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Aquele menino que escutava o rap dos Racionais MC’s
não imaginava os frutos que seu gosto pela aquela
música “porrada” iria lhe render. João
Wainer, 29, o vencedor da BOLSA FNAC/FOTOSITE DE FOTOGRAFIA,
tinha 16 anos quando o escutou pela primeira vez o grupo
comandado por Mano Brown e decidiu transformar aquela
realidade dura e versada em fotografia. “Aquela
música era cinema puro”, comenta. E começou
a fotografar, desprentensiosamente, o universo de três
rappers da primeira geração do movimento
hip hop brasileiro: o próprio Mano Brown, dos Racionais,
que poetiza sobre o cotidiano violento da periferia paulistana;
MV Bill, carioca nascido e criado na Cidade de Deus, que
canta o dia-a-dia das favelas cariocas; e Dexter, preso
desde 1997, que denuncia as mazelas do sistema carcerário.
O tempo foi passando, João foi se consolidando
com um dos principais fotojornalistas brasileiros e o
tema que ele havia escolhido para seu ensaio autoral só
foi crescendo e ganhando evidência. O próprio
João admite: “enquando houver desigualdade
social no Brasil, eu tenho o que fotografar. Por isso
Marginália é infinito”. |
Atualmente, o herdeiro do clã Wainer (ele é
filho da artista plástica Pink Wainer e neto de Samuel
Wainer e Danusa Leão), acabou de sair de uma bem sucedida
carreira de dez anos na Folha de S. Paulo e dirigiu a fotografia
da série de documentários sobre o cantor Chico
Buarque. O ensaio foi selecionado, entre os 12 finalistas,
por um júri de dez especialistas, no ultimo dia 23
de setembro: os curadores Diógenes Moura, Rosely Nakagawa
e Rubens Fernandes Júnior; os fotógrafos Alexandre
Catan, Cris Bierrenbach e Lalo de Almeida; o publicitário
Gabriel Zellmaister; o editor João Bittar; os sócios
do Fotosite Marcelo Soubhia e Pisco Del Gaiso; e a diretora
de cultura e comunicação da Fnac, Martine Birnbaum.
“Eu me norteei por pessoas que tem trabalhos quase prontos.
Gosto de trabalhar com os quase. O João, pela maneira
que montou o ensaio e apresentou o projeto, mereceu a BOLSA”,
comenta Rosely Nakagawa.
Outros dois ensaios chamaram a atenção do júri,
dos fotógrafos João Kehl, com Beira-Mar, documentário
sobre a pequena vila de Caraíva, na Bahia, e Patrícia
Kitamura, autora de PRO(lou)CURA-SE, que usou peças
de roupa como memória e lembrança de seus “retratados”,
receberam uma menção honrosa. “Os 12 fotógrafos
selecionados pelo comitê são de alto nível
e muito promissores. O trabalho para escolher um nome não
foi fácil. Alguns projetos, já com seu caminho
definido, foram excluídos por já terem recebido
méritos em várias instâncias e, para o
júri, não precisarem de mais incentivos para
continuarem”, comenta Marcelo Soubhia, coordenador da
BOLSA. Segundo João Bittar, a grande virtude do trabalho
de João Wainer é o registro de uma cultura que
está ignorada na mídia; é uma população
que não aparece, a não ser nas páginas
policiais ou na literatura marginal. “E esse tipo de
assunto é fundamental para entender o país”,
finaliza. A BOLSA chega a seu final. Agora, cabe a João
desfrutar dos R$ 12 mil a que tem direito em produtos nas
lojas Fnac e aproveitar sua viagem para a França.
MENÇÕES HONROSAS:
Patrícia
Kitamura PRO(lou)CURA-SE
Pós-graduanda em fotografia no Senac e formada em moda
pela Santa Marcelina, Patrícia Kitamura mesclou suas
duas especializações – e paixões
– no ensaio PRO(lou)CURA-SE. As roupas servem como a
memória de seus “retratados”. A fotógrafa
teve a preocupação de mostrar classes sociais
diferentes, bem como épocas distintas, fotografando
roupas de sua avó e vestimentas modernas. “Minha
vontade era sair pelas ruas atrás de pessoas que quisessem
ser fotografadas pelas suas roupas”, comenta Patrícia.
João
Kehl BEIRA-MAR
O fotógrafo João Kehl, da Cia. de Foto, procurou
documentar as transformações sociais e culturais
da pequena vila de pescadores do sul da Bahia, Caraíva.
Até o final dos anos 70, essa comunidade estava intocada,
sobrevivendo apenas do extrativismo local. Até hoje
o lugar não tem luz elétrica, mas o turismo
invadiu a região pesadamente, alterando o estilo de
vida de muitos moradores. “Meu enfoque está no
resgate de uma cultura que aos poucos está desaparecendo”,
finaliza João
CONHEÇA OS OUTROS FINALISTAS:

