Juan Esteves

EMERGENTES - 14/01/09
Mineiro de Belo Horizonte, Érico Hiller nasceu em 1976. É um profissional da fotografia há apenas cinco anos e optou pelo documental praticamente ao longo deste mesmo tempo. Montou sua base em São Paulo, de onde partiu para nada menos que vinte países de todos os continentes, coletando imagens para suas histórias.

Emergentes, seu segundo livro, foi publicado no final de 2008 e traz o registro de três anos no Brasil, Rússia, Índia, China, Argentina e México. Trabalho de cunho épico - diante do monumental contraste social e ambiental - no entanto em sua complexidade traz também uma visão autoral e mais íntima do povo registrado. De uma certa maneira, a obra contrapõe o que estamos preparados para acreditar e o que nós deveríamos acreditar.

Em sua forma mais ampla, Emergentes não traz um discurso político ao estilo Salgadiano mais clássico, do crédito ao humanitário, na esperança do despertar da consciência. A visão de Hiller é mais cética, mais crítica. Ora nos leva à máxima do quintal terceiro mundista, sem salvação, ora nos aproxima de um idealismo, sem cair no panfletário. Deixa que o leitor tire suas próprias conclusões.



Discursos à parte, a única coisa que não existe na alentada publicação de quase 300 páginas é o vazio. Ela é completa, repleta de opções que transitam pelo detalhe e pela visão mais cosmológica. Neste viés estão os retratos mais próximos em oposição às imagens que retratam o homem em sua ínfima dimensão. Podem ser pedestres em contraste com edifícios altíssimos em Xangai, na China, ou indianos jogando futebol em meio a enorme favela, em Cacutá, na Índia.

Propositalmente a comparação entre os países é realçada na edição: o trem mais rápido do mundo, em Xangai, está ao lado da velha estação de Mumbai, na Índia. Inclusive, o autor lança mão do recurso entre o antagonismo da cor e do monocromatismo; entre a pujança industrial e a fragilidade do trabalho manual e arcaico; das pequenas moradias opostas aos edifícios hightech.



Os textos estão em português e inglês, e são do próprio fotógrafo, que procurou também expressar o desenvolvimento e a sustentabilidade, palavras tão em moda. Para ele, a busca era responder o que muitos vêm tentando: como é viver num país emergente? Até porque, o mesmo vive em um deles. Hiller conta o que pretendia com o livro : "(...) Fazer com que o leitor enxergasse o que tem de comum com eles. E também fazer com enxergasse para além deles, imaginando suas vidas, seus sonhos, amores e as dúvidas sobre o futuro que lhes tiram o sono.” Em seu blog, ele registrou que não conseguia descrever em palavras a “loucura” de estar debruçado por mais de um ano sobre o tema, como ele mesmo escreve, poeticamente: “Da aurora ao crepúsculo”.

Poeticamente também, seus desejos sobrepõem certas realidades. É o caso das imagens brasileiras, principalmente aquelas cujo grafismo é tratado com muita habilidade, e contém uma certa glamurização estética. Não se trata de uma pretensão farisaica, mas de evitar aquele azedume latente, que está impregnado em publicações semelhantes ou em pseudodocumentários. Da mesma forma, cede, eventualmente, esta leitura aos demais, quase por uma questão igualitária.



O artista plástico espanhol Pablo Palazuelo (1916-2007), dizia que trabalhava com a matéria, que para ele era energia. O fotógrafo, de certa forma faz o mesmo, busca em seu repertório uma energia em meio ao caos contemporâneo. Aquele que pode ser melhorado e aquele que não tem mais cura. Não se trata de uma visão cândida do futuro, mas sim de propor um crédito à humanidade.

Nesta intenção explícita de um registro documental puro e a sua interpretação mais autoral, está um dos mais belos livros publicados nos últimos anos. Sua habilidade em unir técnica fotográfica e composição o destaca dos demais. Pela sua juventude e pouco tempo de trabalho, poderia ser mais uma promessa, no entanto Érico Hiller mostra hoje o que é capaz de fazer.



Emergentes Brasil Argentina China Índia México Rússia
Imagens e textos de Érico Hiller
Patrocínio: Gerdau, com incentivo do PAC-Secretaria de Estado da Cultura e Governo de São Paulo.
ISBN- 978-85-907704-1-1
www.ericohiller.com.br

Juan Esteves
Juan Esteves é fotógrafo e crítico de fotografia. juan_esteves@hotmail.com
colunas anteriores
 


RSS:
RSS 0.91
RSS 1.0
RSS 2.0
Parceiros:

Realização: