A região Amazônica, na porção brasileira ou em suas vastas fronteiras, é um lugar, ou melhor, são vários lugares, que sempre surpreendem. Ainda temos tanto para conhecer sobre sua diversidade, que as publicações, em suas diferentes versões, parecem não esgotar as surpresas num repertório heterogêneo que, muitas vezes, trafega pela informação e pela arte, e neste caso pelas duas simultaneamente.
Dois veteranos da região, o fotógrafo Araquém Alcântara e o médico Drauzio Varella, juntaram-se para mostrar aos leigos o que é realidade e o que é ficção, dentro do que talvez seja o maior e mais importante espaço florestal deste planeta. Contudo, escolheram um detalhe significativo: o Alto Rio Negro, onde se debruçam cada um no seu metiê . Varella no início localiza a região: “Pegue o mapa do Brasil, olhe para esquerda, no extremo noroeste do estado do Amazonas. O contorno da fronteira com a Colômbia e Venezuela não desenha uma cabeça de cachorro?” Na imagem da capa, uma criança da etnia baníua, já é uma prévia do belo conteúdo imagético.

Mas, como a preparar o leitor, “Cabeça do Cachorro” - um dos três livros que o fotógrafo brasileiro está lançando simultaneamente – começa com uma série de belíssimas litografias e desenhos extraídos de importantes tomos que estão depositados na Fundação Biblioteca Nacional, entre eles, a “Expedição Filosófica”, do português Alexandre Rodrigues Ferreira (1756-1815); “Tipos indígenas da Bacia Amazônica”, do alemão Theodor Kock-Grunberg (1872-1924) e “Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil”, do francês Jean Baptiste Debret (1768-1848), que emolduram o texto de Varella, com a participação do cientista social e roteirista Jefferson Peixoto.
Com um preâmbulo tão refinado, as imagens de Araquém Alcântara não poderiam deixar de beirar o extraordinário, a começar pelo reforço da impressão e do papel utilizado. O projeto gráfico sem maiores ousadias, garante a individualidade de cada fotografia, cujo tratamento foi impecável. A predominância é do chiaro-scuro, até mesmo quando o fotógrafo trata da fauna, que, assim como outros de seus personagens, já habitaram algumas de suas edições anteriores.

A edição fotográfica contempla uma paleta generosa que caminha mais para o dinamismo, evitando assim a monotonia. As tomadas aéreas surgem mais recentes, com desenhos que fazem contraponto perfeito com as imagens do solo. Rios se transformam em grandes e sinuosas serpentes quando vistos do alto, raízes se transmutam em gravuras e relevos separados pela terra ou pela água do rio.
A parceria entre o médico e o fotógrafo também cria momentos inusitados. Enquanto as imagens caminham para o lirismo, com cenas do rio e seus pequenos barcos; pescadores e crianças remando, Varella escreve sobre a pobreza da água. Segundo o médico, as águas do Rio Negro são ácidas e pobres em contraposição ao seu volume. Ele também comenta que apesar de existirem mais de 700 espécies de peixes, uma das maiores diversidades do mundo, o número de indivíduos de cada espécie é relativamente pequeno.

Muitas pessoas estão envolvidas no trabalho social do Alto Rio Negro. Varella credita a maior parte da assistência médica ao Exército. Os atendimentos são feitos pelos pelotões de fronteira e alguns hospitais são administrados também por eles. Contudo, alerta o infectologista, a situação ainda é precária nas comunidades ribeirinhas. Entre estas e outras análises, o prazeroso texto promove um certo refresco, por conter também um viés histórico, descrevendo as primeiras missões jesuítas e salesianas, o comércio da borracha ou excertos de naturalistas importantes.
Alcântara em muitas oportunidades usa seu talento para criar um amálgama entre a visão macro e aquela mais detalhada. Ao mesmo tempo, em que mostra a dolorosa vida do ribeirinho, lhes dá uma dignidade rara. O rosto da mulher “curipaco” que rema com a canoa carregada não espelha fraqueza, e sim, altivez. As crianças que se iniciam no remo já se mostram confiantes, e como muitas outras, estão integradas na natureza peculiar. Imagens fortes, pontuadas pelo seu repertório infinito de aves com suas cores e olhares espantosos.
Cabeça de Cachorro
Imagens de Araquém Alcântara
Textos de Drauzio Varella
Editora Terra Brasil
ISBN- 978-85-89423-10-6
Lei de Incentivo a Cultura- Patrocínio Grupo Qualicorp,
Apoios UNIP e da Prefeitura de São Paulo.
www.terrabrasilimagens.com.br
www.araquem.com.br
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