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RETRATO DO HOMEM NU

por Fernanda Salles

Depois de clicar os contornos femininos à exaustão, a fotografia ocidental contemporânea redescobre o nu masculino.

O assunto certamente não é novo: peito, bíceps, pernas, nádegas, pênis... A nudez do homem frente às câmeras remonta ao descobrimento da fotografia, em 1839, e teve cada centímetro explorado com arte e técnica modernas por profissionais como Robert Mappletorphe, Bruce Weber e Herb Hitts.

A novidade neste território, velho conhecido do público gay, é nada mais nada menos que o olhar feminino. Incentivada pela mídia, a mulher assume sua libido e admite de vez seu apreço pela imagem do homem nu - como consumidora e profissional de fotografia. É pelos olhos desta última que o homem descobre um novo homem.

Arte ou consumo, libertação ou revanche, a ascensão do nu masculino na fotografia contemporânea pode ser encarada como reflexo da luta pela igualdade de direitos de homens e mulheres. E isto pode resultar em uma nova forma de olhar, pensar e agir. Esperemos que mais justa, bonita e prazerosa - para ambos os sexos.


Tamanho não é documento

No Brasil, há cerca de um ano a revista Íntima, passou a oferecer à suas leitoras imagens de homens nus clicadas apenas por mulheres. Em maio último, a publicação viu sua edição de 160 mil exemplares esgotar-se em menos de um mês. Trazia um ensaio com o galã global Humberto Martins, assinado pela fotógrafa Maristela Martins, de 34 anos.

Olhos fechados, peito nu, a boca entreaberta e finalmente... o nu frontal. Mas - surpresa das surpresas - sem ereção. "Antes, a mulher que quisesse ver homens em poses sensuais tinha de recorrer a revistas gays", conta a fotógrafa Maristela, com a experiência de quem fez quase todas as capas da Íntima de um ano para cá. Para ela, a sensualidade masculina não reside no membro sexual masculino. "As mulheres são românticas. Apreciam a nudez mas não querem a imposição do falo", afirma.

Embora nada impeça as mulheres de consumir revistas gays e vice-versa, o estado do órgão sexual do homem é, basicamente, o que diferencia os dois tipos de publicação. Ao contrário das revistas femininas, as gays procuram satisfazer a fantasia de seu público com imagens de homens com membros avantajados e - importantíssimo - sempre eretos. O favoritismo é facilmente verificado nas seções de cartas, para onde os leitores escrevem pedindo ensaios com modelos bem dotados.

O editor da G Marcos Brandão diz que não dá para quantificar o número de mulheres leitoras que lêem a revista, já que não foi feita nenhuma pesquisa sobre o assunto. "A revista é dirigida para os gays mas sabemos, por cartas que nos chegam, que temos muitas leitoras.

A despeito da pouca idade, a fotógrafa Alessandra Levtchenko, de 25 anos, é uma das profissionais mais requisitadas para ensaios de nu masculino em revistas femininas e GLS (sigla para Gays, Lésbicas e Simpatizantes). Ela conta que a ereção é exigência prevista em contrato por revistas como a G Magazine. "A diferença é o pinto: na G duro, na Íntima, mole", revela Alessandra, que tem no currículo ensaios com os atletas Robson Caetano e Alexander Lenz, e o ator Alexandre Frota.

O homem diz sim

Se as mulheres são as grandes responsáveis pela recente valorização da imagem masculina na mídia, como consumidoras e profissionais, o que os homens têm a ver com isso? Tudo, afinal de contas, finalmente se permitiram tirar a roupa.

Despir-se, ainda que com um "empurrãozinho" da mídia ($$$), significa expor-se, mostrar-se. Ponto para quem deixa os preconceitos de lado e reconhece seus direitos e vontades.

O ator e modelo Créo Kellab , por exemplo, aceitou o convite da GMagazine "em parte pelo dinheiro, mas também para satisfazer a vontade de uma namorada" (ele não revela a soma envolvida na transação). Heterossexual convicto, Créo conta que a princípio achou a tarefa fácil, pois é ator. Mas à medida que a data do ensaio se aproximava, ele ficava ansioso. Pensava na família, na equipe de fotografia (na frente da qual teria de conseguir uma ereção), nos amigos. Na véspera, não dormiu.

Os pioneiros

Hoje quase ninguém se assusta (muito) com a exposição da nudez de famosos em ensaios fotográficos, mas, em 1972, o ator Burt Reynolds escandalizou a pudica sociedade dos EUA ao mostrar-se "em pêlo" na tradicional revista Cosmopolitan. O ensaio abriu espaço para a liberação do homem na mídia. Trinta anos depois, astros como Dennis Rohdman (basquete) e Arnold Swcharzneger (cinema) posam nus sem se preocupar se terão a virilidade questionada por isso.

No país do carnaval, que criou o biquíni e se mostra liberal quando se trata de expor o corpo das mulheres, a coisa demorou um pouco mais a acontecer. Em 1979 a então principiante fotógrafa Vania Toledo sacudiu a opinião pública com a publicação do livro/ensaio Homens, com nus de Ney Matogrosso, Caetano Veloso e Walter Franco, entre outros amigos da fotógrafa.

O tema surgiu da inquietação de Vania quanto à inexistência de trabalhos similares no país. Para ela, as formas masculinas são mais plásticas que as femininas e o que havia até ali era dirigido ao público gay. "Queria estudar o comportamento masculino: como agiriam - nus - diante das câmeras", questionava-se. Em 1996, repetiu a dose e lançou o calendário Entre lençóis. "Nada me emociona mais que o corpo de um homem completamente nu diante do meu olhar", define ela na abertura do ensaio.


Eles por elas

Alessandra Levtchenko

Com 25 anos e dois filhos, fotografa profissionalmente desde os 17. Faz nu masculino porque gosta, porque aprendeu com o marido, Fernando Bagnola, também fotógrafo. "Ele prefere as mulheres", diz. Uma de suas fotos mais conhecidas mostra um índio nu, à luz do dia, em plena avenida Paulista, e integra o livro A imagem do som de Caetano Veloso, editado pela Livraria Francisco Alves Editora, em 1998. "A foto foi feita às 11 horas da manhã. Fizemos rapidinho e saímos correndo", diverte-se. Embora seja bastante requisitada para ensaios de nu, seu trabalho não se restringe ao tema. Faz capas de CDs (Jota Quest, P.U.S., Max Cavalera), show, moda e tudo o mais que pintar.

Câmera: Pentax 6 x 4,5
Gosta de foto de estúdio e externa
Gosta de preto e branco e cor
Gosta de formatos grandes
Gosta de Herb Hitts, Bruce Weber e Bob Wolfenson

Depoimento: todo mundo nu

"Fizemos o ensaio pra GMagazine numa praia de nudismo, em Santa Catarina. Parecia que ia ser fácil. O Alexander Lenz (campeão brasileiro de jet ski) transa bem a nudez, posa super à vontade. Chegando lá, só podia entrar se tirasse a roupa. Tope, né?. A pessoa vai ser fotografada nua, está totalmente entregue ao fotógrafo e à equipe, que confiança eu poderia inspirar se não fôsse capaz de fazer isso também? A equipe toda tirou a roupar. Depois, começou a juntar gente e os seguranças vieram pedir pra nós sairmos. Nos deslocamos pro canto da praia mas alguns caras ficaram observando o ensaio e se masturbando. Por causa disso, fomos convidados a nos retirar."

 

Maristela Martins

Nitidamente romântico, seu trabalho transpira feminilidade. Talvez por isso mesmo tenha sido escolhida para fazer quase todas as capas da revista Íntima na nova fase de nu frontal. Autodidata, tem 34 anos e 15 de carreira. Clicou o artista global Humberto Martins e o pagodeiro Waguinho, entre outros. Morou em Nova York, o que acredita ter sido fundamental para enriquecer a cultura visual. Separada, conta que teve um relacionamento interrompido devido à incompreensão do parceiro diante da atividade. "Um cara comum, de cabeça quadrada, não consegue entender a mulher diante de um homem nú que não seja ele próprio", revela. Dona do próprio estúdio, não faz exclusivamente nus mas no momento dedica-se de corpo e alma ao tema.

Câmeras Pentax (para formatos grandes e Nikon, para pequenos)
Prefere a fotografia P&B
Prefere fotografar em estúdio
Gosta de JR Duran, Mapplethorpe e Sebastião Salgado

O nu me escolheu

"É engraçado, as imagens me vêm à cabeça sem querer, não raro quando estou dirigindo. A primeira vez foi durante umas férias em Porto Seguro. Era fim de tarde e vi um homem a cavalo - uma cena viril, sensual. Tive vontade de fotografá-lo nu mas não rolou. Quando voltei pra São Paulo conheci, sem querer, o gerente do clube das mulheres, que acabou me indicando um modelo que fazia nu. Meu primeiro trabalho era um ensaio que contrapunha a virilidade de um homem à delicadeza de legumes e temperos. Levei o ensaio à revista Íntima que imediatamente o publicou, na primeira edição com nu frontal. Acho que o olhar feminino é bem diferente do masculino, mais delicado e sutil. Tenho uma tia de 94 anos que adora ver meus trabalhos com homens nus e eu gosto de saber disso."

 

Vania Toledo

Em 1979 ela sacudia a opinião pública brasileira com a publicação do livro/ensaio Homens, com nus de Ney Matogrosso, Caetano Veloso e Walter Franco, entre outros amigos, artistas ou não.

O tema surgiu da inquietação da fotógrafa quanto à inexistência de ensaios similares no país. Na sua opinião, "as formas masculinas são muito mais plásticas que as femininas". Ao fotografar homens nus Vania quis estudar o comportamento masculino: "como se comportariam diante das câmeras?", perguntava-se. Em 1996, repetiu a dose produzindo e fotografando o calendário Entre lençóis. "Nada me emociona mais que o corpo de um homem completamente nu diante do meu olhar", define ela na abertura do ensaio.

Formada em sociologia, Vania é fotógrafa autodidata. "Meu trabalho quer mostrar o homem através do olhar feminino e parte do seguinte princípio: eu, Vania, autora, mulher, gosto de ver o corpo do homem."

Câmeras Nikon para 35 mm

Pentax para 120 mm

Gosta da escola inglesa de fotografia
Cita Richard Avedon e George Love


O homem vê o homem

O fotógrafo e pintor Gama Jr. define seu trabalho como arte. "No meu trabalho o que importa é a estética", explica. Em 1997, suas fotos integraram a exposição L'Homme at home, que percorreu a história da fotografia do nu masculino do começo do século aos dias de hoje.

C. Gama Jr.

Artista plástico, arquiteto e fotógrafo, começou a fotografar com 15 anos. No começo da década de 80 foi para os EUA, onde se formou em fotografia pela University of South Alabama, em Mobile, e participou da exposição L'Homme at Home - photographys of male nudes, 19 th centurty to the present (algo como O homem à vontade, fotos do nu masculino, do século 19 aos dias de hoje) na Throck Morton Fine Arts, em Nova York.

Gama Jr. adotou o nu masculino como tema influenciado pelos fotógrafos de moda que passaram a valorizar o corpo do homem em campanhas publicitárias, a partir dos anos 80, e pelos movimentos gays. Em 1989 transferiu-se para Paris, onde teve trabalhos publicados nas revistas Lui, Elle e Puisson. Em 1994 voltou para o Brasil e abriu um estúdio em São Paulo. Seu trabalho não se restringe ao nu. Tem fotos publicada pelas revistas Playboy, Sexy, Vogue, Manequim e A&D.

Gosta das câmeras antigas Leica e Panorâmica Lux
Prefere P&B (cor, com interferências)
Gosta de estúdio e externa
Gosta de Robert Mapplehtorpe

Força no olhar

"Não gosto da maneira como as mulheres fotografam os homens, acho que elas não conseguem captar sua força, no sentido viril da palavra. A fotografia é ditada pelo desejo do olhar - e o dos homens certamente é mais viril. Talvez por conhecer melhor as potencialidades de movimento e volume de seu próprio corpo, eles saibam explorar a beleza e a sensualidade masculina. Mapplethorpe e Bruce Weber fizeram isso de forma definitiva."


Depoimento: Créo Kellab

"Agora eu sei como as mulheres se sentem... "

Ator, tem 12 anos de carreira. Mineiro, há dez vive no Rio. Atuou nas peças "A gaiola das loucas" e "Blue jeans", entre outras. Participou de novelas como "Felicidade", na Globo, e "Louca paixão", na Record. Atualmente, ensaia a peça "A arte de viver da arte", escrita pela atriz Nicole Puzzi, ao lado do atleta e ator debutante, Robson Caetano. Iniciou na carreira de modelo em 1989. Posou nu para a revista GMagazine. O ensaio foi publicado em maio deste ano.

Na hora "H"

"Assinei o contrato com a G em março. Até acontecer o ensaio, em maio é que fui pensar direito no assunto, e isso foi me deixando cada vez mais ansioso. Na véspera da primeira sessão de fotos, eram três e meia da manhã e eu estava malhando na academia do hotel, pra poder dormir. No dia seguinte, fui levado pela equipe de produção das fotos para Mairiporã, perto de São Paulo, pois o ensaio ia ser ao ar livre. Como o tempo estava fechado, fomos para o estúdio, em São Paulo, onde, finalmente fui apresentado para a fotógrafa Alessandra Levtchenko. Eu estava supertenso e ela conseguiu me deixar a vontade, pois tem experiência no assunto e é uma pessoa super "na boa". Mesmo assim, foi difícil conseguir uma ereção. Tomei um uísque e nada. Me deram umas revistas de sacanagem, não teve jeito. Então, comecei a pensar com cabeça de ator, criei um personagem e a coisa começou a melhorar. Teve uma produtora que me ajudou muito, falando umas sacanagens no meu ouvido. Depois de mais ou menos uma hora, consegui ficar de pau duro. No segundo dia, o tempo estava bom e fomos fazer as externas na represa de Mairiporã. Eu já estava mais entrosado com o pessoal e até curti ficar nu, me senti livre.

A família, a namorada, os amigos

"Porque a gente não é como mulher, que abre a perna e pronto. No Brasil isso de homem tirar foto pelado é novo, mexe com a cabeça da gente. Depois que você tira a roupa, as pessoas te olham diferente. Graças a Deus, minha família deu o maior apoio. Meu pai disse brincando que posaria nu, se pudesse. Minha mãe, a princípio, quis ver as fotos com tarjas, mas depois desencanou. Minha namorada também, me incentiva muito. Isso faz parte da minha carreira de ator e modelo e todos, inclusive meus amigos, acharam normal. O problema é a gente mesmo."

Assédio sexual

"Pouco depois das fotos, participei de um desfile no interior de São Paulo e as mulheres gritavam, se resgavam por mim. Me senti um verdadeiro ídolo. Outra vez, em Belém, depois de uma noite de autógrafos da revista, fui a uma boate e uma mulher, bêbada, simplesmente começou a pegar no meu pau. Eu não sabia como reagir: queria que ela parasse, mas ao mesmo tempo estava passado. Agora eu sei como as mulheres se sentem... Tem também os que brincam, e dá pra levar numa boa. No primeiro dia depois que a revista saiu nas bancas, fui malhar na praia e duas bichinhas passaram por mim cantarolando "eu já te vi pelado, la-la-ri-la-la-la". Dei risada. Uma coisa eu posso dizer: posar nu muda a cabeça da gente. Com certeza, rompi uma barreira e agora, tenho uma relação com o corpo muito mais relaxada"

 

 


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