foi uma homenagem ao centenário de “O Estado de São Paulo”. Além da grafia do periódico estar errada, não informava a marca da tal máquina. Outras reproduções do jornal e imagens completam o prazer da observação, como por exemplo, uma imagem com anotações feitas pelo fotógrafo B.J.Duarte em 1942, na qual ele faz uma análise iconográfica.
Souza Martins argumenta que “Becherini conseguiu fazer fotos abrangentes da cidade que contêm, numa só imagem, uma variedade de sub-fotografias, de encenações, de histórias que se desenrolam paralelamente ao fluxo urbano propriamente dito”. Num prazeroso texto, o sociólogo tece uma outra trama em cima do que as imagens propõem, atestando a amplitude ilimitada de sua leitura imagética, ora em seu conteúdo completo, ora em seus cortes. Pequenas histórias, entre grandes histórias, que a poderosa sintaxe do fotógrafo é ainda capaz de estimular quase um século depois.
Aurélio Becherini
Edição CosacNaify-Secretaria Municipal de Cultura
Imagens de Aurélio Becherini
Textos de Angela Célia Garcia, Rubens Fernandes Junior e José de Souza Martins
Edição bilingue Português-Inglês.
Isbn- 978-85-7503-753-9
www.cosacnaify.com.br
* O lançamento do livro e exposição Aurélio Becherini: São Paulo em transição será dia 24 de janeiro de 2008, sábado, às 16h. Centro Cultural São Paulo, Rua Vergueiro, 1000.
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