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Marcelo Greco
Ser vadio, ser Fotógrafo. - 17/07/03 |
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Neste período que estou vivendo na Europa realizando um projeto em Portugal me propus, em paralelo ao trabalho, a ser um vadio: passear pelas ruas, perambular e fotografar o meu cotidiano pelo velho continente. Sem preocupações, compromissos ou regras, aliás com uma única regra, a do prazer. E quem disse que vadiagem não é bom? Não sei, mas certamente é/foi algum censor de costumes, o que não falta neste mundo.
Grandes descobertas. Lições estavam por vir. São justamente estas impressões que apresentarei a vocês leitores.
Vamos à primeira das experiências: a descoberta de SER CIDADÃO e poder vadiar.
As ruas, praças, parques, áreas de lazer, meios de transporte, concessões públicas e tudo que se encaixa neste conceito, pertencem a nós, cidadãos. Portanto podem e devem ser usufruídas da maneira que convém, com civilidade, educação, respeito pelo próximo e liberdade. Tudo isto com nossa companheira (no meu caso minha Leica M6) a tiracolo, registrando aquilo que agrada.
Infelizmente isto no Brasil não existe. Quem já tentou fotografar em um destes locais no nosso país sabe muito bem o que isto representa. Uma busca cansativa por autorizações em departamentos burocráticos ou ser barrado por mastodontes vestidos de preto nos impedindo de ser livres com afirmações do tipo: “aqui não se pode fotografar!”. Tentar fotografar em frente a um banco ou um centro comercial, calçada de alguém, metrô, ônibus, enfim, é terrível. Exemplos próprios e de amigos é que não me faltam. Muitas vezes só apresentando sua credencial de jornalista e com muita conversa é que se consegue alguma autorização. A justificativa: segurança ou local privado!!
Alguns podem dizer, mas e a violência? Claro, esta é um fator limitador. Correr o risco de caminhar pelas ruas e ser assassinado por ter uma máquina a tiracolo é de se questionar. No entanto este problema é conseqüência, para mim, do mesmo mal.
E qual é este mal, esta doença ? O Brasil ainda não descobriu a cidadania. Ainda estamos, apesar de tantas evoluções, em um país feito para poucos. Sendo estes os responsáveis por determinar à população quais as suas posições, os locais a freqüentar ou como fazê-lo.
Não poder caminhar e fotografar livremente aquilo que nos interessa e, somente fazê-lo mediante a apresentação de uma carteira de jornalista é um caso. Mas atenção, este vale como exemplo nos dois sentidos do questionamento.
Vivendo na Europa, que tem lá suas vantagens, mas muitas e incontáveis desvantagens, me deparei com este sentimento. Neste sentido, da vadiagem fotográfica a que me propus, sou mais cidadão aqui do que no meu país. E isto me entristeceu! Me fez pensar.
A fotografia é uma profissão para mim e para tantos outros, mas também é uma paixão, um prazer e um direito como cidadão.
Seja, ao menos uma vez por semana, um vadio. Faça mais, lute por esse seu direito.
Veja discussão semelhante no www.zonezero.com (Espanhol e Inglês). |
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