TRIO DE MINAS Desde 2002, os fotógrafos belo-horizontinos
João Castilho, Pedro David e Pedro Motta visitam a
região da Usina Hidrelétrica de Irarapé,
no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, para registrar
o desaparecimento das comunidades ribeirinhas tiradas de suas
terras para a construção de um lago na barragem
no local. No total são mais de mil famílias,
distribuídas em sete cidades, que podem sofrer com
a construção. O trabalho a seis mãos
se transformou em um grande dossiê documental, que os
três fotógrafos assinam juntos, e já rendeu
algumas exposições e um site, o www.paisagemsubmersa.com.br.
A intenção do trio, ao pleitear a BOLSA, é
para reunir condições para continuar o projeto,
ou seja, documentar as condições das famílias
já em outro lugar, fora das comunidades ribeirinhas
de Irarapé. O dilema será, caso eles ganhem
o concurso, saber quem irá para a França.

LUCAS PUPO A convite do médico e escritor
Drauzio Varella, o fotógrafo Lucas Pupo foi fotografar
o Carandiru, o ex-maior presídio da América
Latina, implodido em 2002. As fotos viraram o trabalho Arquitetura
da Destruição, que garantiu a Lucas uma
vaga entre os finalistas da BOLSA FNAC/FOTOSITE. “O
trabalho demonstra a arquitetura carcerária e traços
da conduta de detenção utilizada no país.
É um assunto atemporal”, comenta Lucas. A idéia,
caso ele seja o vencedor da BOLSA, é desenvolver uma
exposição com ampliações em 60x60
cm das fotografias, com água e bolachas de água
e sal na vernissage, como os lanches que eram servidos aos
presidiário do Carandiru. Outra intenção
é espalhar cartazes lambe-lambe pela cidade divulgando
a exposição, e, depois de montada, levar a mostra
para outras cidades brasileiras.

DING MUSA Questionar os elementos da fotografia.
Basicamente, essa é a proposta do trabalho do fotógrafo
Ding Musa. Nesse ensaio, Cidade, ele levanta suas
dúvidas na maneira como as cidades – leia-se,
as suas paisagens – são representadas. “Questiono
o referente necessário para a construção
de uma imagem fotográfica na representação
da cidade”, explica. A pesquisa desse trabalho teve
início em 2001 e já passou por diferentes paisagens:
Rio de Janeiro, São Paulo, Londres; em suportes distintos:
filme, digital, colagens e película de cinema. “Ao
longo do projeto, procurei levantar questões do processo
de reconstrução da cidade”, conclui. Com
a BOLSA, Ding pleiteia continuar seu projeto, abranger a pesquisa
com mais elementos e transformar o resultado em uma exposição.
É a metalinguagem da fotografia a serviço do
registro da cidade.

JOÃO PENONI Literalmente
um fotógrafo do circo. João Penoni, 21, estudante
em comunicação visual e ex-participante de cursos
de acrobacia, misturou suas duas motivações,
fotografia e circo, no trabalho acroGRAFIA FOTObacia, um estudo
fotográfico do corpo a partir de técnicas de
acrobacia. Agora entre os finalistas da BOLSA, ele pretende
“investir em uma infra-estrutura que dê suporte
ao desenvolvimento do estudo apresentado... de onde sairão
as matrizes para uma futura exposição”,
diz, caso seja escolhido como o grande vencedor. João
foi o executor e o modelo das fotos, que foram realizadas
em uma barra de ferro colocada na porta do seu quarto, à
contraluz, e mostram o momento síntese de uma acrobacia.
Os cliques eram disparados por timer. O objetivo, diz João,
“é usar o corpo como pincel e pintar formar através
da luz”.

