Não é de hoje que a teoria fotográfica tenta estabelecer uma proposição disjuntiva do que é mais interessante numa imagem, além daquela estese que eventualmente ela pode provocar. Ao longo do século 20, e nesta primeira década do século 21, novos pensadores se alinharam aos mais antigos, subverteram ou sacramentaram o já mastigado e a tentativa de uma nova ordem epistemológica se estabelece, justificando a produção criativa bem como aquela sem nenhum vestígio de criação. Para efeito do entendimento do que é “criação” vamos usar o léxico: ato ou efeito de criar, de tirar do nada.
Há tempos, os produtores alinhados mais ao efeito do que ao conceito aprumaram uma sucessão de maneirismos, que parecem querer superar o classicismo renascentista na tentativa de se fazerem refinados, complexos ou extravagantes. Uma cultura figurativa ultrapassada que, em termos mais atuais, vem sofrendo ameaça daquela imagem mais simples, bem elaborada, sugestiva e que de certa forma permite a análise mais complexa - por quem a domina - de sua sintaxe. Ou seja, no caso da boa imagem há complexidade em sua simplicidade. Em oposição, não se faz uma boa imagem complicando seu entendimento. Este, para surtir efeito tem que ser direto.

Onde a água encontra a terra é o livro oriundo de uma exposição no Centro Cultural do Banco do Brasil em julho de 2008, de três produtores visuais: a americana Carol Armstrong e os brasileiros Fernando Azevedo e Leonardo Kossoy. O paulistano Paulo Herkenhoff, que já esteve à frente do Museu Nacional de Belas Artes e da Bienal de São Paulo, é o curador. O colecionador brasileiro Ruy Souza e Silva, além da coordenação editorial, escreve explicando que a diversidade biográfica dos três se constitui numa da razões estruturais do próprio projeto. Embora, os autores já tenham trabalhado juntos em exposição anterior, exibida no mesmo centro cultural, inclusive na sede paulistana.
Joaquim Marçal Ferreira de Andrade, autor do excelente História da fotorreportagem no Brasil. A fotografia na Imprensa do Rio de Janeiro de 1839 a 1900 (já comentado nesta coluna) e curador da divisão de iconografia da Biblioteca Nacional escreve um prefácio iluminado que abre caminho para o pensamento e análise de Herkenhoff: Ele propõe a expansão do raciocínio evocado pelo título, esclarece que o encontro ente a água e a terra não é sempre evidente nas fotografias, e alude à necessidade de uma discussão sobre a fronteira dos opostos. De uma maneira mais simples, propõe a leitura do mesmo como se cada imagem “contivesse um ou mais fios- e as pontas, as terminações desses fios, não estivesse necessariamente à mostra”. E, obviamente, deixa para o curador as explicações, por ser ele capaz de desemaranhar tais fios.

Como já adiantado no prefácio, Paulo Herkenhoff é realmente capaz de traduzir ao leitor, e assim o faz de maneira virtuosa e prazerosa, a evidente mas não menos subjetiva, criação dos três autores , embora a capacidade de comunicação deles fica patente, ora abdicando de comentários, ora se reforçando por tais. Na justificada iconografia, lança mão de paralelos com Leonardo Da Vinci (1452-1519), Kurt Schwitters (1887-1948), Paul Cézanne (1839-1906), Anna Atkins (1799-1871), Tiziano (1488-1576), até mesmo Lygia Clark (1920-1988), entre outros, num instigante diálogo.
No conjunto das imagens, o relacionamento nem sempre é claro, contudo esta tal objetividade não se faz necessária, e quando é, Herkenhoff faz a tradução. A formatação dá-se mais no plano conceitual, pontuada por imagens líricas inseridas num vasto espectro gráfico. Em sua compreensão mais detalhada estão os filósofos da imagem a ajudar. Em comum, os três partilham a proximidade com a pedagogia, a história da arte e com a filosofia que aborda a imagética. Excetuando Kossoy, que produziu suas imagens entre o Brasil, Grécia, França, Itália e Espanha, os demais assim fizeram nos Estados Unidos, com Carol Armstrong incluindo três imagens produzidas em São Petersburgo e Londres.

Não há dúvida que na platéia estarão aqueles que torcerão o nariz para certas cenas, expurgando-as de uma leitura de profundidade compatível aos seus caros diplomas. Também surgirão aqueles que só enxergam conceitos em proporções monumentais, como algumas destas imagens foram expostas. Na verdade, apenas algumas imagens (as de Leonardo Kossoy) estavam em grandes ampliações, contudo nem tão monumentais assim, perto do que se tem visto. Mas, por certo existem aqueles que enxergarão as mais “simples” delas como formas reveladoras de uma discussão. Com efeito, para muito além daqueles momentos fronteiriços que propõe acertadamente Ferreira de Andrade.
Onde a água encontra a terra
Imagens de Carol Armstrong, Fernando Azevedo e Leonardo Kossoy
G. Ermakoff Casa Editorial
Textos de Joaquim Marçal Ferreira de Andrade, Ruy Souza e Silva e Paulo Herkenhoff, Carol Armstrong, Fernando Azevedo e Leornardo Kossoy
Isbn- 978-85-98815107
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