JOÃO FRANCISCO MARIANO
O Tempo tem uma presença muito forte no trabalho do
fotógrafo e web designer João Francisco Mariano,
27. Em 2004, ele fez parte da mostra coletiva São Paulo
um Caso de Amor, 450 Pontos de Vista, do laboratório
Tangran, com uma foto chamada Tempo. Agora, o oitavo
finalista da BOLSA apresenta São Paulo Pulso Cidade,
com imagens de paisagens em movimento, feitas em longas exposições.
O título de cada foto é dado pelo nome do lugar
onde foi clicada, mais a hora e o tempo de exposição,
por exemplo: Líbero Badaró 12h12'54”+1”.
João se inscreveu na BOLSA com o objetivo de aumentar
o projeto. O primeiro passo seria a criação
de um website para escolher e conceituar os temas. Depois,
pretende clicar 288 imagens, divididas em 12 temas, com 24
fotos sequenciais feitas em intervalos de 1 hora cada. “O
resultado será o registro em preto e branco da beleza
e da força da luz natural, em 12 horas à luz
do dia, e em cores, sobre o erotismo da luz artificial, em
12 horas às luzes da noite”, finaliza João.
FABIO
OKAMOTO A cidade é o tema central do
trabalho Espaços Intersticiais, do fotógrafo
Fabio Okamoto. “Procuro por espaços comuns, e
tento desvendar o cotidiano escondido pela cegueira do dia
a dia”, comenta. Esse projeto é uma continuidade
de Metáforas Visuais, de 2002, mas agora com
suporte digital. A intenção é variar
entre as duas linguagens e, ao mesmo tempo, exaltar as qualidades
de cada um. Fabio costuma trabalhar bastante com as imagens,
seja no ampliador ou no Photoshop. “Criar uma identidade
visual significa um trabalho de exploração e
associações contínuas com outras linguagens,
como literatura, desenho e arquitetura”, comenta. Caso
ganhe a BOLSA, Fabio prentende
dar continuidade à pesquisa, com mais elementos da
fotografia digital, para montar uma exposição
e publicar de um livro. Formado em arquitetura pela FAUUSP,
Fabio já participou da exposição do Prêmio
Porto Seguro em 2003 e integra o acervo do MAM, entre outros
feitos.
GABRIELA
CRISTINA SLAVIERO Tornar um sonho em realidade,
literalmente, foi o que motivou a fotógrafa de 26 anos
a desenvolver seu projeto, O Jardim Onde Ela Brinca Escondida.
Depois de sonhar com meninas com cabeças de travesseiro
brincando em um jardim, Gabriela começou a produzir
o ensaio, com cromo invertido para obter cores saturadas e
contrastes que dessem a idéia de sonho. “O universo
do onírico e do lúdico são temas sempre
presentes nos meus ensaios pessoais. É minha fuga do
mundo real”, diz ela. A fotógrafa pleiteou a
BOLSA FNAC/FOTOSITE para começar
um outro projeto, intitulado 35 mm, uma revista em
formato pocket que funcionaria como um portfólio e
uma exposição ambulante. Caso seja a vencedora,
Gabriela vai colocar outros três ensaios no projeto,
todos seguindo a mesma linguagem das fotos apresentadas neste
ensaio. Atualmente, ela fotografa bandas e a BOLSA
foi mais um estímulo para ingressar de vez no universo
da fotografia.
ALEXANDRE
ÓRION Questionar de forma sutil e inquietante
o limite entre a ficção e a realidade, tanto
do ponto de vista formal quanto conceitual. Esse é
o objetivo do fotógrafo e artista plástico Alexandre
Órion, 25 anos, um dos selecionados para a BOLSA
FNAC-FOTOSITE DE FOTOGRAFIA. Em seu projeto, Metabiótica,
ele instala grafites com figuras como a de uma mulher com
lingerie ou a de um homem voando, em locais movimentados de
São Paulo. Depois disso, fotografa as reações
das pessoas diante das cenas. “É aí que
está a provocação”, explica Alexandre.
“As pinturas, as pessoas e os cenários existem
de verdade, não foram manipulados, estão ali
diante da câmera.” Iniciado com recursos próprios,
o projeto já conta com 16 imagens produzidas e foi
exposto recentemente na Pinacoteca do Estado de São
Paulo. Caso seja o vencedor, o fotógrafo pretende usar
o dinheiro da BOLSA para completar o trabalho. Segundo a idéia
do autor, embora cada imagem tenha um discurso próprio,
o conjunto deve contar uma história, como se fosse
uma peça de literatura fotográfica.
MELINA
RESENDE A fotógrafa
Melina Resende, 20 anos, entrou na seleção da
BOLSA FNAC-FOTOSITE DE FOTOGRAFIA
graças a um projeto ousado. Nos últimos tempos,
ela vem realizando ensaios fotográficos com prostitutas
de São Paulo. “Essas profissionais do sexo estão
no imaginário das pessoas, principalmente no dos homens,
que as vêem como mulheres degradadas, mundanas e de
má vida”, afirma Melina. “Por isso escolhi
retratá-las de uma forma sensual e bonita”, completa
ela, que está em busca de recursos para concluir e
divulgar o projeto. Melina começou a desenvolver o
ensaio no trabalho de conclusão de curso de fotografia
do Senac. No momento, ela está cursando o 8º semestre
do bacharelado em fotografia pela mesma instituição.
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